Militares elogiam Mourão, mas creem que chapa militar pode isolar Bolsonaro

Luis Kawaguti

Do UOL, no Rio

  • Marcelo Chello/CJPress/Folhapress

    5.ago.2018 - Jair Bolsonaro (e), Levy Fidelix (c) e General Antonio Mourão participam de convenção nacional do PRTB em São Paulo

    5.ago.2018 - Jair Bolsonaro (e), Levy Fidelix (c) e General Antonio Mourão participam de convenção nacional do PRTB em São Paulo

A escolha do general Antônio Hamilton Martins Mourão (PRTB) para vice na candidatura de Jair Bolsonaro (PSL) dividiu opiniões de militares ouvidos pelo UOL. Para alguns, Mourão está preparado e agrega conhecimento, prestígio e uma aliança para o PSL. Outros dizem que uma chapa puramente militar pode isolar Bolsonaro na direita.

A reportagem conversou com cinco oficiais influentes do Exército, alguns deles ligados à cúpula da instituição e outros da reserva. Todos eles se disseram simpatizantes da candidatura de Bolsonaro, mas ainda não decidiram seus votos.

As opiniões deles são individuais e não refletem a posição do Exército. O comandante da força, general Eduardo Villas Boas, vem adotando medidas nos últimos meses para reforçar a neutralidade político-partidária da instituição. Ele já afirmou que nenhum candidato, de qualquer espectro político, fala pelo Exército.

Leia também:

Parte dos oficiais ouvidos pela reportagem disseram que a presença de Mourão na chapa deve render a Bolsonaro a maioria dos votos dos militares e de suas famílias. "Alguns militares ainda estavam em dúvida sobre Bolsonaro, agora com Mourão isso deve acabar", disse um coronel ao UOL.

Porém, quatro dos cinco entrevistados disseram se preocupar com um possível isolamento de Bolsonaro e Mourão à direita.

"O ideal não seria outro militar [para vice de Bolsonaro], mas alguém que aproximasse a candidatura dos eleitores do centrão. Bolsonaro não vai ter sucesso se optar pela polarização", disse um general ligado à cúpula do Exército que pediu para não ter o nome revelado.

Militares da ativa não falam abertamente sobre questões políticas, pois tradicionalmente só o comandante do Exército se pronuncia sobre isso.

"A Janaina Paschoal [PSL] tinha alguma razão dizendo que o PSL não pode ser o PT ao contrário. Ter dois militares na mesma chapa pode não ser tão producente. Neste momento é preciso unir a nação", disse outro coronel, também anonimamente.

Conhecimentos

A escolha de Mourão ocorreu após Bolsonaro tentar trazer para sua chapa o senador Magno Malta (PR), que preferiu tentar reeleição no Senado, o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, que foi impedido por seu partido, o PRP, e Janaina Paschoal (PSL), que alegou questões pessoais para não aceitar o convite. Mourão dizia desde o início que estava "no banco de reservas".

De acordo com o mesmo coronel ouvido pelo UOL, por outro lado, Mourão é considerado muito preparado técnica e academicamente e pode trazer conhecimentos que Bolsonaro não tem, segundo ele. "Por exemplo, o general Mourão foi Secretário de Economia e Finanças do Exército, isso traz muita experiência que ele pode levar para a chapa", disse.

Bolsonaro tem afirmado em suas entrevistas que não é economista e, se for eleito, as decisões econômicas de seu governo serão tratadas por seu assessor Paulo Guedes.

"O nível intelectual e de conhecimento do país que o general Mourão tem é muito alto, é superior ao do Bolsonaro", disse um dos militares. "Moralmente ele vai agregar muito, é muito objetivo e acho que não vai se corromper em nenhuma hipótese."

Segundo outro coronel, dois militares em uma mesma chapa tem um aspeto positivo para seus apoiadores:

"Se forem eleitos, a oposição de esquerda não vai querer tentar pedir o impeachment de Bolsonaro, porque quem entraria no lugar dele seria o general Mourão", disse.

Ele apontou como outro aspecto positivo a coligação do PSL de Bolsonaro com o PRTB de Mourão. "O PRTB é um partido pequeno, mas pelo menos o PSL não está mais isolado", disse.

Hierarquia

O fato de Mourão ser um general e ter sido apontado como vice de Bolsonaro, que chegou até a patente de capitão antes de entrar para a política, incomoda alguns militares.

"Tem muito oficial que não vai aceitar um general de Exército como vice de um capitão. A hierarquia está no nosso sangue, não sai", disse um general.

"Acho que não será uma convivência tranquila. Um capitão com um general? Não será fácil", disse um tenente (um posto abaixo de capitão) da reserva.

Bolsonaro foi para a reserva do Exército automaticamente ao ser eleito vereador no final da década de 1980 e atualmente é um militar reformado.

Mourão foi membro do Alto Comando do Exército até passar para a reserva em fevereiro de 2018. Ele se tornou conhecido do público quando criticou publicamente o governo de Dilma Rousseff (PT) e, em setembro do ano passado, em uma crítica à corrupção na política, ele citou a possibilidade de uma intervenção militar durante um evento da comunidade maçônica em Brasília. 

Suas declarações fizeram o comandante do Exército e o Ministro da Defesa terem que dar explicações ao governo — o que dividiu as opiniões de militares. No domingo (5), Mourão explicou o comentário.

"Foi uma questão de interpretação. Não fui feliz na forma que eu respondi. As Forças Armadas são responsáveis por garantir os poderes constitucionais, e a lei e a ordem quando fala nisso, fala em garantir a democracia e a paz social. Se o caos se instalar no país, se a lei for desrespeitada, então compete às Forças Armadas impedir que isso ocorra. Mas felizmente tudo está caminhando da forma como tem que ser. Apesar de todos os problemas, o Brasil é maior que isso é nós vamos superar", afirmou.

Cúpula do Exército

Além disso, o fato de um general que já foi da cúpula do Exército entrar oficialmente em uma chapa bem colocada nas pesquisas eleitorais aumenta a preocupação da instituição em desvincular sua imagem das eleições, segundo outra fonte do Exército.

Em maio, o comandante Villas Boas lançou uma campanha de mídia no YouTube para mostrar que o Exército é uma instituição de estado e tem sua própria agenda — ligada à defesa nacional, aos investimentos nas Forças Armadas e à remuneração dos militares.

Villas Boas criou ainda uma série de normas que impedem candidatos de fazerem campanha dentro de quartéis. Já antes da escolha de Mourão, ele elaborou normas genéricas para tratamento de todos os candidatos nas instituições militares e algumas específicas que visam os candidatos militares — para que não tenham vantagem em relação a candidatos civis.

Assim, todos os candidatos que quiserem visitar unidades militares só poderão entrar com agendamento prévio e depois de revelarem sobre quais assuntos querem tratar.

Eles também serão filmados durante toda a visita (para evitar mal entendidos futuros) e não poderão fazer vídeos e fotos de promoção pessoal dentro da instituição.

O comandante proibiu ainda que os candidatos militares apareçam fardados em suas campanhas eleitorais.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

UOL Newsletter

Para começar e terminar o dia bem informado.

Quero Receber

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos