Opinião: É danoso quando militares não passam imagem de neutralidade

Rafael Alcadipani*

  • Arquivo pessoal

É a primeira vez desde a redemocratização do país que os militares brasileiros, tanto das Forças Armadas quanto das PMs, estão ocupando posição de destaque na política. Além da chapa vencedora do primeiro turno das eleições ser composta por ex-oficiais das Forças Armadas, em estados como São Paulo, por exemplo, candidatos a vice-governadores vieram das fileiras da PM (Polícia Militar) e um dos senadores eleitos é ex-oficial da instituição.

No total, 72 militares foram eleitos para cargos legislativos nesta eleição, conforme noticiou o UOL. Além disso, durante as eleições, inúmeras imagens das PMs foram utilizadas na propaganda política dos candidatos ligados ao militarismo país a fora. Em São Paulo, inclusive, uma das representantes da PM eleita usou para sua campanha política as cenas do momento em que ela neutraliza um criminoso que veio posteriormente a entrar em óbito.

Boa parte dos ex-militares e ex-policiais eleitos adotam uma visão próxima do desejo de parte da população de que "bandido bom é bandido morto". Jair Bolsonaro (PSL) tem em sua equipe de campanha ex-membros das Forças Armadas e promete trazer para seu eventual governo inúmeros militares, além de defende as escolas militares como uma das soluções para os problemas educacionais do Brasil.

Há inúmeras imagens de Bolsonaro junto a PMs e membros das Forças Armadas durante sua campanha eleitoral. Vale frisar que a grande maioria dos eleitos são representantes do oficialato, não das praças.

Embora as instituições de estado militares sejam neutras politicamente, a larga presença de militares dentre os políticos no atual momento faz com que um eventual novo governo de Bolsonaro seja percebido pelo cidadão comum como um governo que representa as instituições militares brasileiras.

As linhas de fronteira entre instituições militares e a política partidária nunca estiveram tão tênues na história recente do Brasil. As pessoas têm dificuldade de notar que um governo Jair Bolsonaro não é um governo das instituições militares, mas sim um governo composto por militares. Separar o militar da instituição é muito difícil para o senso comum, ainda mais quando militares da ativa, especialmente no caso de policiais, utilizam o seus perfis nas redes sociais para declarar apoio a políticos oriundos de sua instituição.

As Forças Armadas são, hoje, a instituição mais respeitada do Brasil, segundo o Índice de Confiança na Justiça, publicado pela Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas. Trata-se de uma conquista que durou décadas após o término do Regime Militar e a proximidade entre militares e ex-militares e política pode trazer mais dados do que benefícios à reputação do militarismo e das instituições militares no Brasil.

O país possui problemas estruturais e de grande complexidade que não serão resolvidos em um curto espaço de tempo. Com isso, caso após algum tempo da presença de militares na política não haja melhorias efetivas para a população, os militares serão também responsabilizados pelos problemas brasileiros acarretando um grande risco a sua imagem institucional e a sua reputação no longo prazo.

A situação ficará ainda mais séria se militares-políticos aparecerem em escândalos de corrupção ou defendendo arbitrariedades como já aconteceu na campanha política. Há ainda a possibilidade de a população em geral sofrer com a perda de direitos durante a necessária reforma da previdência sem que nenhum direito dos militares seja retirado.

Isso pode levar as pessoas a verem políticos militares como preocupados apenas com as suas demandas em detrimento das demandas do povo. Aliás, as falas do general vice de Bolsonaro contra os direitos das pessoas já produziu danos de imagem institucional aos militares brasileiros.

Ademais, há muita desconfiança que um governo repleto de militares possa decidir retornar aos períodos do regime ditatorial brasileiro caso as demoradas e necessárias negociações da democracia não aconteçam como deseja o governo.

Se, por um lado, há nas Forças Armadas uma tradição de respeito às instituições, por outro, as feridas do regime militar estão ainda abertas

Além disso, hoje, muitas pessoas não percebem as Forças Armadas e as PMs como instituições ideológica e politicamente neutras, mas sim como instituições que assumiram um lado na polarização política e social brasileira.

É muito danoso para o país quando instituições que possuem o monopólio da força do Estado não passam uma imagem de isenção e neutralidade. Tal quadro piora quando o grande líder dos militares na política brasileira e muitos dos políticos militares eleitos possuem inúmeras falas contra homoafetivos, mulheres, negros e demais minorias. 

Após esta campanha eleitoral, há o potencial de cristalizar em parte da sociedade a imagem de militares como sendo figuras preconceituosas, violentas e que procuram defender a sua ideologia a todo custo. Isso é lamentável, pois trata-se de uma imagem caricata que não faz jus a realidade de boa parte dos atuais membros das Forças Armadas e das PMs brasileiras.

Em geral, militares são profissionais extremamente bem treinados, qualificados e que desempenham uma função social importante em qualquer democracia. Desde a redemocratização, nossos militares têm cumprido à risca o seu papel de respeito a ordem democrática vigente. Porém, quando militares se misturam com a política partidária, os danos para as instituições no longo prazo podem ser significativos.

* Rafael Alcadipani é professor-adjunto da FGV-EAESP (Fundação Getulio Vargas), membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do International Visiting Fellow no Crime and Security Research Institute, na Universidade de Cardiff, no Reino Unido

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