Militante pró-Bolsonaro se infiltra em ato por Haddad: Estou num país livre

Luciana Amaral

Do UOL, em Brasília

"Haddad, cadê você? Eu vim aqui só pra te ver!". "Bate panela, pode bater! Quem tira o povo da miséria é o PT". A porta de um hotel de luxo em Brasília estava em clima de festa: o candidato do PT à Presidência da República, Fernando Haddad, havia prometido descer em minutos para cumprimentar a militância do partido que o esperava com bandeiras e gritos de apoio.

No meio de dezenas de militantes vermelhos, uma mulher de camiseta preta e um papel branco A4 enrolado na mão também esperava por Haddad. Mas, diferentemente dos outros presentes, não se juntava nas palavras de ordem. Ela se infiltrou na multidão para protestar e demonstrar apoio ao adversário de Haddad no segundo turno, Jair Bolsonaro (PSL).

Quando Haddad saiu da recepção e foi saudado pelos apoiadores, ela desenrolou o papel e mostrou o escrito "Bolsonaro, presidente, 17". Alguns petistas começaram a chamá-la de "fascista" e "doente", mas em nenhum momento a reportagem presenciou tentativas de agressão. A mulher, então, entrou em um salão de beleza, cujos funcionários e clientes ela conhecia e filmavam o princípio de tumulto. De dentro, ela pulava e ria quando uma militante pró-Haddad tentou pegar o papel.

Os próprios petistas, como um assessor da deputada federal Érika Kokay (PT-DF), ajudaram a fechar a porta do estabelecimento para impedir eventual confronto e pediram "deixa disso", "ela quer é isso".

Luciana Amaral/UOL
Militante pró-Bolsonaro provoca petistas
Momentos após o ato, ela aceitou falar com a reportagem do UOL. Sentada em uma cadeira e de olho no celular, a mulher se identificou como Izabel Lima, recepcionista e moradora de Brasília. Perguntada sobre o motivo de se infiltrar à espera de Haddad, ela disse que queria se manifestar e o fez respeitosamente.

"Eu quis me manifestar. Qual o problema? Não agredi ninguém, não xinguei ninguém. Simplesmente estava lá e mostrei a plaquinha do meu candidato. Somente. Assim como os petistas também mostram, né? Quando tem do Bolsonaro também. Não tem nada a ver. Não agredi ninguém, não xinguei ninguém, tratei todo mundo com respeito", declarou.

Questionada se não via o ato como uma provocação em meio a uma onda de ataques e de polarização política, ela deu os ombros e falou que "Por eles, sim, né?". Ela justificou ter rido quando a vaiaram e tentaram arrancar seu papel de suas mãos. "Eu estava rindo disso. Até onde sei, estou num país livre. Posso me manifestar", afirmou.

Izabel disse ter se sentido hostilizada na porta do salão e ter "quase apanhado". "Só porque eu ergui a plaquinha do meu candidato, o Bolsonaro", falou. "Qual é o problema? Não é uma democracia? Qual a diferença de eu erguer a plaquinha aqui e ter um adesivo na minha camiseta ou no vidro do meu carro?".

Quanto a agressões que vêm ocorrendo por ambos os lados, disse achar "uma vergonha" e acreditar que Bolsonaro não tem um discurso de ódio. "[As pessoas] tentam manipular isso. É muita frescura, na minha opinião", comentou.

"A maioria dos artistas já fizeram esse gesto de armas [com as mãos], correto? Só o Bolsonaro levou porrada por ter feito o gesto. É muita hipocrisia. Dizem que é ódio, é violência. Mas, o Barack Obama já fez isso e ninguém falou nada. A Jojo Toddynho, que fez isso também, ninguém falou nada."

Ela afirmou nunca ter ido a movimentos pró-Bolsonaro em Brasília por conta do trabalho, mas pretende ir, se tiver oportunidade. Como eleitora dele, defendeu que Bolsonaro tem de repousar e, por isso, não deve ir aos debates por recomendação médica.

Indagada se se considera feminista, disse que "não igual a essas aí que acham que ganhar direito para as mulheres é ir para as ruas mostrar os peitos e não depilar as axilas".

Entrevista muda de local após chegada de bolsonaristas

Mais cedo, Haddad se encontrou com bispos na CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Inicialmente, a entrevista dele à imprensa seria no local. No entanto, os assessores e os seguranças do candidato preferiram transferir a agenda depois da chegada de dois apoiadores de Jair Bolsonaro (PSL).

Um estava em uma caminhonete cheia de adesivos de Bolsonaro e vestido com uma camiseta amarela semelhante à que o candidato usava quando foi atingido por um ataque a faca em Juiz de Fora, em Minas Gerais. Outro carregava uma bandeira do Brasil.

Policiais federais que fazem a escolta de Haddad – segurança disponível a todos os candidatos à Presidência – tentaram convencer os homens a irem embora, em vão. Eles se aproximaram do portão da CNBB e gritaram palavras de ordem contra Haddad, o PT e a entidade católica.

"Nós estamos aqui democraticamente. Não vem bancar o valentão aqui, não. Eu posso estar aqui", falou. "Olha o que esses bandidos fazem. Estão usando o nome de Deus para afrontar a própria palavra de Deus. Eles estão afrontando o próprio Deus. E pega dinheiro dos fiéis que acreditam na palavra de Deus para jogar em ONGs abortivas", falou um.

Um deles seguiu a imprensa e, barrado na recepção do hotel onde Haddad deu coletiva e continuou a gritar, chamando Haddad de "moleque" e "comunista".

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