MPF investiga jogo em que personagem de Bolsonaro espanca gays

Mirthyani Bezerra

Do UOL, em São Paulo

  • Divulgação/BS Studios

    No jogo, Bolsonaro espanca e mata opositores

    No jogo, Bolsonaro espanca e mata opositores

O MPF (Ministério Público Federal) instaurou procedimento para apurar a denúncia contra um jogo chamado "Bolsomito 2K18" em que um personagem que representa o candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, aparece espancando LGBTs, mulheres, negros e militantes de esquerda. A denúncia, feita pela Aliança Nacional LGBTI+, foi recebida pelo órgão nesta quarta-feira (10).

A descrição do jogo pede que o participante "derrote os demônios comunistas" em um desafio "politicamente incorreto". "Seja o herói que livrará um país da miséria". A assessoria de imprensa do MPF informou ao UOL que até o fim da semana o caso será distribuído a um dos procuradores que irá apurar a denúncia. 

"O jogo desenvolvido pela BS Studio, e disponibilizado na plataforma Steam, deturpa o processo eleitoral; e, mais gravemente, colabora para a naturalização da violência contra feministas, LGBTI+, população negra e militantes. A legitimação do extermínio de populações vulnerabilizadas não tem lugar no estado democrático de direito", diz o ofício da Aliança para o MPF.

O UOL Jogos procurou o BS Studios pela página do Facebook, porém a mesma foi apagada nesta semana. A empresa não tem site.

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Toni Reis, presidente da entidade, conta que eles também estão compilando os casos de agressão e ameaça sofridas por LGBTIs durante o processo eleitoral e que também acionará o Ministério Público.

Segundo o Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos, 184 denúncias de violência física e discriminação foram registradas entre 16 de agosto até a última terça (9) -- o número é menor do que o registrado no mesmo período de 2017.

Reprodução/Facebook
A transexual Jullyana Barbosa, agredida no Rio, mostra marcas da violência

Há vários relatos de violência contra gays e opositores de Bolsonaro circulando nas redes sociais, como o da transexual Jullyana Barbosa, que disse ter sido agredida no sábado (6) de manhã em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, com gritos de homofobia e apologia a Bolsonaro, e de uma mulher de 19 anos que afirmou ter sido marcada na barriga por três agressores em represália por estar usando uma camiseta com a frase #Elenão.

Na semana do primeiro turno, um vídeo gravado na estação Sé do metrô, em São Paulo, mostrou torcedores entoando o grito homofóbico "ô bicharada, toma cuidado, o Bolsonaro vai matar veado".

Segundo Reis, de segunda-feira (8), um dia após o primeiro turno, até esta quarta (10), a entidade recebeu 15 denúncias de casos envolvendo apenas LBGTIs agredidos e ameaçados por pessoas que citaram o candidato durante essas ações.

"Nós estamos super-apreensivos. Acabamos de publicar uma nota denunciando isso. Vamos traduzi-la para o inglês, pedindo aos observadores da OEA [Organização de Estados Americanos] que não verifiquem só a questão das urnas, mas do povo brasileiro", diz Reis ao UOL.

Associações orientam que vítimas denunciem

A nota divulgada nesta quarta-feira pela entidade, que também é assinada pelo Grupo Gay da Bahia, Grupo de Advogados pela Diversidade Sexual e de Gênero, e pelo Grupo de Resistência Asa Branca, pede a todas as instituições democráticas do país, "aos Ministérios Públicos Estaduais e Federal, às defensorias, que investiguem, punam e tomem todas as providências cabíveis para que não haja violação dos direitos constitucionais e, principalmente, intimidação da comunidade LGBTI+". Reis afirma que há casos em todo o Brasil.

"Estamos vendo com Google, Facebook, Google Maps, para mapear essas denúncias. São de vários lugares do Brasil, de Belo Horizonte, de São Paulo, aqui em Curitiba. Aqui, o caso mais forte foi que um cara matou um LGBT, o colocou no armário e saiu gritando 'Viva Bolsonaro'. Ele era meu amigo", conta.

Reis pede que quem tiver denúncias sobre casos dessa natureza envie um e-mail para a Aliança (aliancalgbti@gmail.com). 

Luiz Mott, professor titular do departamento de antropologia da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e fundador do Grupo Gay da Bahia, também colocou a sede do Grupo, que fica no Pelourinho, em Salvador, à disposição dos LGBTs para receber denúncias, além dos demais canais de informação da entidade. O telefone de lá é o (71) 3322-2552.

Afirma, no entanto, ser importante que a pessoa agredida, ameaçada, publique seus casos nas redes sociais e faça o registro na delegacia. "Primeiro é gritar e depois fazer a denúncia. Vá na delegacia, procure a defensoria pública, seja o caso de violência verbal ou física", aconselha. E acrescenta:

Tomem cuidando, principalmente as pessoas trans, travestis e gays mais afeminados, que são os que estão mais na ponta. Não estou dizendo que é para voltar para o armário, não é isso, mas tomem mais cuidado. Evitem manifestação de carinho em locais públicos onde pode haver intolerância, em locais desertos, principalmente se você é travesti ou gay afeminado"

Luiz Mott, antropólogo e fundador do GGB

Casos de agressão aumentam sensação de medo de LGBTs

Em uma rápida pesquisa pelas palavras-chave "LGBT", "Bolsonaro", "gays" no Twitter e Facebook é possível identificar postagens de LGBTs temerosos com os ataques.

Um estilista carioca que pediu à reportagem para não ser identificado relatou que só não apanhou porque conseguiu correr. Ele contou ao UOL que no início da semana estava saindo para trabalhar, perto das 14h, no bairro da Glória, na zona sul do Rio de Janeiro. Andava no contra-fluxo de uma rua movimentada, quando homens passaram de carro, desceram do veículo e foram em direção a ele gritando "é o viadinho do Carnaval" - o homem é conhecido nos blocos de carnaval cariocas --, "Isso vai acabar", "Bolsonaro"

"Eu sou estilista, estava usando um macacão de malha que eu costumo usar e que é muito afinado, e com três bottoms no peito e um óculos um pouco mais excêntrico. Eles deram uma pequena acelerada e frearam o carro. O pneu cantou e eu me assustei, olhei para trás. Eles já estavam saindo do carro", conta.

O homem correu e os supostos apoiadores do candidato do PSL correram atrás dele, segundo o relato. "Eu subi a escadaria de três em três degraus. Eu voltei para casa, e me tranquei, me isolei, não quis falar com ninguém. Eu sabia que era sobre Bolsonaro, sabia que era homofobia, mas não sabia qual era a proporção da coisa", contou.

"Eu sou uma pessoa tão querida, faço questão de ser simpático com todo mundo. Eu propago tanto o bem, eu respeito tanto o outro. Não é só questão de medo e violência urbana, é outra questão. É medo de existir. Eu não posso deixar de ser o que eu sou", afirmou o estilista.

Uma jovem pernambucana de 18 anos também conversou com o UOL sob condição de anonimato, por medo de sofrer represália. Ela disse que já evita manifestações de afeto em locais públicos com a namorada, que tem 20 anos. "Infelizmente temos que nos prevenir quanto a isso, pois a gente nunca sabe quando alguém irá nos agredir seja física ou verbalmente", diz.

Ela contou estava no shopping com a namorada na terça-feira (9) no município de Jaboatão dos Guararapes (PE), quando um homem que vinha em direção a elas gritou para as duas "Vai Bolsonaro" ao perceber que elas eram namoradas. "Ficamos bastante assustadas. Quando é algo que acontece com outras pessoas a gente costuma falar ''Eu teria rebatido, teria falado isso e aquilo', mas quando acontece com a gente de fato, simplesmente paralisamos, e nos sentimos incapazes de fazer ou falar nada", disse.

Em um relato feito no Facebook, no último dia 8, um professor de inglês contou que uma aluna dele estava com a namorada em uma estação de metrô em São Paulo quando um homem que usava uma camiseta com o rosto de Bolsonaro a empurrou em direção aos trilhos, gritando "Viva Bolsonaro". Ela não se feriu fisicamente.

Bolsonaro lamenta violência; LGBTs dizem que ele é "mentor"

Um dia após dizer não ser responsável por atos violentos cometidos por seus apoiadores, Bolsonaro afirmou nesta quarta pelo Twitter que dispensa o voto dos que estão praticando violência. Ele também lamentou os ataques. "A este tipo de gente peço que vote nulo ou na oposição por coerência, e que as autoridades tomem as medidas cabíveis, assim como contra caluniadores que tentam nos prejudicar", disse por meio do Twitter.

Para Marcelo Cerqueira, presidente do Grupo Gay da Bahia, as falas de Bolsonaro contra gays o tornaram "mentor intelectual" das agressões.

"O discurso dele serve de mentor intelectual, mesmo que ele não diga mais essas coisas. Mesmo que ele não fale, como já falou. O discurso de ódio fortalece as pessoas que são simpatizantes dele para que sejam opressoras", diz.

"Quando ele fala que tem que bater em gay, que ser gay é falta de porrada, está legitimando atitudes como essa, fazendo com que os fascistas, as pessoas de extrema-direita, saiam do armário", diz Toni Reis, da Aliança Nacional LGBTI+.

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