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Leia a transcrição da entrevista de Geraldo Alckmin à Folha e ao UOL

Do UOL, em Brasília

17/08/2012 07h00

Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, participou do "Poder e Política", projeto do UOL e da Folha conduzido pelo jornalista Fernando Rodrigues. A gravação ocorreu em 16.ago.2012 no estúdio do Grupo Folha em Brasília.

 

 

Geraldo Alckmin – 16/8/2012

Narração de abertura: O governador de São Paulo, Geraldo José Rodrigues Alckmin Filho, é médico e tem 59 anos. Começou sua carreira no PMDB. Em 1988 ajudou a fundar o PSDB, seu atual partido.

Aos 19 anos, Alckmin foi vereador em sua cidade natal, Pindamonhangaba. Aos 23, tornou-se prefeito da cidade. Em seguida, foi deputado estadual e duas vezes federal.

Vice-governador, Alckmin assumiu o Estado de São Paulo em 2001 por causa da morte do titular, Mário Covas. No ano seguinte, 2002, venceu a eleição e continuou no cargo. Em 2010, Alckmin se candidatou novamente a governador de São Paulo. Ganhou no primeiro turno.

Alckmin foi derrotado nas duas vezes em que disputou a prefeitura da cidade de São Paulo: nos anos de 2000 e 2008. Também perdeu a eleição de 2006, quando disputou a Presidência da República... contra Lula.

Agora, em 2012, Alckmin apoia a candidatura de José Serra para prefeito de São Paulo em 2012.

Folha/UOL: Olá internauta. Bem-vindo a mais um "Poder e Política".

Este programa é uma realização do jornal Folha de S.Paulo e do portal UOL. A gravação é realizada aqui, no estúdio do Grupo Folha, em Brasília.

Hoje, o entrevistado desta edição é o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.

Folha/UOL: Governador, muito obrigado por estar aqui, no estúdio do Grupo Folha em Brasília. Eu começo perguntando: O sr. está em Brasília porque vai assinar o acordo de ajuste fiscal com o governo federal, junto com outros estados também, que permitirá o aumento do limite de endividamento dos estados, inclusive de São Paulo. Por conta disso, qual o valor São Paulo poderá arrecadar mais de recursos, aumentar a sua dívida e onde serão investidos esses recursos?
Geraldo Alckmin: Olha, Fernando Rodrigues, quero cumprimentá-lo, cumprimentar todos os internautas do UOL, leitores da Folha de S.Paulo. E dizer que nós estamos assinando o chamado PAF, Programa de Ajuste Fiscal. Então, no ano passado, o PAF deu espaço fiscal de sete bilhões para o Estado de São Paulo. Ou seja, o governo pode captar sete bilhões de novos financiamentos. E este ano superamos o ano passado: dez bilhões de reais. Então, no ano passado e mais este ano, dá 17 bilhões de espaço fiscal.

Folha/UOL: E onde esse dinheiro vai ser investido no Estado de São Paulo?
Geraldo Alckmin: Ele vai ser investido especialmente em mobilidade urbana. E sobre trilhos. Então, 70% praticamente desse recurso é metrô. Novas linhas de metrô. Monotrilho. Por exemplo, a que vai para a Zona Leste de São Paulo, lá para a Cidade Tiradentes, que é uma grande obra. Sai de Vila Prudente, São Mateus, Sapopemba, vai até Cidade Tiradentes na ponta da Zona Leste. Trem. Só uma compra de trem que nós abrimos a licitação são 65 trens. Cada trem tem oito carros. Dá 524. Então, a grande parte é trem, CPTM, metrô, monotrilho, obras de saneamento e obras rodoviárias, por exemplo, a ligação de São José dos Campos, com Guaratatuba, com literal norte.

Eu queria destaca, Fernando Rodrigues, o seguinte: isto é resultado da grande disciplina fiscal, da forte disciplina fiscal do governo do Estado de São Paulo desde a época do Mário Covas. Então, nós tínhamos uma relação entre a dívida sobre a receita corrente líquida de 2,2 vezes. E hoje é 1,4. É o menor endividamento da série histórica, quer dizer, a dívida do estado está caindo. Por isso que abriu esse espaço fiscal. E quando a gente faz um financiamento no BID [Banco Interamericano de Desenvolvimento], no Banco Mundial, na Jica [Agência de Cooperação Internacional do Japão], no Japão, é 1% a taxa de juros ao ano, sem correção monetária.

Folha/UOL: Ou seja, muito vantajoso para o Estado. No caso do metrô, quando o sr. assumiu agora esse seu mandato atual, em janeiro de 2011, quantos quilômetros tinha em operação do metrô e quantos quilômetros haverá em operação em dezembro de 2014, quando o sr. termina este mandato?
Geraldo Alckmin: Olha, nós tínhamos em torno de 66, 67 quilômetros. Hoje tem 72 quilômetros. Eu espero com esta linha, que á a linha dois, empregar 30 quilômetros, que é a que vai para a Cidade Tiradentes. Então nós vamos para 102 quilômetros. E, em obras e canteiro, 90 quilômetros de metrôs. Em seis, sete anos, nós vamos para 200 quilômetros entre metrô e monotrilho.

Agora, vamos entregar muitas estações. Mas a gente não conta em quilômetro. Por exemplo, a linha amarela, a linha quatro do metrô, tem 12 quilômetros. Ela sai desde a estação da Luz, desce a Rebouças, passa pelo estádio do Morumbi, vai até Vila Sônia, divisa com Taboão da Serra. Os dois quilômetros estão prontos. Só que só estão operando seis estações. Eu vou entregar mais cinco estações no ano que vem e em 2014. Isso não está incluído na quilometragem porque os 12 quilômetros já estão inclusos. Hoje nós temos, Fernando Rodrigues, em São Paulo, quatro linhas de metrô em obras simultâneas. Nós temos a linha dois, que é da Zona Lesta, vai de Vila Prudente até Cidade Tiradentes. Temos a linha quatro, que é essa nova, da Luz, Vila Sônia, que é o trem mais moderno, não tem operadora, só sistema, que vamos entregar cinco estações. Temos a linha cinco, que está parada Santo Amaro e ela vai até Chácara Klabin. São mais 11 estações. E temos a [linha] 17, que é a do estádio do Morumbi. É o monotrilho, que sai do aeroporto de Congonhas, nós vamos ter o aeroporto ligado dentro dele com o monotrilho, até o estádio do Morumbi e Francisco Morato.

Folha/UOL: Recapitulando: no caso de metrô especificamente, são cerca de 30 quilômetros a mais, é isso?
Geraldo Alckmin: Nós vamos entregar 30 quilômetros a mais...

Folha/UOL: Até o final do seu mandato?
Geraldo Alckmin: Até o final do nosso mandato, 2014. Noventa quilômetros em canteiro e vamos entregar muitas estações. Quer dizer, não são só os 30 quilômetros porque, por exemplo, a linha 4 nós vamos entregar cinco estações. A linha cinco  acho que só dá para entregar uma ou duas. Mas vamos deixar nove... Atrasou um ano. Vai entregar em 2015.

Eu diria que o metrô está num bom ritmo. Quatro obras simultâneas e nós poderemos ter sete obras simultâneas porque a linha seis vai ser licitada agora, é uma PPP. Aliás, estou indo ao ministro Guido Mantega porque foi feito uma Medida Provisória pela presidenta Dilma Rousseff, aliás, que nós insistimos muito para desonerar as PPPs senão elas ficam muito caras se você tributar 30% de imposto sobre a PPP. A Medida Provisória foi feita, está no Congresso Nacional, mas nós lemos a medida e verificamos que ela não desonera. Ela só posterga; Então vou pedir para essa medida ser aperfeiçoada

Folha/UOL: O governo federal anunciou um programa amplo de concessões à iniciativa privada, ou privatizações, como queira. Entre esses setores que estão para ser concedidos, estão os aeroportos. Em São Paulo, além de Guarulhos e Viracopos, o sr., como governador... Eu sei que os aeroportos não estão sob seus cuidados, mas, além de Guarulhos e de Viracopos, quais aeroportos em São Paulo poderia ser entregues também à iniciativa privada, na sua opinião?
Geraldo Alckmin: Olha, Fernando Rodrigues, o governo federal tem os três grandes aeroportos. Então ele fez a concessão de Viracopos, em Campinas, que foi, no ano passado, o segundo aeroporto que mais cresceu no mundo, por causa da Azul. Aumentou muito o número de passageiros lá. E Cumbica, em Guarulhos. Só não fez a concessão de Congonhas, que é federal. Agora, o Estado, o governo estadual, tem 31 aeroportos. Então nós temos Ribeirão Preto, Rio Preto, Presidente Prudente, Marília, Jundiaí, Sorocaba. Temos 31. E estamos, nesse momento, estudando um modelo de concessão para os nossos aeroportos regionais.

Folha/UOL: Para quando deve ser isso?
Geraldo Alckmin: Em 30 dias nós esperamos concluir esse trabalho. Não quer dizer que nós vamos fazer a concessão dos 31. Isso não. Mas nós temos, desde Registro, no Vale do Ribeira, que acabou de ficar pronto. Nós estamos pedindo na ANAC a autorização para...

Folha/UOL: Quantos, o sr. imagina, ou na faixa de quantos, devem ser concedidos?
Geraldo Alckmin: Olha, de oito a 12. Mas são aeroportos muito importantes. O aeroporto de Ribeirão Preto tem um movimento enorme. Rio Preto, Presidente Prudente... E o porquê da concessão? Para aumentar o investimento. Nós não queremos vender concessão. Nós não queremos ônus de concessão. Receber dinheiro pela venda da concessão por 25 a 30 anos. Nós queremos é um forte investimento na infraestrutura aeroportuária. O modal que mais se cresce hoje, no Brasil, é aerovia. Então ela cresce o triplo do crescimento da economia.

Folha/UOL: O governo federal, que hoje é comandado pelo PT, tem, enfim, agora feito várias concessões e andado em direção a esse modelo mais privatizado. Eu cubro política há algum tempo e me recordo da eleição de 2006 quando o sr. foi candidato a presidente foi muito criticado , houve um debate sobre as privatizações do PSDB, o PT era contra. O que aconteceu? O PT estava errado? Acerta agora? Qual a sua opinião?
Geraldo Alckmin: Olha, nada como ser governo, né? Quer dizer, o PT, na oposição, sempre foi crítico. Seja à privatização, venda de ativo, seja concessão: estrada, aeroportos, portos. Nós não mudamos. Nós sempre defendemos. Porque entendemos que no estado moderno, o Estado não é provedor de tudo porque não tem dinheiro pra tudo. E nem deve ser executor de tudo. Então, qual o modelo que nós defendemos? Resgatar planejamento, ser indutor do desenvolvimento e aí a importância das agências reguladores. As agências precisam ser profissionalizadas, estarem fora de âmbito político-partidário, são órgãos de estado porque extrapolam o mandato...

Folha/UOL: Acha que o PT aparelhou as agências?
Geraldo Alckmin: Eu acho que precisa ter um cuidado nessa questão porque a concessão é boa ou é ruim? Eu acho que, se houver boa regulação e fiscalização, é muito bom. Se não tiver bom marco regulatório e não tiver fiscalização, é muito ruim. Então a concessão só funciona com bom marco regulatório e com fiscalização. E aí o papel das agências é central.

Folha/UOL: O sr. acha que a presidente Dilma fez o que deveria ter feito no sentido de deixar as agências independentes para atuarem dessa forma?
Geraldo Alckmin: Eu entendo que sim. Eu fui ao lançamento desse pacote de concessões que incluiu rodovias, nenhuma em São Paulo. Porque São Paulo quase não tem BR, né? Todas as rodovias são estaduais. As duas BRs principais são a Dutra, que já é concessionada, três, a Fernão Dias, que é concessionada, e a Régis Bittencourt. Tem mais uma ali, perto de Rio Preto, mas são poucas. Então não há concessão de rodovia em São Paulo. Mas nós defendemos o modelo. O caminho está correto e pode aumentar muito investimento, o que é emprego na veia, né? Você gera emprego.

E no caso das ferrovias, aí São Paulo tem um papel importante. Lá estão previstos quatro grandes obras: O ferroanel norte, que nós estamos adiantando os estudos para o Ministério dos Transporte; O ferroanel sul, porque o trem hoje, Fernando Rodrigues, passa dentro da cidade, o trem de carga. Imagine um trem de um quilômetro de comprimento passando pela estação da Luz com carga. Então não cabe mais. Nós já tiramos o caminhão com o rodoanel, que fica pronto, a asa leste, agora em 2014. 2015 a norte, fechou o rodoanel. Agora, o ferroanel. E a nossa proposta é fazer junto, é fazer do lado do rodoanel norte. Então, tem previsto o rodoanel norte, ferroanel sul e ferroanel norte para levar ao porto de Santos a carga. E a descida da serra para Cubatão e ao porto. E, uma obra importante também, ligando Panorama, na divisa com Mato Grosso do Sul, e do Mato Grosso do Sul até Estrela d’Oeste.

Folha/UOL: Deixa eu perguntar para o sr. sobre violência. O PSDB está no governo em São Paulo indo para quase 20 anos de governo, não é? E há uma sensação das pessoas em São Paulo quando a gente faz as pesquisas de que a violência continua sendo um problema gravíssimo. Por quê?
Geraldo Alckmin: Olha, Fernando Rodrigues, eu acho que é importante a gente mostrar o que ocorreu nesses últimos dez anos. Se você pegar os dados oficiais do Ministério da Justiça e do Ministério da Saúde, qual o principal crime? É o crime contra a vida. Homicídio e latrocínio. São Paulo era, o Estado de São Paulo, o 25º estado mais violento. Nós tínhamos 35 homicídios por cem mil habitantes. Morreram no ano 2000, 12.800 pessoas, vítimas de homicídio. Isso foi caindo: doze, onde, dez, nove, oito, sete, seis, cinco... No ano passado foi 4.300. Nós saímos de 35 para 10 [mortos a cada cem mil habitantes]. Que é o que recomenda a Organização Mundial de Saúde.

O Brasil, nesses dez anos, reduziu 2%. São Paulo reduziu quase 70% e o Rio de Janeiro quase 50%. Se você tirar São Paulo e Rio de Janeiro, o Brasil inteiro cresceu. Teve estado que cresceu 300%. Então, a primeira constatação é o seguinte: plano de segurança é nacional. Porque nós estamos na ponta, pegando arma, pegando traficante. Mas precisa ter polícia de fronteira, Precisa ter uma ação nacional. São Paulo não produz cocaína. Produz cana, laranja, milho. Como é que entra essa droga? Óbvio que entra pela fronteira. Tráfico de armas, armas pesadíssimas. O fato é que a segurança... nós tínhamos três sequestros por dia. Hoje isso quase acabou em São Paulo. Reduziu, assim, drasticamente. Agora, você tem o problema de roubo e furto. Crime contra o patrimônio.

Folha/UOL: Isso que eu ia falar para o sr., que a sensação das pessoas é que a violência, a segurança não está boa. Por que será?
Geraldo Alckmin: Bom, você tem, primeiro, droga. Isso é uma questão crescente. O crack vicia muito rapidamente. Ele rapidamente vicia. E ele é uma droga que não é cara como a cocaína, é uma droga barata. Então você tem um aumento da questão do crack e do consumo de droga. Você pegar os jovens da Fundação Casa, a maioria que foi presa é roubo por causa da droga.

O que nós estamos fazendo então, vamos às soluções aí. Primeiro, nós tivemos um stress aí no mês de junho e julho que acho que já passou. Por quê? Você vai apertando, apertando, apertando na chamada biqueira, que é a ponta do tráfico de drogas. Pessoal sai dando tiro na polícia pra desviar a atenção, para tirar o foco da polícia. Isso periodicamente ocorre. Mas acho que esse stress passou e nós estamos reforçando o policiamento preventivo. Bases comunitárias da polícia eram 200. Já são 500 hoje. Nós vamos triplicar as bases comunitárias móveis. Dessas móveis em que você tem uma base fixa. Aquele entorno fica ótimo, três quarteirões depois, não tem segurança. Então, a base móvel você tem mais mobilidade. Vamos por sete mil policiais numa reengenharia que nós fazendo para policiamento de rua. Fortalecer a Polícia Civil e a Polícia Judiciária Investigativa e, enfim, um trabalho importante. E é uma guerra. Você tem que vencer batalha aí todo dia.

Folha/UOL: Maioridade penal. Hoje um menor de 17 anos que comete homicídio pode acabar sendo internado na Fundação Casa até os 21, no máximo. O que o sr. acha que poderia ser feito, ou não há o que se fazer a respeito de maioridade penal?
Geraldo Alckmin: Fernando Rodrigues, eu defendo duas mudanças que não dependem de alteração constitucional.

Folha/UOL: Quais são elas?
Geraldo Alckmin: A primeira: Hoje, o jovem com 17 anos e 11 meses, ele comete um crime, dois, três, quatro, cinco homicídios graves, não pode passar de três anos e sai com ficha limpa. Se você não tem limite, você não educa. Precisa ter limite. Então nós estabelecemos o seguinte: “Olha, não são três não. Pode ficar cinco, pode ficar oito, pode ficar mais, dependendo do tipo de crime”.

Folha/UOL: Mas isso não fere a maioridade penal?
Geraldo Alckmin: Não. Você não vai reduzir a maioridade. Você poderia reduzir, mas aí precisaria mexer na Constituição Brasileira.

Folha/UOL: Mas como é que vai manter recluso um jovem de 17 anos?
Geraldo Alckmin: Ué? Como a lei disse que é três o máximo, ela pode dizer que, para casos graves, pode ser cinco, pode ser seis. A mesma lei que diz que é três, pode ter uma, por acaso, uma...

Folha/UOL: O sr. está propondo uma mudança na lei?
Geraldo Alckmin: Estou propondo uma mudança na lei. Não entrar em discussão constitucional senão não sai, vai ficar uma discussão infinita. Segunda mudança: hoje, não é adolescente, é uma pessoa com 20 anos e 11 meses, está na Fundação Casa. Ele é adolescente? Não é. Ele é criança? Não é. O que ele está fazendo na Fundação Casa com 20 anos e 11 meses? O que o mundo inteiro faz? Quando ele completa 18 anos, o juiz analisa o caso. “Pode sair”. Pronto, saiu. Vai conviver  a família e com a sociedade. “Não pode sair”. Vai pro sistema prisional. Ala isolada. Não tem nenhum contato com os demais presos. Mas não tem sentido, manter na Fundação Casa quem tem 20 anos e meio. Essa é a segunda mudança.

Folha/UOL:Nesse caso, uma mudança na lei seria necessária?
Geraldo Alckmin: Na lei também. Também não mexe em alteração constitucional.

Folha/UOL:Essa lei teria que ser mudada aqui no Congresso?

Geraldo Alckmin: Aqui em Brasília. Então o que eu fiz? Quando eu era governador da outra vez, eu vim ao presidente da Câmara Federal e entreguei as duas propostas elaboradas por um grande professor de Direito Constitucional, que é o professor Alexandre Morais, que foi, inclusive, do Conselho Nacional de Justiça, o CNJ. Não aconteceu nada. Eu vou refazer esse trabalho. Vou refazer e pretendo apresentar de novo à Câmara e pedir a bancada do meu partido, o PSDB, que a bancada federal o apresente para tramitar. Não altera a Constituição. Apenas a lei.

Folha/UOL:Nesse caso, o sr. vai precisar de apoio um pouco mais amplo do que o do seu partido. O sr. pretende falar com a presidente Dilma ou com outros partidos a respeito disso?

Geraldo Alckmin: Olha, ele não vai ser apresentado por um deputado. Pretendo que se peça é que a bancada apresente e que peça assinatura das demais bancadas. Aí um trabalho de convencimento. Vou conversar através do Ministro da Justiça, o professor José Eduardo Cardozo.

Folha/UOL: O sr. já falou com alguém no âmbito federal a respeito dessa sua proposta? 

Geraldo Alckmin: Falei da outra vez...

Folha/UOL:Mas ai já passou. E agora?

Geraldo Alckmin: Já. Mas eu vejo o seguinte: eu vou falar. Agora, é preciso a sociedade amadurecer e pressionar. Não vai entrar em discussão constitucional, “vamos reduzir de 18 para 17, para 16” nada. Somente alteração de lei ordinária ou complementar.

Folha/UOL: Esse limite de três anos que a lei estabelece hoje para menores de 18 anos ficarem internado, o sr. acha que deveria ser alterado para até quantos anos?

Geraldo Alckmin: Até oito anos. Foi a proposta que eu fiz. Eu ouvi uma entrevista de um membro do Ministério Público em Marília, alguns anos atrás, onde um jovem matou o outro e ele já estava internado na Fundação Casa. Aí, o jornalista pergunta a ele: “Por que isso aconteceu?” Ele falou: “Olha, a entidade é nova. A Fundação Casa aqui é nova, não tem superlotação, tem professores, tem monitores, tem trabalhos sociais, socioeducativo...”. Agora, por que matou o outro? Pela certeza de impunidade. Mata um, mata dois, mata três. Não passa dos três anos. Então, evidente que não é o correto. E a outra é essa história de ficar em fundação para adolescente quem tem quase 21 anos de idade.

Folha/UOL: Preciso falar um pouco sobre política com o sr. O sr. tinha no seu gabinete, é sabido, um quadro com o presidente Rodrigues Alves, um paulista. E dizia que isso era fonte de inspiração para o sr. Recentemente, eu soube, o sr. retirou esse quadro. O sr. me corrija se eu estiver errado. Então também [siginifica] que acabou a inspiração, o sr. desistiu de pensar em ser presidente da República?
Geraldo Alckmin: [risos] Não, o quadro, ele realmente não está no meu gabinete. Mas ele está no salão chamado "dos despachos", que é o salão ali do lado, um salão maior, que tem cerimônias etc. 

O Rodrigues Alves é interessante… Eu sou do Vale do Paraíba, nasci em Pindamonhangaba. E a minha família é de Guaratinguetá. O Rodrigues Alves foi o único presidente eleito duas vezes antes do Fernando Henrique e do Lula. Porque não tinha reeleição no Brasil. Então ele foi governador de São Paulo, foi presidente, voltou a ser governador, depois foi candidato a presidente, se elegeu a segunda vez e morreu igual o dr. Tancredo [Neves]. Entre a eleição e a posse. Morreu de gripe espanhola. A gripe espanhola matou, em 1918, 300 mil brasileiros. E o Rodrigues Alves... Eu brincava com o Fernando Henrique quando ele deixou a presidência: “Ô presidente, o sr. pode ser candidato a governador aí de novo, aí ó. O Rodrigues Alves, depois de ser presidente da República foi governador. Mas, bons exemplos, boas inspirações continuam. Mas eu não tenho nenhum objetivo de disputar a eleição presidencial. 

Folha/UOL: Seu caminho natural seria disputar a reeleição [para o cargo de governador] em 2014?
Geraldo Alckmin: Olha, está longe ainda, né, Fernando? Está longe. Eu acho que tem que passar primeiro por 2012. Mas hoje nós estamos concentrados em fazer um bom trabalho em São Paulo e muito animados. Eu acho que São Paulo, mesmo com a crise econômica mundial, vive um bom momento. Só para pegar um setor, a indústria automobilística, inauguramos agora, há 15 dias, a fábrica da Toyota em Sorocaba, com 11 sistemistas em volta. Em novembro, vamos inaugurar a fábrica da Hyundai, em Piracicaba, no parque tecnológico enorme. Está em obras aceleradas a Chery, em Jacareí, uma indústria chinesa de automóveis. A Comil acabou de assinar contrato fazer uma fábrica de ônibus em Lorena, no Vale do Paraíba, enfim. Eu acho que São Paulo, mesmo com a crise internacional e as dificuldades, vive um bom momento.

Folha/UOL: Deixe-me voltar à política. O sr. falou que está cedo para o sr., mas todo mundo diz que o sr. pode vir a ser candidato à reeleição para o governo. O ex-governador, o ex-prefeito José Serra agora disputa a Prefeitura de São Paulo, se vencer tem dito que vai ficar lá, prefeito, se vencer…
Geraldo Alckmin: Tem dito e eu acredito. Eu acho que o Serra está indo muito bem. E se ganhar a eleição ele vai cumprir o mandato.

Folha/UOL: Daí sobre o senador Aécio Neves [do PSDB-MG] que tem, enfim, se apresentado eventualmente como candidato. Mas, se Aécio Neves não for candidato, quais seriam os outros nomes que o PSDB teria a oferecer como candidato a presidente?
Geraldo Alckmin: Aí, ou nós trazemos o quadro do Rodrigues Alves de volta para o gabinete, ou nós temos aí o Beto Richa [governador do Paraná, do PSDB], o professor Anastasia [governador de Minas Gerais, do PSDB]. Você tem bons quadros.

Eu defendo que o PSDB tenha candidato a presidente. Eu tenho um apreço pela presidenta Dilma, respeito. Nós temos feito uma parceria produtiva em benefício dos brasileiros de São Paulo, rodoanel, hidrovia, ferroanel, programas habitacionais. Mas o Brasil precisa de partidos com programa, preparados para a alternância de poder. Senão vira uma grande família. Acabou a oposição… Então nós defendemos sim o PSDB na oposição e com candidato para 2014.

Folha/UOL:Eventualmente, a oposição poderia se unir um pouco e ter um candidato, eventualmente, de fora do PSDB?
Geraldo Alckmin: Poder, pode. Mas acho pouco provável porque o PSDB é um partido grande. Um partido que tem oito governadores no Brasil. Uma bancada importante. É natural que o partido queira ter candidato a presidente.

Folha/UOL: O sr. acha que o nome de Eduardo Campos, do PSB, que volta e meia é citado como eventual candidato a presidente?
Geraldo Alckmin: Eu acho um bom nome. Eu acho que é uma liderança importante.

Folha/UOL: O PSDB poderia apoiá-lo, ou não?
Geraldo Alckmin: Acho pouco provável. Acho que todo o caminho do PSDB é para ter candidatura própria. Mas acho que o diálogo, as pontes, são necessários.

Folha/UOL: O sr. enxerga muitas diferenças entre a presidente Dilma e o ex-presidente Lula?
Geraldo Alckmin: Olha, diferenças de estilo, né? O presidente Lula era um grande comunicador com o povo. A presidente Dilma é muito intuitiva, é mais discreta, no que eu até acho que é uma qualidade importante. Mas, enfim, são estilos diferentes. E momentos, né? E momentos também diferentes. Mas eu acho que o Brasil está em um outro patamar. E entendo que ele mudou de patamar com o Real, lá trás, com o Fernando Henrique na época do presidente Itamar [Franco], depois o governo Fernando Henrique. A estabilidade monetária mudou o Brasil. A minha geração não sabia o que era moeda estável.

Folha/UOL: Em São Paulo, o sr. acha que o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, é mais um aliado de José Serra ou do PSDB?
Geraldo Alckmin:  Olha, ele foi, na última eleição… estivemos juntos… Em 2010, né. O Kassab esta no Democratas e estivemos juntos na eleição, o PSDB e os Democratas.

Na eleição do Serra também está junto. Estamos juntos lá na eleição municipal. Em relação ao futuro, as pessoas têm liberdade, enfim, autonomia. No que depender de nós, vamos estar sempre no próximo… no importante diálogo aí.

Folha/UOL: Faltam cerca de 50 dias para a eleição de prefeito em São Paulo. Está longe, mas está perto, não é? Longe, alguns falam, porque não começou a propaganda de TV. Mas está aí já a eleição. Em geral, nas últimas eleições, tem sempre um candidato do PT no segundo turno para a disputa local em São Paulo. Este ano, as coisas ainda não estão muito claras. O sr. acha que essa polarização do PT contra alguém, enfim, concorrendo contra o PT, vai se repetir?
Geraldo Alckmin: Olha, cada eleição é uma eleição, né? Difícil de você prever. Agora, eu estou otimista quanto ao nosso candidato Serra. Por três razões. Primeiro, pela forma como nasceu a sua candidatura. O Serra passou pelo crivo do partido, debates, [eleição] primária. Então, foi escolhido pelas bases do partido. Depois, além de ter nascido aí de uma primária que, aliás, eu vejo com simpatia, com boa possibilidade para a eleição presidencial… Você fazer também uma primária [para a eleição presidencial], abrir esse debate no partido, ouvir mais o partido... Depois, fez uma boa aliança. O Serra tem, junto com o candidato do PT, o maior tempo de televisão. Então, fez uma boa aliança. E está fazendo uma boa campanha, que é uma campanha direto com a população. Ouvindo, dialogando, interagindo, muito perto. Indo aos bairros. Então eu acho que está indo muito bem. Quem vai ser o adversário aí mais forte...

Folha/UOL: Qual o seu palpite?
Geraldo Alckmin: Ah, difícil. Aí é o povo é que [risos]… Não dá para escolher.

Folha/UOL: O sr. deve ter algum palpite. Com a sua experiência, o sr. deve ter, não é?
Geraldo Alckmin: Ah, mas muda muito, né. Você colocou bem, Fernando, o seguinte: campanha mesmo, pra valer, começa quando muda o horário da novela. Ou seja, o horário do rádio e da televisão, que é dia 21 de agosto. E ela esquenta mesmo, dizia o Hélio Garcia, depois da parada. Da parada militar, ou seja, Sete de Setembro. Então, é difícil de prever. Mas nós estamos otimistas. Serra começou bem, fez uma boa aliança e está indo muito bem.

Folha/UOL: O candidato do PMDB a prefeito de São Paulo, Gabriel Chalita, tem dito em entrevistas sempre que uma de suas vantagens comparativas em relação aos demais é ter um excelente relacionamento com o governador de São Paulo. Vende isso como uma vantagem. É correto ter essa a atitude dele de usar eleitoralmente essa amizade que tem com o sr.?
Geraldo Alckmin: Olha, as pessoas têm toda a liberdade de falar, de expor as suas ideias. Eu só tenho um candidato. É o Serra. Até pelos laços, desde o tempo do governo Montoro e porque faço política com princípios. Pertenço a um partido. Meu partido tem candidato, é o melhor candidato. Escolheu democraticamente. Então, o nosso candidato é o Serra. Isso não quer dizer que a gente precise brigar com todos os outros.

Folha/UOL: O sr. mencionou um pouco antes sobre essa dúvida que sempre, sobretudo por parte dos adversários, existe em relação a José Serra. De ele, se ganhar, permanecer no cargo por 4 anos, uma vez que, no passado, ganhou a eleição para prefeito e não ficou o mandato inteiro. O sr. acha que hoje, se ganhar, ele de fato irá cumprir na integridade o mandato?
Geraldo Alckmin: Entendo que sim. Primeiro, porque o Serra tem dito que vai ficar até 31 de dezembro de 2016. Segundo, porque, se você olhar o que aconteceu em 2006, é de Ortega y Gasset: “Eu sou eu e a minha circunstância”. Aquele era o outro momento. Nós não tínhamos candidato a governador de São Paulo. Era uma eleição difícil, tanto em nível nacional e estadual. Tanto a população entendeu, que ele foi eleito governador no primeiro turno. Então, aquela foi uma circunstância. Agora é outra. Então, acredito que não [que Serra não irá deixar o mandato de prefeito antes do fim se ganhar a eleição]. Acredito que é para ficar os quatro anos e fazer um bom trabalho.

Folha/UOL: O sr., como governador de São Paulo, do PSDB, e um dos fiadores da candidatura de Serra, poderia afiançar para os eleitores isso?
Geraldo Alckmin: O Serra afirma e eu acredito. Eu acho que sim.

Folha/UOL: O sr. acha que poderia, digamos, assinar um documento…
Geraldo Alckmin: [risos]

Folha/UOL: …[um documento] dizendo: “Eu acho que Serra vai ficar os quatro anos”?
Geraldo Alckmin: [risos] Fernando, eu não posso assinar...

Folha/UOL: Se o sr. quiser, a gente tem um documento pronto aqui para o sr.
Geraldo Alckmin: …um documento que não depende de mim. Mas eu acho que a palavra do Serra é suficiente.

Folha/UOL: O sr. não se sentiria a vontade, talvez, pra dizer que “eu acho que Serra vai ficar”?
Geraldo Alckmin: Não, eu me sentiria totalmente a vontade. Eu só acho que não tem sentido eu assinar um documento em nome de terceiros. Não posso fazer isso.

Folha/UOL: Não. Mas, assim, dizer que o sr. envidaria os esforços para que ele ficasse?
Geraldo Alckmin: [risos] É óbvio que a palavra do nosso candidato é suficiente.

Folha/UOL: Governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, muito obrigado por sua entrevista à Folha de S.Paulo e ao UOL.
Geraldo Alckmin: Muito obrigado, Fernando Rodrigues. Cumprimentos a todos os internautas e a todos leitores da Folha.

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