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Para cientistas políticos, ambição pelo poder fez Temer abandonar discrição

Pedro Ladeira/Folhapress
Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress

Paula Bianchi

Do UOL, no Rio

09/12/2015 06h00

Há 14 anos à frente do PMDB e cinco como vice-presidente, Michel Temer deixou de lado a sua postura discreta, de articulador nos bastidores, e surpreendeu ao, em pleno momento de crise, explicitar as divergências com o governo em uma carta destinada diretamente à presidente Dilma Rousseff. No texto, ele lista uma série de episódios que demonstrariam a "absoluta desconfiança" que sempre existiu em relação a ele e ao PMDB por parte da petista e alega que passou os quatro primeiros anos do governo como "vice decorativo". "Sempre tive ciência da absoluta desconfiança da senhora e do seu entorno em relação a mim e ao PMDB", escreveu.

Para os cientistas políticos ouvidos pelo UOL, no entanto, o texto coroa uma decisão do vice de se posicionar como possível postulante ao governo. Cientista político e professor da PUC, Ricardo Ismael frisa que não se trata de uma “mudança de estilo”, mas de “um lance no xadrez da política”. O movimento, diz, já podia ser percebido desde agosto, quando afirmou que era preciso encontrar "alguém capaz de reunificar a todos", passando pelo programa do PMDB, “Uma Ponte para o Futuro”, feito sob a supervisão de Temer, que critica a política econômica do governo Dilma. “O Temer colocou o nome dele na mesa na eventualidade de um impeachment”, afirma Ismael.

Segundo ele, a carta é uma forma de forçar uma ruptura com o governo e também de ganhar o PMDB na Câmara de Deputados, minando a força política do líder do partido na Casa, Leonardo Picciani (PMDB-RJ), que já se posicionou a favor de Dilma. O partido hoje preside e tem as maiores bancadas da Câmara e do Senado, o maior número de governadores (sete) e elegeu em 2012 o maior número de prefeitos (1.024, ou 18,4% do total) e será o fiel da balança na definição do processo de impeachment. “Não há como ser presidente sem o apoio do próprio partido. E todas as ações agora são para definir o que o PMDB vai decidir”, afirma. O cientista político Cláudio Couto, da FGV, também vê na carta uma forma de “fragilizar” o governo. “Se foi um vazamento dele próprio é uma tentativa de jogar fogo no governo. E ele conseguiu”, afirma.

Doutor em direito e jurista respeitado, Temer teve uma longa carreira política, marcada pela sua atuação nos bastidores e em momentos de crise. Nascido em 23 de setembro de 1940 em Tietê (160 km de São Paulo), Temer foi forjado no PMDB paulista, onde ocupou os cargos de secretário de Segurança Pública (1984-1986 e 1992-1993) e de Governo do Estado (1993-1994) nos governos Franco Montoro, Orestes Quércia e Luiz Antônio Fleury Filho, todos peemedebistas - Montoro sairia do partido para a fundação do PSDB, em 1988.

Manteve-se fiel ao "quercismo" enquanto a associação com o ex-governador paulista era viável politicamente. À medida que o prestígio de Quércia definhava, afastou-se e tornou-se figura independente no PMDB paulista. Ganhou força como articulador político e ampliou sua influência do partido. Integrou a base de FHC na Câmara e articulou, em 2002, a indicação da peemedebista Rita Camata (ES) como vice na chapa de José Serra nas eleições daquele ano. Derrotado, aproximou-se dos petistas, que, a princípio, o evitaram. Mas, no fim de 2009, garantiu a vice da chapa de Dilma Rousseff nas eleições de 2010 para o PMDB. O escolhido seria ele mesmo.

A rebelião de Temer contra Dilma começou depois de nomeado articulador político do governo, em abril. No fim de agosto, o vice teria se irritado com Dilma por não ter sido consultado sobre a possibilidade da recriação da CPMF. Deixou o cargo e começou a defender ideias como "o governo precisa evitar remédios amargos para sair da crise" e "ninguém vai resistir três anos e meio com esse índice de aprovação", chegando à decisão de enviar uma carta explicitando sua insatisfação a Dilma.

A carta, para Ismael, é “um lance que o planalto não esperava, não sabe como responder, deixa o Temer na dianteira”. “Se antes era Dilma contra [Eduardo] Cunha, agora é Dilma contra Temer. E esse jogo a Dilma tem muito mais dificuldade de enfrentar”, afirma.

(Colaborou: Márcio Padrão)

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