Acampado na Paulista: como é um dia do grupo que quer derrubar Dilma na rua

Pablo Raphael

Do UOL, em São Paulo

A ocupação de vias públicas tem sido uma estratégia de protesto comum na última década: foi assim nos EUA, no Egito e na Ucrânia. Grupos mais ou menos organizados se juntam espontaneamente para exigir mudanças e permanecem num local até que suas demandas sejam atendidas (ou não). Desde a última quarta-feira (16), um grupo se instalou na avenida Paulista, em São Paulo, com a promessa de só sair de lá quando a presidente Dilma Rousseff deixar o governo e Lula for preso pela Operação Lava Jato. O UOL foi lá ver como é um dia desse acampamento em um dos maiores cartões postais da cidade.

O acampamento fica em frente ao prédio da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) -- nos primeiros dias, as barracas ocupavam a avenida; agora, elas ficam na calçada junto ao portão da federação. Só vão para a pista no domingo, dia em que a Paulista é fechada para o trânsito de veículos. O grupo ainda é pequeno: eram cerca de 70 pessoas acampadas na manhã deste domingo (20), com mais outras 30 que ajudavam no revezamento nas manifestações.

Não é muita gente, mas é um grupo que está crescendo. Na manhã de sábado, dia 19 de março, quando cheguei ao local, eram apenas 18 barracas ocupadas. Em menos de 24 horas, já eram 36.

Pablo Raphael/UOL
O SENHOR DAS BARRACAS - Renato Tamoio é o dono das barracas usadas no acampamento pró-impeachment na avenida Paulista. "Tenho 250 barracas", diz o empresário, que afirma ter adquirido isso tudo para apoiar atos contra o governo do PT em 2014. "Tenho um dever patriótico, como empresário e pai de 5 filhos". Assim como alguns outros membros do acampamento, Renato é a favor da intervenção militar. "Não estamos do lado do partido A ou do partido B".

Ao chegar ao acampamento, em meio aos manifestantes que também adotaram o semáforo local para protestar contra o governo, fui abordado por Daniela, uma das jovens que tomou para si a tarefa de organizar o grupo e os simpatizantes. Minha intenção era entrar para o grupo, fazer parte do acampamento por pelo menos um dia inteiro. Para isso, precisei deixar meu nome e telefone com Daniela, que colocou uma fita de pano amarela no meu pulso. "É para identificar com quem eu já falei", explicou. "E para que você tenha acesso ao acampamento".

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A IDEALISTA - Daniela é uma ativista que veio para a avenida após a nomeação de Lula como ministro e permaneceu, junto com alguns colegas, em frente ao prédio da Fiesp, durante a manifestação pró-governo na sexta-feira (18). "Não queríamos confrontar ninguém, mas não íamos deixar que tomassem o lugar que prometemos manter até a saída da Dilma". Ela passa boa parte do dia tentando organizar as coisas no acampamento e explicar a manifestação para recém-chegados. "Não temos líderes, decidimos as coisas no voto".

Fizeram uma votação sobre a proibição das bebidas alcoólicas no acampamento. "Tivemos problemas com gente bêbada nos primeiros dias, chegavam os repórteres e o pessoal estava de ressaca, com várias garrafas pelo chão. Isso não dá", explica. A falta de uma liderança unificada, porém, tira o valor dessas decisões e vai da consciência de cada integrante acatar o que foi decidido. Sobre a bebida: No final da tarde em diante, sempre aparecia um dos campistas com uma lata de cerveja na mão. Pelo menos um permaneceu bebendo durante a manhã seguinte.

Você não bebe antes de ir trabalhar, é preciso encarar o protesto como o seu trabalho" Daniela 

O apartidarismo foi um ponto que todos os membros fizeram questão de realçar nas primeiras horas que passei ali. O acampamento na Paulista não tem o apoio de nenhum partido político e não foi criado por nenhum dos movimentos sociais de direita que pipocam nas redes sociais. Mas basta ficar um pouco por ali para ver que estes movimentos estão sempre tentando 'tirar uma lasquinha' do protesto, principalmente quando emissoras de TV estão por perto.

São grupos como "Revoltados On-Line" ou manifestantes a favor da intervenção militar, que querem levar carros de som e faixas para o ponto, mas são afastados pela Resistência Paulista, nome dos acampados -- pelo menos durante a manhã, horário em que a televisão está de olho no grupo. À tarde, pela necessidade de fazer volume para levar a manifestação da calçada e da faixa de pedestres para as faixas da avenida, todo apoio é bem-vindo.

Pablo Raphael/UOL
O PORTA-VOZ - Bruno é ator e pelo traquejo fácil diante das câmeras, é o escolhido do grupo para dar entrevistas. "Para mim é ruim pela profissão", explica o ator, que já fez comerciais para a Petrobrás, entre outras empresas do governo. "Agora estou aqui, lutando pelo país. É a minha cara que vai ficar marcada", comenta, chateado com possíveis oportunidades perdidas no futuro. Bruno acredita na causa apartidária do acampamento, na luta contra a corrupção e a impunidade. Esse é o motivo pelo qual se dispõe a falar com a imprensa sempre que possível. "É isso, ou vão entrevistar algum intervencionista que nem está no acampamento".

Qualquer um que chegue à área do acampamento é bem recebido, membros do grupo estão prontos para conversar e explicar o objetivo do protesto. Só não pode ser alguém de esquerda ou um mendigo. Por já chegarem no meio do grupo ofendendo os participantes, os opositores são recebidos com agressividade. Vi pelo menos três discussões dos campistas com pessoas pró-governo, todas resolvidas com gritos e um 'chega para lá', em alguns casos com a PM (Polícia Militar) intervindo para afastar o opositor.

Falando nela, a PM está sempre por perto. Os policiais só se aproximam para tirar o pessoal da avenida, pedir silêncio depois de um certo horário e afastar adversários. Foi o que aconteceu após o grupo inflar um "Pixuleco", o famoso balão que representa Lula vestido de presidiário.

Após desenrolarmos o balão, que ocupou um trecho grande da calçada, e inflá-lo, por volta da meia-noite, um grupo apareceu gritando "não vai ter golpe" e outras palavras de ordem. Com medo de ter o boneco rasgado, alguns campistas foram em direção aos adversários. Foi quando uma viatura da PM veio do outro lado da Paulista, por sobre a faixa de pedestres, e conteve a situação antes que as coisas ficassem mais sérias.

De certa forma, é como se a PM fosse responsável pela segurança do acampamento e em troca o grupo se mantém comportado, sem ocupar a rua o tempo todo ou mesmo fazer barulho depois de um certo horário. É um protesto pacífico e controlado. Os campistas consideram que a PM está do lado deles, mesmo que os policiais não possam falar isso abertamente.

Pablo Raphael/UOL
A ATIVISTA - "Adoro intervencionistas", me disse Carla Zambelli, do movimento Nas Ruas, após discussão com um manifestante solitário favorável à intervenção militar, que incomodava o grupo na madrugada. "Não me leve a mal, tem intervencionistas no acampamento e eles são ótimas pessoas. Mas esse aí é um encrenqueiro, causador de confusão, que conheço desde 2011". Carla não conseguia dormir e cogitou deixar a ocupação, ao menos por uma noite, mas acabou ficando. Ela veio dos protestos em Brasília direto para a Paulista.

Sobre os mendigos: estranhou-me ver as pessoas falando em construir um Brasil melhor, tirando fotos da bandeira nacional estendida sobre a marquise do metrô, ao mesmo tempo em que ignoram o garoto de rua dormindo no chão logo ao lado. Ou, enquanto o grupo inflava o Pixuleco, ver uma manifestante expulsar um mendigo que resolveu se aproximar para pedir dinheiro com uma truculência desnecessária: "Não! Vai pra lá, estamos fazendo outra coisa aqui".

Na manhã de domingo, conversei com Patrícia, uma das muitas lideranças do acampamento, sobre isso. Segundo ela, no primeiro dia da ocupação, eles davam pão e comida para os moradores de rua que vinham pedir. "No dia seguinte se formou uma fila deles, com muitos drogados no meio", contou. Temendo pela segurança do acampamento, eles decidiram não dar mais comida para os mendigos ali em frente às barracas. "Se quiser, você pode pegar uns pães e ir lá do outro lado da avenida doar pra eles".

Diversidade dos acampados chama a atenção

Duas outras coisas me chamaram a atenção no acampamento da Paulista: a diversidade de pessoas que integram o grupo e o apoio que recebem da comunidade: Durante o dia que passei junto do acampamento, carreguei fardos de água, caixas com bolachas e sacos com frutas. Teve até quem doou banheiros químicos e a farmácia na esquina deixa os campistas usarem algumas tomadas para recarregarem os celulares.

O grupo é formado por pessoas de várias cidades, não só de São Paulo, de todas as raças e classes sociais. Há gente rica, empresários e jovens que se encaixam perfeitamente no estereótipo de "coxinha". Mas também há estudantes, doutorandos e mesmo desempregados - e alguns que largaram os empregos para estar ali, protestando. Brancos, negros e japoneses. É um cenário bem menos homogêneo do que o que se imagina ao ver fotos das manifestações nas redes sociais.

Carol é negra e não esconde a origem humilde enquanto agita bandeiras e cartazes para os carros que passam buzinando. Para ela, que está com a filha pequena na manifestação, "o acampamento é do povo brasileiro".

Sou da elite branca. Olha aqui o meu iPhone 6" Carol, negra, diz aos risos, mostrando um celular bem mais simples

Essa diversidade vale também para os objetivos e ideais de cada participante. Há desde ex-petistas desiludidos com o governo até aqueles que apoiam a intervenção militar, gays e fãs do deputado Jair Bolsonaro, e todo o espectro da direita entre esses pontos.

Até pessoas de pensamento mais independente se juntaram ao grupo, como Tiago, de 35 anos. "Eu era anarquista na juventude", conta o rapaz que trabalha na construção civil. "Não acho que tenha um partido ou outro que esteja certo. Mas depois da nomeação do Lula como ministro, não deu mais". Tiago veio para a Paulista na quarta-feira e conta que dormiu no meio da rua antes de chegarem as barracas.

O denominador comum entre os manifestantes é a queda da presidente Dilma Rousseff, a prisão de Lula e a continuidade da Operação Lava Jato.

Convivência dura

E se o discurso para quem passa na rua é facilitado por esta mensagem fácil e direta, o convívio dentro das barracas não é tão simples. Vi e ouvi muitas discussões no grupo, principalmente tarde da noite e na manhã de hoje (20) -- horários em que não há tantas pessoas passando pela Paulista. Geralmente são questões de organização, onde nem todos concordam com as regras estabelecidas, não porque não funcionam, mas por mesquinharia. Disputas pela paternidade do ato são típicas de eventos sem uma liderança clara.

Ainda que a chamada Resistência tenha um objetivo bem definido, os membros não concordam com o que querem para depois: muitos falam em continuar a caçada aos corruptos, em "pegar o Temer, o Cunha [Eduardo Cunha, do PMDB, presidente da Câmara dos Deputados], Aécio [Aécio Neves, senador pelo PSDB), Alckmin [Geraldo Alckmin, do PSDB, governador de São Paulo)". Outros já pensam em convocar novas eleições para presidente após o impeachment ou a renúncia de Dilma. Fala-se também em reforma constitucional, legalização do porte de armas e mudanças na Educação. Muitos acreditam que o maior legado dessa manifestação e da Lava Jato será o fim da impunidade.

"Temos um mês para mudar o Brasil", me disse Lucas, biomédico que entrou para o grupo por estar cansado da situação política e da saúde pública precária do Brasil. Lucas e outros campistas acreditam que o ato de ocupação em São Paulo vai inspirar os brasileiros em outras cidades a fazerem o mesmo. Mas concorda que primeiro é preciso colocar o grupo em ordem. "É preciso arrumar a casa. Se continuar assim, não vai durar".

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