Operação Lava Jato

Grampos revelam PT acuado e apelos a Lula para "salvar" governo como ministro

Wellington Ramalhoso

Do UOL, em São Paulo

  • André Dusek/Estadão Conteúdo

    Lula assinou o termo de posse, mas decisões judiciais impedem o exercídio do cargo

    Lula assinou o termo de posse, mas decisões judiciais impedem o exercídio do cargo

As conversas telefônicas divulgadas com autorização do juiz Sergio Moro na semana passada revelam que o PT se via acuado e em meio a uma guerra política mesmo antes de 4 de março, quando a Polícia Federal cumpriu um mandado de condução coercitiva e levou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para depor na operação Lava Jato. Também mostram que, depois do dia 4, a ida de Lula para o ministério era considerada uma espécie de última cartada para salvar o governo Dilma Rousseff.

Em 2 de março, antevéspera da condução coercitiva, Lula comentou com o senador Lindbergh Faria (PT-RJ) a avaliação que fazia do cenário político: "Estou com a seguinte tese: é guerra, viu? E quem tiver a artilharia mais forte ganha".

Lindbergh disse a Lula que ficaria "em cima" do senador Aécio Neves (PSDB-MG), citado em alguns depoimentos na operação Lava Jato. "Se a Andrade Gutierrez não acusar o PSDB nessa delação deles, é porque é uma farsa", afirmara o ex-presidente na ligação.

Dias antes, em 27 de fevereiro, o ex-presidente havia falado em tom parecido com o mesmo Lindbergh. "Acredito piamente que nossa bancada pode ser a redenção de nosso partido. É ir pro cacete, querido. Não tem mais jeito. [Eles] Não têm dó nem piedade da gente. Não dá mais, querido. Não tem escapatória."

Apelos

Uma semana depois, diante das dificuldades da presidente Dilma, que é alvo de um processo de impeachment, e do próprio Lula, integrantes do PT pediam ao ex-presidente que ele assumisse um cargo no ministério. A essa altura, Lula já teria recebido o convite de Dilma.

"O que vou lhe dizer outras pessoas já devem estar lhe dizendo. O Brasil precisa nesse instante de você aqui [em Brasília]. Sei que é uma operação que não é fácil para você. Há, pelo que sei, disposição dela [Dilma, de convidá-lo] e acho que vale a pena [aceitar o cargo de ministro]", disse o governador do Piauí, Wellington Dias (PT), a Lula no dia 9.

"Vou ter uma conversa com ela [Dilma] porque não é fácil, não é uma tarefa fácil. Jamais irei para o governo para me proteger", respondeu Lula, fazendo referência ao foro privilegiado dado a ministros, que só podem ser julgados pelo STF (Supremo Tribunal Federal). Sem o foro, Lula, investigado na Lava Jato, fica sujeito às decisões do juiz Sergio Moro, que é de primeira instância.

Precisa mais rapidez nas operações políticas ali. Frente a essa conjuntura, tudo que está acontecendo, essa violência de hoje, a necessidade de segurar o projeto... Sem você, não segura [o governo]
Deputado federal José Guimarães (PT-CE)

Lula e Dias também conversaram sobre medidas que poderiam ser tomadas na economia. "A coisa mais simples que ela [Dilma] tem de fazer é liberar financiamento para governadores e prefeitos e fazer o BNDES liberar dinheiro para obras do tal do PIL [Programa de Investimento em Logística] e do PAC [Programa de Aceleração do Crescimento]", afirmou Lula.

No dia seguinte, foi a vez de o líder do governo na Câmara, deputado federal José Guimarães (PT-CE), apelar para que Lula aceitasse o cargo de ministro. "Precisa mais rapidez nas operações políticas ali. Frente a essa conjuntura, tudo que está acontecendo, essa violência de hoje, a necessidade de segurar o projeto... Sem você, não segura [o governo]. Para dar a voltar por cima, só dá se você tiver dentro, no dia a dia".

Lula ainda parecia reticente em aceitar o cargo. "Eu estou tentando pensar. Não é uma tarefa fácil, não é uma coisa simples porque pode despertar também uma certa ciumeira em partidos da base que podem achar o Lula vem para cá para se fortalecer para ser presidente, [e dizer] 'não vamos aceitar nem fodendo'. A imprensa vai fazer uma campanha do caralho [contra a nomeação]".

"Dilma avessa à política"

Guimarães retrucou que havia apoio do líder do PMDB, Leonardo Picciani (RJ), e de representantes do PSD, do PR e PP. O deputado petista também fez críticas à maneira de governar da presidente Dilma.

"Esses líderes todos acham que é fundamental [Lula entrar no ministério] porque nós temos um problema. O jeito dela, o estilo foi muito caracterizado como avesso à política. Isso está bem consolidado na Câmara", declarou o parlamentar. "Tudo isso é muito travado, com um estilo muito burocrático, dificulta a rapidez nas decisões."

Conversa telefônica interceptada no dia 8 também revelara sugestão do cientista político Alberto Carlos Almeida, responsável por pesquisas qualitativas do governo, para que o ex-presidente assumisse uma pasta.

A nomeação de Lula como ministro-chefe da Casa Civil só saiu na quarta-feira passada, dia 16, e provocou protestos em várias cidades do país. As manifestações ganharam força após a divulgação das escutas telefônicas. Em uma delas, a presidente Dilma tratou com Lula sobre a assinatura do termo de posse.

A força-tarefa da Lava Jato entendeu que Dilma quis dar proteção jurídica a Lula com a nomeação ministerial. O governo negou que esta seria a intenção. Com a nomeação questionada na Justiça, Lula ainda não assumiu o cargo e agora estaria cogitando ser um articulador informal do governo.

Em grampos, Lula critica Dilma e Janot; ouça trechos

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