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Processo de impeachment

Dilma nunca pôde expressar seu perfil trabalhista, diz Roberto Romano

Guilherme Azevedo

Do UOL, em São Paulo

  • Arte/UOL

O perfil trabalhista de Dilma Rousseff desapareceu de seus mandatos presidenciais. A opinião é do professor de ética e filosofia Roberto Romano, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), que avalia também que os discursos da presidente Dilma Rousseff (PT) proferidos no 1º de Maio, Dia do Trabalho, "têm sido quase protocolares".

Isso se deve, diz Romano, ao fato de Dilma não ter conseguido expressar na Presidência da República sua tradição política trabalhista, que veio do PDT e sobretudo de sua proximidade com o pedetista histórico Leonel Brizola - linha herdeira do discurso que tem origem no ex-presidente Getúlio Vargas.

Embora nascida em Minas Gerais, foi no Rio Grande do Sul e no PDT gaúcho que a presidente se projetou politicamente no processo de redemocratização do Brasil. "Mas com Lula e o PT, que não têm essa tradição, ficou um pouco difícil de Dilma ter uma ligação própria com o trabalhismo", diz Romano.

O discurso trabalhista, explica o professor, se caracteriza por ser classista - "privilegiando os trabalhadores" - e se opõe, portanto, ao discurso do PT, de "os pobres versus as elites".Esse descompasso original das ideias se formalizaria no conteúdo com força política e transformadora reduzida, segundo o filósofo.

Romano diz que esse viés protocolar dos pronunciamentos de Dilma no Dia do Trabalho também tem raiz nos acordos de governabilidade estabelecidos pelo PT e por Luiz Inácio Lula da Silva durante seus dois mandatos. "Se Dilma retomasse Vargas, ficaria um pouco mais difícil de governar por causa desses acordos. Ela não pôde expressar isso."

5 momentos de Dilma no Dia do Trabalho

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Coerência e riscos

O professor de ciência política Francisco Fonseca, da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e da FGV-SP (Fundação Getulio Vargas de São Paulo), por sua vez, vê coerência nos discursos do 1º de Maio e nos atos de Dilma ao longo dos anos em relação aos direitos dos trabalhadores. "Ela fez ajustes? Fez, mas nunca mudou o vetor de defesa dos direitos trabalhistas e sociais, estruturalmente."

Um desses ajustes, afirma Fonseca, foi nas normas para obtenção do seguro-desemprego, que se tornaram mais rigorosas, lei sancionada em 17 de junho de 2015 por Dilma. Porém, diz o professor, nos mandatos da presidente, o salário mínimo sempre subiu acima da inflação e gerou ganhos reais, por exemplo.

O cientista político avalia com muito pessimismo as perspectivas para o trabalho de um possível governo de Michel Temer (PMDB). "O que vem por aí é que aquilo que é acordado se sobreponha ao que é legalizado. Querem derrogar a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) e tornar o trabalhador brasileiro flexível. Não é à toa que o Skaf [Paulo Skaf, presidente da Fiesp-Federação das Indústrias do Estado de São Paulo] é o braço direito do Temer."

Para Fonseca, "o que está em jogo no Brasil não é só um golpe contra a democracia, mas também um golpe contra os direitos trabalhistas e sociais".

Falando dos possíveis planos de Michel Temer para a economia, Roberto Romano, da Unicamp, prevê tempos mais difíceis para o sindicalismo mais alinhado e apoiado pelo PT, como é o caso da CUT (Central Única dos Trabalhadores). "Essa base se abala com o afastamento de Dilma da Presidência."

Evolução na forma

Política à parte, os discursos de Dilma no 1º de Maio mostraram "boa evolução", na opinião de Reinaldo Polito, mestre em ciências da comunicação e colunista do UOL. "Ela sempre lê nessas ocasiões. Como deveria mesmo fazer. E o discurso lido é o tipo de apresentação em que ela se sai melhor."

Ele observa que, nos primeiros anos, de 2011 a 2013, Dilma estava preocupada em ser mais simpática, sorrindo praticamente o tempo todo quando lia. Em 2014, embora serena, já não sorriu como nos anos anteriores e, em 2015, falou em pé e gesticulou mais. "Era um discurso mais arrojado, como se estivesse em campanha num palanque."

Para Polito, Dilma deveria ter adotado o discurso lido em todas as circunstâncias. "Salvo em ocasiões muito especiais, nada obriga um presidente da República a falar de improviso. Com certeza não teria cometido as gafes que cometeu."

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