Operação Lava Jato

Secretário de Cabral recebeu mais de R$ 10 mi da Odebrecht entre propina e caixa 2, dizem delatores

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

  • Bruno Gonzalez/Extra/Agência O Globo

    Júlio Lopes, então secretário estadual de Transportes, foi flagrado sorrindo no local onde havia ocorrido um acidente com um trem, em janeiro de 2014. Na época, a imagem gerou indignação e protestos

    Júlio Lopes, então secretário estadual de Transportes, foi flagrado sorrindo no local onde havia ocorrido um acidente com um trem, em janeiro de 2014. Na época, a imagem gerou indignação e protestos

O deputado federal Júlio Lopes (PP-RJ), que foi secretário de Estado de Transportes na gestão do ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (PMDB), recebeu cerca de R$ 12,2 milhões da Odebrecht entre propina e caixa 2, de 2010 a 2014, segundo acordo de colaboração de um dos delatores da empresa, Benedicto Júnior.

A delação, firmada no âmbito da Operação Lava Jato, fundamenta o inquérito aberto contra Lopes no STF (Supremo Tribunal Federal), após pedido da PGR (Procuradoria-Geral da República). O parlamentar pode responder pelos crimes de corrupção ativa, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Júnior afirmou ter conhecido Lopes em uma reunião no Palácio Guanabara, sede do Executivo fluminense, em 2008. Depois desse encontro, o então secretário teria o procurado para pedir dinheiro. O motivo, de acordo com o delator, era "ajudar" o Partido Progressista na campanha eleitoral daquele ano.

Na ocasião, o investigado teria solicitado caixa dois que variava entre R$ 1 milhão e R$ 1,5 milhão, valor supostamente pago em espécie a um intermediário de Lopes, que trabalhava no banco Cruzeiro do Sul, no centro da cidade.

Desde então, relatou Júnior, as doações ilícitas se tornaram fato comum na relação entre o ex-secretário estadual de Transportes e a Odebrecht, sobretudo nos períodos eleitorais. Novos pedidos ocorreram em 2012 e 2014. O delator explicou que Lopes era avaliado como um personagem estratégico para as ambições da empresa.

"O Júlio Lopes era uma pessoa importante na base de apoio do PMDB no Rio de Janeiro por liderar um partido [o PP] e ser o braço mais longo do Dornelles [em referência a Francisco Dornelles, hoje vice-governador do Estado]. O Dornelles era a fachada do partido, a pessoa que aparecia, mas quem coordenava o dia a dia do partido era o Júlio Lopes. Além disso, de ser importante para a base de apoio do Sérgio Cabral, ele acabou sendo nomeado secretário de Transportes."

Somente de caixa dois, o parlamentar teria obtido ao menos R$ 6,5 milhões entre 2013 e 2014, conforme revelam planilhas da empreiteira que foram entregues ao MPF (Ministério Público Federal). Em seu depoimento, o executivo não contabiliza os pagamentos feitos antes de 2013.

A empresa também destinou ao parlamentar cerca de R$ 4 milhões de propina no contexto da construção da linha 4 do metrô fluminense, na versão do delator. O motivo seria evitar que o ex-secretário criasse "problemas" ou interferisse no andamento das obras.

O diretor de contratos da Odebrecht, Marcos Vidigal, que era subordinado a Júnior e responsável pelo "contato no dia a dia" com o ex-secretário, mencionou ainda outras vantagens obtidas por Lopes durante a construção da linha 4. Em sua delação, Vidigal forneceu dados que indicam a transferência de mais R$ 1,7 milhão por meio do chamado Setor de Operações Estruturadas da empreiteira.

Procurado pela reportagem, Júlio Lopes afirmou, por meio de nota, ainda não ter sido notificado da abertura do inquérito, mas disse ter "total confiança nas instituições e no esclarecimento dos fatos. Reitero que todas as minhas prestações de contas eleitorais foram aprovadas pela Justiça. Estou à disposição da Justiça para os esclarecimentos necessários".

Já o governo do Estado do Rio e a Secretaria de Estado de Transportes informaram que não iriam comentar o assunto. O UOL também tentou consultar o Partido Progressista, mas nenhum representante de seu diretório fluminense foi localizado.

Propina para evitar "represálias"

Marcos Vidigal, o executivo escalado para lidar diretamente com a Secretaria de Estado de Transportes e com a construção da linha 4 do metrô, afirmou aos investigadores que o consórcio responsável pelas obras entendia que os pagamentos feitos a Júlio Lopes eram fundamentais. Isso porque, segundo ele, as empresas temiam que o então secretário pudesse dificultar o andamento do projeto e eventuais "represálias".

A versão foi corroborada pelo ex-chefe de Vidigal e também signatário de acordo de colaboração, Benedicto Júnior.

De acordo com os investigadores, a corrupção nas obras da linha 4 começou quando Lopes procurou, no fim de 2010, o representante da Queiroz Galvão (empresa líder do consórcio) Lúcio Silvestre Chruczeski para cobrar propina de 0,5% do contrato. Desde então, até 2014, o parlamentar recebeu R$ 4 milhões somente da propina referente à linha 4.

"Os pagamentos eram normalmente mensais e operacionalizados por meio de remessas de recursos em espécie e entregues no endereço indicado pelo secretário Júlio Lopes", relata o inquérito aberto no STF.

Júnior também disse que, durante a construção da nova linha de metrô, cuja função era vital para a realização dos Jogos Olímpicos de 2016 (o custo total do empreendimento é de R$ 9,7 bilhões), ele foi procurado pelo então governador Sérgio Cabral, que insistia em cobrar uma propina de 5% do contrato. Na versão do executivo, a empresa não aceitou pagar, já que havia acabado de desembolsar cerca de R$ 11 milhões para entrar no consórcio da linha 4.

"Ele voltava com a conversa dos 5%, e eu sempre dizendo: paguei aqui R$ 11 milhões para entrar nesse negócio. Paguei com [dinheiro] privado. (...) Eu não tenho problema de ajudar [isto é, pagar propina], mas eu não posso ser tratado como os 5% que o senhor entende que um prestador de serviço comum faz aqui", relatou Júnior em seu acordo de colaboração.

Na última terça-feira (11), o procurador do MPF e coordenador da força-tarefa da Lava Jato no Rio, Eduardo El Hage, afirmou à imprensa que a propina de 5% destinada a Cabral era "praticamente uma regra de mercado". O ex-governador costumava cobrar o mesmo percentual em vários contratos.

Também conhecido como "Pavão" e "Casa de doido"

As planilhas do "Drousys", sistema de informática por meio da qual a Odebrecht controlava o pagamento de propinas, indicam que o deputado PP tinha quatro codinomes regulares: "Pavão", "Velho" ou "Velhos", "Casa de Doido" e "Bonitinho".

Com a rubrica "Pavão", por exemplo, ele recebeu pouco mais de R$ 1 milhão de 2013 a 2014.

No mesmo período, com o código "Casa de Doido" --que era utilizado para designar várias propinas pagas ao mesmo tempo a um ou mais políticos--, Lopes levou mais de R$ 3 milhões.

Sobre o codinome, o delator Benedicto Júnior afirmou que a escolha se deu porque os executivos costumavam ironizar o esquema criminoso. "A gente dizia que o Rio de Janeiro era uma casa de doido", disse.

Lopes foi pessoalmente à sede da Odebrecht

Júnior disse ter remetido aos investigadores da Lava Jato cópias das imagens de segurança do prédio da Odebrecht, situado em Botafogo, na zona sul carioca, e que registrariam a entrada e saída de Júlio Lopes nas datas que constam na planilha de propinas da empreiteira.

Segundo ele, o ex-secretário esteve no prédio da empresa "diversas vezes" para reuniões a respeito das doações ilícitas destinadas ao Partido Progressista. O conteúdo dos vídeos, no entanto, não foi anexado ao inquérito do STF.

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