Após confronto em ato contra Temer, cenário em Brasília é de terra arrasada

Bernardo Barbosa*

Do UOL, em Brasília

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    Barricada montada perto do Ministério da Agricultura

    Barricada montada perto do Ministério da Agricultura

O confronto entre policiais e manifestantes ocorrido nesta quarta (24) em Brasília durante manifestação contra o governo do presidente Michel Temer (PMDB) deixou um cenário de terra arrasada. No começo da noite, ao menos dez prédios haviam sido pichados, isso quando não tiveram vidraças e iluminação quebradas, além de salas saqueadas e incendiadas.

Após a manifestação, Temer chamou o ato de "baderna" e baixou decreto autorizando as Forças Armadas a atuarem na capital federal até o dia 31. Entre bombas e balas de borracha da polícia e paus e pedras de manifestantes, 49 pessoas ficaram feridas, segundo a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal.

Prédio do Min. da Ciência e Tecnologia tem rastro de destruição

Na programação divulgada pelas centrais sindicais e movimentos sociais que organizaram o protesto, o ato deveria se estender até o começo da noite. No entanto, por volta das 18h, o que se via era a Esplanada dos Ministérios repleta de rastros de destruição praticamente deserta, a não ser por alguns poucos pedestres e homens do Exército e da Força Nacional postados em frente a todos os prédios.

A maioria dos 17 edifícios da Esplanada foi alvo de algum tipo de depredação, como a pichação de fachadas e o apedrejamento de vidraças. Ao menos oito paradas de ônibus foram destruídas.

Ao longo do Eixo Monumental --a via onde ficam os ministérios, com o Congresso ao fundo--, ainda era possível sentir cheiro de queimado pelo menos uma hora depois da dispersão do protesto. Foi possível encontrar pelo menos quinze resquícios de fogueiras e barricadas improvisadas, estas também quase sempre incendiadas.

Wilton Junior/Estadão Conteúdo
Manifestantes colocaram fogo no prédio do Ministério da Agricultura

Em frente ao Ministério da Agricultura, as armações de metal que revestem a iluminação da fachada do prédio foram arrancadas e usadas para fechar a pista, junto com móveis de escritório que foram retirados após a destruição de vidros de salas do andar térreo. Até uma bicicleta foi incluída na barricada.

Perto dali, diante do Ministério da Saúde, os alvos foram os banheiros químicos instalados para os manifestantes: pelo menos 25 foram derrubados, e vários foram destruídos ou queimados quando usados como barricadas.

"O que os políticos fizeram é pior"

Diante do Ministério da Educação, repleto de pichações na fachada, a monitora de creche Aline Ribeiro tirava uma selfie junto com outras profissionais da educação que vieram de Vitória da Conquista (BA) -- onde os servidores municipais estão em greve por reajuste salarial. Seu grupo chegou a Brasília às 14h, após 19 horas de viagem de ônibus.

Bernardo Barbosa/UOL
A monitora de creche Aline Ribeiro participou do protesto

"Não conseguimos nos aproximar muito [do protesto] devido ao tumulto, às bombas de efeito moral. O vento começou a trazer [o gás] e arder os olhos", contou. "Assusta um pouco. Foi minha primeira experiência em uma manifestação dessa. Para mim, foi cenário de guerra. Muito incêndio, pessoal gritando, correndo, a movimentação da polícia. Chocou."

Bernardo Barbosa/UOL
A professora Elaine Wetler chegou à Esplanada após a manifestação

Se Aline não conseguiu chegar perto da manifestação, outros nem chegaram a participar dela. A reportagem encontrou quatro pessoas que, ao chegarem para o ato no fim da tarde, após o horário de trabalho, deram de cara com a Esplanada vazia e depredada. Uma delas foi Elaine Wetler, professora da rede distrital.

"Não vou ser atingida [por mudanças na aposentadoria], mas eu sou solidária com o resto do Brasil", disse.

Diante do cenário, a professora disse achar que o momento é grave.

"Passou do limite. Os ânimos estão bem acirrados. Mesmo assim, eu apoio a resistência", afirmou. "É um cenário de destruição como eu nunca vi em Brasília. Mas o que os políticos fizeram é pior que isso aí. É a destruição de um país."

* Colaborou Jéssica Nascimento

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