Poder muda o comportamento das pessoas; saiba como e por que isso acontece

Juliana Carpanez

Do UOL, em São Paulo

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    Poder pode alterar comportamento e também reforçar características já existentes: as boas e as ruins

    Poder pode alterar comportamento e também reforçar características já existentes: as boas e as ruins

Falar sobre poder é lidar, de cara, com uma contradição. Da mesma forma que é muito desejada, aponta-se esta força como negativa: seria a "culpada" por ações absurdas de seu detentor. Seja o parente que muda de comportamento após "subir na vida", o colega que se torna hostil ao ganhar uma promoção ou os políticos e empresários que narram com extrema naturalidade um megaesquema de corrupção capaz de chacoalhar um país inteiro.

Se muitos o querem, é porque reconhecem as vantagens do poder: ele amplia o leque de possibilidades e de oportunidades. Mas as suspeitas sobre o lado negativo também se confirmam: pesquisas recentes indicam que o poder altera o comportamento das pessoas --para o mal, claro, e também para o bem. Há ainda quem descarte a hipótese de uma "transformação", mas aponte para o reforço de características já existentes --tanto as qualidades como os defeitos.

As mudanças do poder

Autor do livro "The Power Paradox, How We Gain and Lose Influence" (o paradoxo do poder: como ganhamos e perdemos influência, sem tradução para o português), Dacher Keltner é professor de psicologia e diretor do Laboratório de Interações Sociais na Universidade da Califórnia (EUA). Com 20 anos de estudo sobre o tema, ele diz que o poder dá a seu detentor algo parecido com uma força vital, que o empurra para atingir seus objetivos. Faz também com que arrisque mais, agindo geralmente de maneira egoísta, impulsiva e agressiva.

Arquivo Pessoal
Dacher Keltner estuda interações sociais e elaborou dicas para evitar abuso de poder
Em situações do cotidiano, o especialista afirma que os poderosos tendem a interromper mais os outros, falar quando não é sua vez, fazer piadas com amigos e colegas de um jeito humilhante e agir de maneira grosseira, com gritos e xingamentos. Existe portanto uma "desinibição comportamental", que leva a situações de desrespeito. A consequência, nas palavras de Keltner, é pesada: o poder torna as pessoas mais propensas a agirem como sociopatas, reduzindo seus níveis de empatia (capacidade de se colocar no lugar do outro) e reforçando comportamentos socialmente inapropriados.

"A principal razão para essas mudanças está no fato de o poder nos afastar das pessoas e de seus pensamentos, sentimentos e necessidades, fazendo com que os nossos próprios desejos, objetivos e gratificações virem prioridades", resumiu o especialista em entrevista por e-mail ao UOL. É aí que se apresenta o tal "paradoxo" do livro de Keltner: as características que ajudam alguém a conquistar o poder --como empatia e inteligência social-- são justamente aquelas que desaparecem quando se chega lá.

Jogos de poder

O "nós" usado na resposta do psicólogo é proposital e mostra que esse comportamento não se limita a políticos ou ao seu chefe. Isso porque, segundo Keltner, as relações de poder mudam de um contexto para outro, de uma situação para outra. Um dia você é o dono do mundo, no outro você está por baixo. Você manda em muitas pessoas no trabalho, mas em casa não consegue negociar com o filho adolescente. Ainda assim, é difícil reconhecer essa fluidez das forças e também perceber quando se passou da conta.

Os poderosos subestimam a inteligência dos outros. Eles supõem que não veem seus abusos de poder e que sempre os estimam, mesmo quando agem de maneira antiética
Dacher Keltner, diretor do Laboratório de Interações Sociais

Mas um estudo divulgado em maio de 2017 indica que os poderosos se machucam quando percebem seus próprios abusos. Depois de entrevistar 116 líderes de diversas áreas (engenharia, medicina, educação e bancos), os pesquisadores confirmaram que a sensação de poder aumenta as chances de o empoderado tratar mal os colegas de trabalho. A novidade aqui fica por conta das consequências: quando percebem isso, muitos têm mais dificuldade de relaxar depois do trabalho, além de se sentirem menos competentes e respeitados no ambiente profissional.

"Olhamos para o poder de uma forma diferente, que é como afeta seu detentor quando ele interage com os outros. O poder faz a pessoa tratar os outros de maneira pior, mas o poderoso também se sente mais maltratado. Essas interações ruins afetam o bem-estar, mostrando a natureza complicada do poder, que tanto pode ser bom como ruim", explicou ao UOL Trevor Foulk, professor-assistente da faculdade de administração da Universidade de Maryland (EUA), que participou do levantamento.

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Sensação de poder faz com que seu detentor conecte-se menos com o outro
É tudo coisa da sua cabeça

Tem também outra pesquisa --esta realizada pelo neurocientista Sukhvinder Obhi, da Universidade McMaster (Ontário, Canadá)-- que aponta o impacto da sensação de poder no funcionamento do cérebro. A pesquisa divulgada em 2014 monitorou via estimulação magnética transcraniana os neurônios-espelho, ativados quando alguém realiza alguma ação ou observa outra pessoa protagonizá-la. A ação, aqui, era o vídeo de uma mão apertando uma bolinha de borracha.

Diante da cena repetitiva, parte dos voluntários apresentou reação no sistema de neurônios-espelho, ligado à empatia. Antes de assistir ao vídeo, essas mesmas pessoas escreveram uma situação em que haviam se sentido impotentes (ou seja: não estavam se sentindo poderosas). Já os participantes sem reação cerebral haviam escrito sobre um momento em que se sentiram em comando. Quanto mais poder relataram no texto, menor a atividade cerebral dos neurônios-espelho. Ou menor a conexão com a ação realizada pelo outro. 

Mais de um caminho a seguir

O destaque dos estudos vai para aspectos facilmente identificados como negativos. Mas há o outro lado da história, como aponta o próprio Dacher. "A experiência do poder impulsiona o indivíduo para uma de duas direções. Abuso de poder, impulsividade e ações antiéticas ou o comportamento benevolente que promove o bem maior." Segundo ele, são estes os aspectos que determinam o caminho: o foco da pessoa em promover o bem da comunidade ou seus próprios interesses; características pessoais do indivíduo; o entendimento de que poder é um privilégio e dá a chance de servir e melhorar as vidas dos outros.

Professor de relações internacionais da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) e criador do curso online "Arte do Poder", o cientista político Heni Ozi Cukier vai nessa mesma direção. Sob os holofotes e observada pelo grupo à sua volta, diz ele, a pessoa com poder terá suas características e índole potencializadas --seja o altruísmo ou o mau-caratismo, indo aqui para dois extremos.

O poder não transforma, não muda a moral. Ele tira os freios, alavanca aquilo que já existe. Ninguém vira bandido porque chegou ao poder, a não ser que já tivesse essa propensão
Heni Ozi Cukier, cientista político e criador do curso ''Arte do Poder''

Divulgação
Heni Ozi Cukier afirma que o poder reforça as características já existentes
Quando falamos na parte ruim desses extremos, fica fácil pensar em políticos --a Operação Lava Jato garante que não faltem argumentos para isso. Mas Cukier faz um alerta sobre a importância em saber distinguir o que é ou não legítimo nesse jogo. "Política é poder. Dela fazem parte a negociação, a persuasão, a sedução e o convencimento. Nessa disputa de interesses é legítimo haver alianças e trocas, como acontece no trabalho, na família, nos relacionamentos. O que não é legítimo é desviar dinheiro público: isso é roubo. Mas as pessoas confundem, considerando política e corrupção como uma coisa só."

Em outras palavras, um político não será corrupto se entrar no jogo da negociação, mas se transgredir leis. E estará usufruindo indevidamente do cargo se usar as muitas possibilidades oferecidas pelo poder para agir em benefício próprio, sem levar em conta os demais.

Fugindo das armadilhas

Para aqueles que sofrem nas mãos de um poderoso, as dicas de Dacher Keltner são: evite a pessoa ao máximo, deixe que ela saiba que você está ciente desse comportamento abusivo e tenha sempre testemunhas (para o abusador pesar o custo dessas ações para sua reputação).

O pesquisador também desenvolveu a lista abaixo, com cinco recomendações para as pessoas evitarem abusos de poder --lembre-se de que isso pode servir para você, considerando que os empoderados demoram a reconhecer suas próprias falhas.

1. Fique atento à sensação de poder
O poder funciona como uma força vital que se movimenta pelo corpo e pode guiar seu detentor a fazer diferença no mundo. Pessoas que o usam da melhor forma conhecem a sensação de dopamina ao fazer um bem maior --do médico que salva pessoas ao escritor que mexe com a imaginação dos leitores. É importante ficar atento a essa sensação e a seu contexto para fugir dos mitos de que poder é dinheiro, fama, classe social ou título.

2. Pratique a humildade
Não se impressione com seus próprios feitos, seja crítico em relação a eles. Aceite e encoraje o ceticismo e as negativas daqueles que o ajudaram a fazer diferença no mundo. Lembre-se dessas pessoas e que sempre há mais trabalho a ser feito. 

3. Esteja focado nos outros
O melhor caminho para o poder duradouro é a generosidade. Dê recursos, dinheiro, tempo, respeito e poder para os outros. Essas ações empoderam outras pessoas de nosso círculo social, aumentando nossa capacidade de fazer a diferença no mundo.

4. Pratique o respeito
Não há recompensa que as pessoas valorizem mais do que a estima e o respeito. Faça perguntas. Ouça com atenção. Seja curioso sobre as pessoas. Reconheça-as. Cumprimente-as e elogie com vontade. Expresse sua gratidão.

5. Mude o contexto psicológico da impotência
Escolha um aspecto que faz as pessoas se sentirem impotentes e mude-o para melhor. Da disparidade salarial entre homens e mulheres até o racismo, passando pelo preconceito social. Crie oportunidades em sua comunidade e ambiente de trabalho para empoderar pessoas que se sintam impotentes por causa de equívocos morais cometidos no passado.

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