Operação Lava Jato

Seria a forma mais estúpida de pagar propina, diz réu sobre terreno para Instituto Lula

Nathan Lopes e Bernardo Barbosa

Do UOL, em São Paulo

Citado pelo ex-presidente da Odebrecht como um delator que não tem falado tudo o que sabe, o ex-diretor da empreiteira Paulo Melo afirmou que Marcelo Odebrecht nunca lhe disse que a compra do terreno que serviria ao Instituto Lula, em São Paulo, era fruto de pagamento de vantagem indevida. Interrogado na segunda-feira (4) pelo juiz federal Sergio Moro, responsável pela Operação Lava Jato na primeira instância, o executivo ainda criticou o esquema: "Seria a forma mais estúpida para se pagar uma propina". 

Melo é réu em um processo sobre um esquema de corrupção envolvendo oito contratos entre a Odebrecht e a Petrobras. Além do ex-diretor e do empresário, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-ministro Antonio Palocci também são acusados na mesma ação penal, além de mais quatro pessoas.

Mais cedo, na mesma audiência, Marcelo Odebrecht foi ouvido por Moro e falou que o ex-presidente Lula "acabou aceitando" o terreno para o instituto. Na ocasião, o empresário disse que "quem sabia da ilicitude" era Melo. "Neste fato específico, se houve omissão, eu estou corrigindo. A omissão que houve de outros colaboradores, eu estou corrigindo. Eu acho que Paulo Melo e Paul Altit [ex-presidente da Odebrecht Realizações Imobiliárias] vão ter que esclarecer esses assuntos que eu trouxe agora. Eu fui obrigado agora a trazer informações que eu não sabia à época."

20.dez.2016 - Adriano Vizoni/Folhapress
Terreno na zona sul de São Paulo foi comprado para ser sede do Instituto Lula

Apesar de desconfiar, o ex-diretor, porém, negou que soubesse de supostas irregularidades e fala que não faria "o menor sentido alguém pagar propina" com o terreno. Ele disse ainda que não concordou com a compra do terreno, indicado, de acordo com Melo, pelo advogado Roberto Teixeira, amigo de Lula, porque o "custo de adaptação seria muito alto". A área era de propriedade de uma agência de publicidade e foi comprada pela construtora DAG com verba do Grupo Odebrecht.

Segundo Melo, a compra do terreno serviria para a Odebrecht ter um "portfólio intangível de ter construído a sede do Instituto Lula". O negócio seria feito como um empréstimo que, depois, pagaria por meio de doações obtidas pelo instituto.

Porém, após uma visita de Lula ao local, Melo recebeu a informação de que haviam desistido do terreno e o já existente Instituto Cidadania, ligado ao petista e sediado também na capital paulista, foi transformado em Instituto Lula em 2011. Em sua audiência, Marcelo Odebrecht disse, no entanto, não saber se foi Lula quem "bateu martelo" sobre o terreno. O empresário afirmou que nunca tratou da compra do terreno com o ex-presidente, mas citou conversas sobre o assunto como ex-ministro Palocci.

"Eu tinha uma relação ruim com Lula", disse Odebrecht, que está preso desde junho de 2015 e deve deixar a cadeia no fim do ano.

Em nota ao UOL, os advogados de Melo, André Damiani e Matheus Pupo, disseram que seu cliente "reiterou a Moro os exatos termos constantes em seu acordo de colaboração premiada" e esclareceu que apenas desempenhou papel na prospecção e estudo de vários imóveis destinados à futura sede do Instituto Lula". "Em seu interrogatório, [Melo] esclareceu a contento todos os fatos relativos ao cargo e função por ele ocupados na época dos fatos e renovou seu compromisso em continuar colaborando com a força-tarefa e com a Justiça".

Em comunicado divulgado após os interrogatórios de segunda-feira, a defesa do ex-presidente disse que "Lula jamais recebeu a propriedade ou a posse de qualquer dos imóveis indicados pelo MPF [Ministério Público Federal], muito menos em contrapartida de qualquer atuação em contratos firmados pela Petrobras". Sobre Melo, ele diz que o ex-diretor "mostrou as fragilidades das declarações de Odebrecht em relação a Lula e ao Instituto Lula".

Outros interrogatórios

Uma nova leva de interrogatórios será feita nesta quarta-feira (6). O primeiro a depor será Demerval Gusmão, dono da construtora DAG, que deveria ter sido interrogado na segunda-feira, mas teve sua oitiva adiada porque os depoimentos de Odebrecht e Melo duraram, juntos, cerca de cinco horas.

No mesmo dia, mas à tarde, serão ouvidos por Moro mais três réus: o ex-ministro Antonio Palocci; o empresário Glaucos da Costa Marques, primo de Bumlai e acusado de atuar como "laranja" na compra do apartamento em São Bernardo do Campo; e o advogado Roberto Teixeira, amigo de Lula, que teria participado das transações.

No dia 13, é a vez de Lula depor ao juiz. Branislav Kontic, ex-assessor de Palocci, será interrogado no mesmo dia.

Marcelo Odebrecht reafirma pagamento de propina a Lula

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