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Funaro diz que entregou ao menos R$ 20 milhões em dinheiro vivo para Geddel

Guilherme Mazieiro/UOL
Imagem: Guilherme Mazieiro/UOL

Guilherme Mazieiro

Do UOL, em São Paulo

30/08/2018 11h54Atualizada em 30/08/2018 14h36

O delator doleiro Lúcio Funaro, acusado de ser operador do MDB, afirmou à Justiça nesta quinta-feira (30) que pagou propina de "pelo menos R$ 20 milhões" em dinheiro vivo ao ex-ministro Geddel Vieira Lima por contratos na Caixa Econômica Federal. As entregas, segundo ele, aconteceram entre 2012 e 2015.

Funaro voltou também a acusar o ex-deputado Eduardo Cunha (MDB-RJ) de repassar parte da propina para o presidente Michel Temer, o ex-ministro Henrique Eduardo Alves e demais membros da bancada do MDB “sob comando de Cunha”.

Ele prestou depoimento por videoconferência no 2º andar do fórum da Justiça Federal em São Paulo no processo que investiga a apreensão de R$ 51 milhões escondidos em malas em um apartamento de Geddel, em Salvador.

Durante depoimento ao juiz instrutor do STF (Supremo Tribunal Federal) Paulo Marcos de Farias, Funaro explicou que foi apresentado por Cunha a Geddel, que exercia a vice-presidência de Pessoa Jurídica da Caixa Federal, para facilitar as transações ilegais.

Após firmarem os contratos entre o banco e empresas, a propina seria dividida em duas partes: 50% ou 60% ia para Geddel e o restante para Funaro e Cunha --a parcela para cada um dependia da dificuldade de se conseguir o acordo.

Segundo Funaro, as entregas a Geddel aconteceram por diversas vezes em hotéis de São Paulo e Salvador, em um hangar em Salvador e em seu escritório na capital paulista. O lobista ainda ressaltou que as movimentações eram tão volumosas que não sabe dizer quanto foi pago em transações ilícitas.

Divulgação
Dinheiro encontrado pela PF e atribuído a Geddel Vieira Lima Imagem: Divulgação

“Acredito que [Eduardo Cunha] tenha dividido os valores dele com outras pessoas próximas como Henrique Eduardo Alves, Temer e a bancada que ele tinha na Câmara sob seu comando”, disse o delator, reafirmando acusações feitas em depoimentos anteriores.

Ainda no depoimento, Funaro disse que todos os pagamentos de propina giravam entre 2,2% e 2,8% do valor total de cada contrato. Os pagamentos eram feitos a partir da sua conta.

“Eu emitia nota fiscal da minha empresa. Recebia [propina] das empresas [que tinham ganhado contratos na Caixa]. A empresa fazia um TED [transferência eletrônica disponível] na minha conta corrente. Usando serviços de terceiros esse valor virava dinheiro vivo. Depois eu distribuía e pegava a minha parte”, relatou.

O delator explicou que operava em esquemas ilegais junto às diretorias de Pessoa Jurídica e Fundos e Governo da Caixa, com ajuda de Eduardo Cunha. “O ‘spread’ [variação da propina] era entre 2,2% e 2,8%, dependendo da logística. Aí tinha um desconto de 20% de imposto, porque pagava nota fiscal”, detalhou.

A contabilidade do grupo ainda considerava 5% de descontos a terceiros para poder sacar o dinheiro vivo.

Em maio deste ano, o STF aceitou denúncia da PGR (Procuradoria-Geral da República) e abriu ação penal contra Geddel e seu irmão, o deputado federal Lúcio Vieira Lima (MDB-BA), pelos crimes de lavagem de dinheiro e associação criminosa em relação aos R$ 51 milhões achados no apartamento.

Funaro prestou depoimento na condição de colaborador no processo contra Geddel. 

Outro lado

O advogado de Geddel e Lúcio, Gamil Föppel, afirmou sobre o caso, em maio passado, que o dinheiro localizado no apartamento não pertencia ao ex-ministro e que a acusação seria "insustentável", uma vez que não descreveu os crimes aos quais estaria ligada a suposta lavagem de dinheiro e organização criminosa. "Esse dinheiro não é de Geddel Vieira Lima", disse. "É insustentável falar em organização criminosa sem que se descreva os demais fatos", afirmou.

"A denúncia não tem credibilidade", disse Föppel, quando o STF (Supremo Tribunal Federal) decidira aceitar a denúncia da Procuradoria-Geral da República e abrir ação penal contra o ex-ministro e o deputado federal Lúcio Vieira Lima (MDB-BA) pelos crimes de lavagem de dinheiro e associação criminosa.

Também ano passado, durante interrogatório da Operação Sépsis, em Brasília, o ex-deputado federal Eduardo Cunha afirmou ter apresentado os peemedebistas Geddel e Henrique Eduardo Alves a Funaro, mas, embora tenha confirmado ter viabilizado os encontros, negou que tivesse conhecimento sobre possíveis ilícitos praticados por eles após a apresentação.

Em abril deste ano, após Funaro entregar à PGR documentos que comprovariam repasses a Temer e ao MDB, a Secretaria de Comunicação da Presidência da República afirmou, por meio de nota, que as acusações da delação premiada de Funaro tinham "como único objetivo manter campanha difamatória contra o presidente Michel Temer sem que as investigações produzam fatos reais". "Ou seja, são apenas ficções em série", dizia a nota.

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Entenda o caso

A Procuradoria-Geral da República denunciou, em dezembro de 2017, os irmãos Vieira pelo recebimento de propinas pagas pela construtora Odebrecht, em esquema em que servidores da Câmara devolviam parte dos salários e desvios do ‘quadrilhão do PMDB’, como origem do valor guardado no imóvel em Salvador.

Com a abertura do processo, Geddel e os demais investigados se tornam réus no processo. Apenas ao final do julgamento é que o STF decidirá se eles são culpados ou inocentes dos crimes pelos quais são acusados.

Também são réus na ação dois homens de confiança dos peemedebistas, Gustavo Ferraz e Job Brandão, a mãe de Geddel, Marluce Vieira Lima, e o empreiteiro Luiz Fernando Machado, dono da Cosbat construtora.

Geddel está preso desde setembro de 2017, quando a Polícia Federal descobriu o "bunker".

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