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Política

O que ainda não se sabe sobre a prisão de Pezão pela Lava Jato

Rodrigo Mattos e Gabriel Sabóia

Do UOL, no Rio

29/11/2018 19h31

A prisão do governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão (MDB), em operação da Polícia Federal deixou dúvidas sobre qual o teor das suspeitas que recaem sobre ele por conta do sigilo das investigações. A Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal informaram que o político participava de uma organização criminosa e recebia vantagens financeiras em troca de benefícios do estado em continuidade do esquema do ex-governador Sérgio Cabral (MDB). No entanto, não foi informado quem pagou e que vantagens foram supostamente concedidas.

Pezão foi preso pela manhã no Palácio Guanabara, sede do governo fluminense no bairro de Laranjeiras, na zona sul carioca, em operação da PF nomeada "Boca de Lobo". Em entrevista à imprensa, a procuradora-geral da República, Raque Dodge, informou que ele recebeu R$ 25 milhões em propinas (R$ 39,1 milhões em valores atualizados) entre 2007 e 2015, período em que exerceu a função de vice-governador nas gestões de Cabral.

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A origem do dinheiro e os benefícios supostamente concedidos pelo governo fluminense não foram revelados nem pela Procuradoria nem pela PF. "Identificamos algumas licitações em que pudemos identificar onde houve esses benefícios. Houve conversas de e-mail com secretários de Obras em que era tratada a propina", afirmou o delegado da PF, Alexandre Camões Bessa. Entretanto, os contratos em questão não foram especificados tampouco os pagamentos relacionados a eles.

O que se sabe é que a investigação teve origem na delação do ex-operador do esquema Carlos Miranda, que atuava com Cabral na distribuição do dinheiro. Segundo ele, Pezão recebeu mesada no valor de R$ 150 mil mensais mais bônus durante o governo Cabral. Os responsáveis pelos pagamentos supostamente seriam empreiteiras e outras empresas fornecedoras de serviços para o governo do Rio. Mas essa delação foi no primeiro semestre e seu teor foi revelado pelo jornal "O Globo" em abril.

Para justificar a prisão, Dodge explicou que Pezão passou a liderar o esquema. "A novidade é que ficou demonstrado ainda que, apesar de ter sido homem de confiança de Sérgio Cabral assumindo papel fundamental naquela organização criminal, inclusive sucedendo na sua liderança, Luiz Fernando Pezão, operou esquema de corrupção própria, com seus operadores financeiros", afirmou ela.

A procuradora-geral da República também disse que a prisão de Pezão foi necessária pois a investigação apontou que o esquema de lavagem de dinheiro comandado pelo político ainda estava em curso.

Pezão foi governador durante quase quatro anos. Foi preso no final de novembro, a um mês de deixar o cargo. Não foram revelados pagamentos feitos a Pezão durante sua gestão --delegados da Polícia Federal afirmaram, contudo, que o suposto esquema de cobrança de 5%, em média, sobre contratos perduraria desde a posse de Cabral, em 2007, até agora (no entanto, as empresas envolvidas e os contratos também não foram identificados).

Os delegados afirmaram que apuram obras de pavimentação -- dois sócios da J.R.O Pavimentação também foram detidos nesta quinta, mas um suposto envolvimento deles no esquema não foi informado. O UOL procurou a empresa, mas ainda não obteve retorno.

Questionados sobre quais as provas contra Pezão, eles argumentaram não poder detalhá-las para não atrapalhar as investigações.

Segundo a Procuradoria-Geral da República, as investigações reuniram indícios de que Pezão continuou a receber propina de empresas investigadas no esquema após assumir o governo do estado, em 2014. "É possível dizer que a gente tem elementos que [mostram que] os pagamentos continuavam mesmo após o senhor Luiz Fernando Pezão ter assumido o governo do Estado do Rio de Janeiro", afirmou o procurador regional da República Leonardo de Freitas, em entrevista a jornalistas na manhã desta quinta-feira (29), na sede da PGR, em Brasília.

O pedido da prisão foi de Dodge e concedido pelo ministro do STJ (Superior Tribunal de Justiça), Félix Fischer.

Uma informação do jornal "O Globo" indica que houve um grampo sobre Pezão. Em uma gravação, ele conversa com um homem chamado Ricardo em que tratam de ajudar o ex-governador Cabral para tirá-lo de cela isolada na cadeia de Bangu.

Até o meio da tarde de hoje, advogados do governador diziam não saber quais as justificativas para a prisão do político. Em entrevista o superintendente da PF, Ricardo Saadi, listou crimes cometidos pela organização criminosa da qual Pezão fazia parte, incluindo "corrupção, lavagem de dinheiro, participação em organização criminosa, além de fraudes em licitação". Nenhum dos crimes foi detalhado.

Segundo a "Folha de S.Paulo", Pezão negou em depoimento à Polícia Federal ter recebido propina de empreiteiros ou mesada de seu antecessor, Sérgio Cabral (MDB). Ele afirmou que a única coisa que recebeu do ex-governador foi um sistema de som, em 2008, como presente de aniversário. As informações sobre o depoimento foram dadas pelo advogado Flávio Mirza, que representa o emedebista.

Até a noite desta quinta, a defesa de Pezão não havia se manifestado sobre a prisão e as suspeitas contra ele.

A investigação contra Pezão está com a Procuradoria-Geral da República porque ele tem foro privilegiado. A partir de janeiro, com o final de seu mandato, a investigação voltará para o MPF (Ministério Público Federal) no Rio de Janeiro e para justiça local.

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