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Política

Com articulação em crise, amigo de Bolsonaro tenta domar bancada "infiel"

Guilherme Mazieiro

Do UOL, em Brasília

17/04/2019 04h00

A gestão Jair Bolsonaro (PSL) patina na articulação política e soma derrotas no Congresso. Para o líder do partido do presidente na Câmara, Delegado Waldir, as razões vão desde a falta de habilidade dos líderes do governo até a infidelidade dos 54 correligionários do presidente.

"A bancada do PSL, hoje, é uma das mais infiéis ao partido. A gente sabe que boa parte deles sofre pressão das redes sociais", disse o deputado Delegado Waldir (PSL-GO) ao UOL.

Conhecido por disparar aspas polêmicas, o deputado esteve no centro das atenções da Câmara quando foi acusado de portar uma arma na Comissão de Constituição e Justiça.

"Eu gosto da informação boa. Refinada. Me acusaram de estar armado, provem. Cadê? Eu mostrei que era só o coldre", disse sobre o episódio.

Autodeclarado "estrategista", contou que tenta medir cada passo e mesmo as declarações polêmicas que dá. Mas, como um bom tático, nunca revela o objetivo final. "O segredo é a alma do negócio."

Na entrevista de duas horas ao UOL nesta terça-feira (16), distribuiu farpas sobre os trabalhos dos líderes do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (PSL-GO), e no Congresso, Joice Hasselmann (PSL-SP). As críticas públicas aos correligionários e líderes já se arrastam há algumas semanas.

No papel de líder da segunda maior bancada da Casa -- o PSL só fica atrás do PT, que tem 55 quadros --, o delegado de carreira, que está no segundo mandato, julga que parte dos eleitos pelo PSL ainda não têm o conhecimento técnico da Câmara e da política.

Eles acabam sofrendo influência. Mas eu penso que isso é questão de amadurecimento. E o aprendizado vem com o tempo. Você não tem como votar 1000% com as redes sociais. Nem sempre o que está ali é o que está na prática de um político."

Na visão do líder, esses deputados são sensíveis à opinião pública expressada na internet.

Questionado se o partido sofre pressão do Novo (uma das menores siglas da Casa, que tem 8 deputados), respondeu que "sim", mas relativizou -- seria uma "influência", não "pressão".

Ele contou que na eleição para Presidência da Câmara, em fevereiro, o PSL não foi fiel à orientação.

Alguns membros sob sua liderança votaram em Marcel Van Hattem (Novo-RS), em vez de escolherem Rodrigo Maia (DEM-RJ), com quem o partido tinha fechado acordo.

O delegado ponderou que essa atitude é "comum" em deputados que chegaram há pouco tempo ao Parlamento e ainda estão se ambientando com o funcionamento político.

"Esse reconhecimento você vai construindo. Tem reuniões dos líderes da Câmara que o líder de governo não vai e eu sou convidado para ir. Eu vou", relatou.

"Hoje, eu sou Parlamento. Eu não sou governo. Eu sou líder do partido do presidente, mas não sou submisso. Dentro de casa a gente já não agrada a todos, imagina dentro de um partido com 54 lideranças? Porque cada um deles é um líder", pontuou.

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As artes de um estrategista

Dos 11 anos em que atuou como delegado de polícia em Goiás, Waldir mantém dois hábitos: portar arma e procurar por informação constantemente.

"Eu fico o dia todo lendo os jornais e artigos. Ninguém vai me pegar de calça curta. Sempre sei onde estou agindo e bem informado para o caso de enfrentar uma situação fora do esperado", contou.

Próximo a Bolsonaro, Waldir conta que ambos se encontraram pela primeira vez em 2010, quando o delegado era suplente e passava por uma reunião na Comissão de Constituição e Justiça.

"Nós somos muito parecidos. Sempre fomos transparentes e leais. Temos ideias semelhantes, principalmente nas áreas de segurança pública, questões sobre o patriotismo. Então, quando eu assumi [o cargo de deputado federal], em 2014, nos aproximamos mais", disse.

Dissidente do PSDB e do PR, acabou surfando a onda bolsonarista e se filiando ao PSL em 2018.

"Me filiei sem nem falar com o [presidente da sigla, Luciano] Bivar. Tinha convicção de que era o partido para estar e trabalhar", relatou, indicando que a proximidade com Bolsonaro pesou para mudança.

"Ele teve quatro votos quando se candidatou a presidente da Câmara. Um deles foi meu. E votei contra a orientação partidária. Por isso, às vezes, entendo voto independente. Vai da convicção que você tem", disse em referência à eleição do Parlamento de 2017.

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"Arminha" e campanha de Bolsonaro

O parlamentar conta que tem participação no "fenômeno Bolsonaro", que durante a campanha fez algumas visitas com Bolsonaro à cidade de Barretos e ao estado de Goiás.

"O Bolsonaro sempre tomava todas as decisões. A gente conversava e falava da questão de segurança, para ele focar [nesse tema]. É minha, é minha essa simbologia. Vou cobrar diretos autorais do presidente. Ele foi a Goiás, a menininha fez isso e aquilo virou uma mega polêmica. E aí todo mundo ficou do lado do Bolsonaro", contou repetindo um gesto de arma nas mãos.

Bolsonaro ensina criança a imitar arma com a mão - Reprodução - Reprodução
Ao lado de Waldir, Bolsonaro ensina criança a imitar arma com a mão
Imagem: Reprodução

A 'arminha' que Bolsonaro fez nas mãos de uma criança foi criticada pelos adversários durante o pleito. O gesto continua sendo usado por Waldir, até em fotos familiares.

"A esquerda a gente sabia que estaria contra. E fomos trazendo cidadãos. O cidadão de bem quer estar armado. Se você pegar pesquisas, o cidadão quer redução da maioridade penal. Então era só pegar um foco de interesse da sociedade, ok?", explica.

A última pesquisa Datafolha apontou o contrário: 64% dos adultos no país são contra a posse de armas; outros 34% são favoráveis, e 2% não respondeu.

Ele disse que essas propostas foram aperfeiçoadas para o projeto político de Bolsonaro junto aos três filhos políticos e assessores mais próximos.

Questionado se Bolsonaro sabia fazer a leitura do cenário político, conta que o caminho da eleição de Bolsonaro foi pensado durante o percurso.

"Não teve essa estratégia que as pessoas pensam que teve. Ele viajou o país todo, mas foi construído dentro do gabinete dele. O Carlos [filho que é vereador no Rio de Janeiro] sempre esteve mais próximo. E Bolsonaro foi criando [o projeto político] da cabeça dele. Surgiu a possibilidade de ser presidente e ele aproveitou o momento", afirmou Waldir.

"Poderia ter virado um dos piores bandidos do país"

"Eu fico em casa, no máximo 36 horas por semana. Considerando o tempo que eu estou dormindo", contou sobre a rotina. O tempo escasso precisa ser distribuído para os três filhos do primeiro casamento e um quarto rebento do matrimônio atual.

Ao longo dos 57 anos de vida, mudou-se de cidade diversas vezes. Nascido em Jacarezinho (PR), já passou por Curitiba, São Paulo, Goiânia e Brasília. Viagem é um dos hobbies prediletos. Já esteve em diversos países da Europa, América do Norte e Oceania.

Os passeios pelo mundo e os 60 ternos que tem, diz, vieram todos de seu salário. "Não uso imóvel funcional e verba para passagens de avião. Sou um assalariado. Vivo do salário de deputado" -- hoje, R$ 33,7 mil.

Mas as boas condições de vida não vieram de berço. Filho de um fazendeiro de "posses", como ele próprio definiu, teve contato distante com o pai e foi criado pela mãe e os cinco irmãos maternos.

"Dos cinco irmãos por parte de mãe, o único formado em curso superior sou eu. Tenho irmão pedreiro, cobradora de ônibus, nenhum tem curso superior", enumerou.

O pai morava em duas casas, com as duas famílias diferentes: uma em Ibaiti (PR) e outra na casa de Waldir.

O deputado relatou que o abandono do pai teve grande impacto na sua vida. Pelas dificuldades financeiras, tem no currículo profissional passagens como engraxate, vendedor de picolé e pipoca, servente de pedreiro, comerciário, agente de polícia, professor, delegado e, por fim, deputado.

"Meu pai era fazendeiro, de café. Minha mãe era zeladora e era muito bonita. Eu lembro que nós saímos de carro e teve uma situação de ciúmes. Eles discutiram. Ela desceu do carro e aí ele deu um soco na boca dela e sangrou. Eu lembro que sangrou. É a única cena que consigo lembrar. E nunca me saiu da memória aquela agressão que minha mãe sofreu", contou.

Essas passagens construíram a identidade de Waldir. O cálculo para tomar decisões e a determinação em focar em objetivos. Essa bandeira pessoal é usada para justificar posições que ele trata como "vitimismo".

"Quando as pessoas falam nesse vitimismo, de pessoas pobres, negras, de escola pública, usuário de drogas. Eu vivi isso. Não sou vítima disso. É questão de escolha. Eu poderia ter virado um dos piores bandidos do país", disse, enquanto pontuava as frases e batia na mesa.

A mãe, que tem 88 anos, é seu exemplo de vida, de sofrimento e superação.

Ao final da entrevista borrifou algumas rajadas de própolis na garganta. "Eu sempre falei demais. Na liderança preciso falar mais ainda. Mas hoje, o ar-condicionado é que acaba com minha garganta", contou, às gargalhadas.

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