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Mourão conspira contra Bolsonaro, diz Feliciano após impeachment ser vetado

Guilherme Mazieiro

Do UOL, em Brasília

24/04/2019 19h51

O deputado Marco Feliciano (Podemos), um dos líderes da bancada evangélica no Congresso, disse hoje que o vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) tem uma "conspiração em andamento" contra o presidente Jair Bolsonaro (PSL).

A declaração foi feita ao UOL, após o pedido de impeachment de Mourão apresentado por Feliciano ser arquivado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Feliciano também disse que Carlos Bolsonaro (PSC), filho do presidente que tem atacado o vice-presidente nas redes sociais, ajuda a alertar a população sobre essa tentativa de Mourão de tomar a Presidência.

O parlamentar disse que o pedido de impeachment tinha objetivo de fazer um alerta à população e mostrar que Mourão é a "ponta de um iceberg".

"Se Mourão tiver juízo, agora, vai respeitar o presidente e não vai dividir a nação brasileira", disse à reportagem, antes de ir ao Twitter e dizer que "jamais ia querer Mourão como meu companheiro em um campo de batalha... pois eu poderia ser morto pelas costas!!!!".

Veja os principais trechos da entrevista:

UOL - Que avaliação o senhor faz do arquivamento do pedido de impeachment do vice-presidente Mourão?

Feliciano - Nada de novo no mundo dos viventes. Eu sou um deputado veterano aqui. Sei que tomei uma atitude para chamar atenção. Eu disse: 'esse tiro não é no peito do nosso vice-presidente. Esse tiro é para cima. Tiro de alerta. Isso daqui é para chamar a atenção.

As pessoas acharam que eu era meio maluco, só que de repente olha o que tomou de proporção. Novas pessoas, novos personagens chegaram na história. O que eu queria eu consegui, chamar a atenção e fui ouvido. E as pessoas agora estão estudando o assunto.

Que alerta o senhor queria dar aos deputados?

Que há uma conspiração em andamento. Do vice-presidente, contra o presidente Jair Bolsonaro.

E por que há essa conspiração? Como o senhor vê essa conspiração acontecendo?

Todos os fatos que já citei e vêm saindo na imprensa. O vice Mourão desdizendo o presidente. Eu acho que ele tomou gosto pelo poder. De tanto vocês da imprensa chamarem ele de general, ele achou que como general ele podia mandar no comandante. Só que ele esqueceu a hierarquia constitucional de uma democracia. O presidente é o chefe maior. O presidente só não está acima da lei.

Com esse arquivamento, o senhor pretende tomar alguma medida?

Como eu disse, eu já chamei a atenção. O que eu queria era isso, que mais pessoas investigassem e tomassem atenção. O que eu fiz eu consegui bloquear em uns seis meses a um ano o projeto de conspiração. Acho que atrapalhei o pessoal. Tanto é que outros jornalistas deram uma nota de que aqui dentro [da Câmara] existe uma bancada pró-Mourão.

Aliás, com o arquivamento já teve um grupo que se manifestou dizendo que seria solidário com o Mourão. Isso começa a corroborar com o que foi dito de que o vice Mourão tem uma base. Tem alguma coisa acontecendo. Para mim, Mourão é apenas a ponta do iceberg.

Ele desonrou, hoje, a maior autoridade que temos no nosso país, a instituição de maior credibilidade que nos temos que é o Exército brasileiro.

Quando o vice Mourão ataca a imagem do presidente, desdizendo-o todos os dias, querendo as luzes e os holofotes para ele, ele quebra a regra geral do Exército, que é de lealdade, respeito à hierarquia. O Mourão humilhou o Exército brasileiro e está aí para todo mundo ver.

O senhor acredita que de alguma maneira, esse pedido de impeachment e o arquivamento, pode colocar mais lenha na fogueira em que Carlos Bolsonaro e o vice entraram?

Gosto muito do Carlos. O Carlos é coerente com aquilo que faz e com aquilo que fala. Principalmente a moral. Tudo que eu usei como elemento no processo de impeachment ele tem postado. E tem aberto os olhos de muitas pessoas, principalmente jornalistas, intelectuais. Pessoas que começam a olhar por outros prisma.

Como eu disse, o meu objetivo eu alcancei. Dilma teve 19 pedidos de impeachment e todo mundo ignorou, no 20º ela tombou. Esse meu foi só um tiro de aviso. Esse não impede que amanhã eu apresente novos pedidos. E o farei o que preciso for.

Se Mourão tiver juízo, agora. Ele vai mergulhar. Vai respeitar o presidente e não vai dividir a nação brasileira.

O governo Bolsonaro teve início em 1º de janeiro de 2019, com a posse do presidente Jair Bolsonaro (então no PSL) e de seu vice-presidente, o general Hamilton Mourão (PRTB). Ao longo de seu mandato, Bolsonaro saiu do PSL e ficou sem partido até filiar ao PL para disputar a eleição de 2022, quando foi derrotado em sua tentativa de reeleição.