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SP extingue a Dersa, foco de casos de corrupção com Paulo Preto e Rodoanel

Vista aérea das obras do trecho Norte do Rodoanel Mario Covas: denúncias de corrupção em série e condenações na Lava Jato  - Luis Moura/WPP/Estadão Conteúdo
Vista aérea das obras do trecho Norte do Rodoanel Mario Covas: denúncias de corrupção em série e condenações na Lava Jato
Imagem: Luis Moura/WPP/Estadão Conteúdo

Aiuri Rebello

Do UOL, em São Paulo

10/09/2019 18h19Atualizada em 11/09/2019 14h43

Resumo da notícia

  • Assembleia de SP aprovou lei que extingue a Dersa, estatal paulista que toma conta das rodovias
  • Proposta foi do governador João Doria, que alega perda de utilidade e prejuízos da estatal
  • Dersa foi foco dos maiores escândalos de corrupção das gestões tucanas em SP
  • Era lá que trabalhava como diretor Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto e apontado como operador de propinas do PSDB
  • Paulo Preto foi condenado a quase 200 anos de prisão por desvios nas obras do Rodoanel Mario Covas e responde a outros processos

A Alesp (Assembleia Legislativa de SP) aprovou no fim desta tarde, com 64 votos a favor e 15 contra, a extinção da Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S/A), empresa de economia mista do governo paulista fundada em 1969 para executar obras viárias e administrar rodovias que cortam o estado.

Nos últimos anos, a Dersa virou foco de denúncias de corrupção contra políticos e integrantes de gestões do PSDB em São Paulo.

Era lá que trabalhava como diretor Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto e apontado como operador de propinas de tucanos como o senador José Serra e o ex-ministro das Relações Exteriores, Aloísio Nunes Ferreira — ambos negam qualquer relação com os crimes do ex-subordinado, que está condenado duas vezes em processos da Operação Lava Jato em São Paulo e está preso preventivamente em Curitiba por causa de outro processo.

A extinção da estatal foi proposta pelo governador João Doria (PSDB-SP) e enviada à Alesp no primeiro semestre deste ano. A justificativa é que como a maioria das rodovias do estado foram concedidas à iniciativa privada, o governo teria a capacidade de gerir diretamente esses contratos.

Prejuízo e processos bilionários

No projeto de lei enviado à Alesp, Doria afirma que a manutenção da Dersa custa cerca de R$ 50 milhões por ano e tem um déficit operacional acumulado de cerca de R$ 404 milhões nos últimos anos de operação (o período exato não foi detalhado). Fora isso, a Dersa é alvo de processos judiciais que podem custar pelo menos R$ 1,1 bilhão, caso as ações sejam efetivamente perdidas.

Dentre os objetivos não descritos no projeto com a extinção, está o de colocar uma "pá de cal" em cima de um dos principais focos de denúncias de corrupção contra os tucanos em SP. "A história do rodoanel e do Paulo Preto acabaram com a gente, não tem como falar em Dersa sem lembrar disso junto", afirma um deputado estadual do PSDB envolvido na articulação da aprovação do fim da empresa. "Então não deixa de ser unir o útil ao agradável: a empresa não tem mais função, custa caro e de quebra é uma péssima lembrança para nós."

A obra do Rodoanel Mario Covas, na região metropolitana de São Paulo, virou o maior foco de corrupção contra gestões tucanas em SP. Neste ano, o UOL mostrou que a Dersa chegou a desapropriar a mesma área três vezes pelo dobro do preço em todas elas e que também pagou a pessoas erradas nestas desapropriações.

Por ordem de Paulo Preto, aponta o MP-SP (Ministério Público de São Paulo), a Dersa pagou cerca de R$ 740 mil a integrantes de uma quadrilha ligada ao PCC (Primeiro Comando da Capital) durante as desapropriações para as obras do rodoanel. A principal testemunha contra o ex-diretor da estatal firmou delação premiada com o MPF (Ministério Público Federal) e entrou para o programa de proteção a testemunhas.

Longo histórico de denúncias de corrupção

Em outra obra da Dersa, a Rodovia Carvalho Pinto, o prejuízo com a corrupção teria sido de R$ 463 milhões. Segundo delações na Operação Lava Jato, o PSDB teria cobrado de propina para o caixa 2 de campanhas pelo menos R$ 97 milhões em SP.

Paulo Preto está preso e condenado a 145 anos e 27 anos de prisão em dois processos da Lava Jato, ambos por conta de desvios nas obras do Rodoanel Mario Covas. A força-tarefa da operação conseguiu bloquear R$ 113 milhões em uma conta ligada a ele nas Bahamas.

A Dersa possui 307 empregados efetivos. Parte deste contingente deve ser transferido para outras empresas e setores do governo, enquanto outra parte deve ser demitida. A empresa será oficialmente encerrada a partir da sanção do governador e publicação no Diário Oficial do estado.

Outro lado

Em nota, o PSDB de São Paulo afirmou que "nem o partido nem seus dirigentes são réus nos processos em questão e que o PSDB não possui qualquer tipo de vínculo, passado ou presente, com o senhor Paulo Vieira".

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