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Unidos sob "Lula Livre", PSOL e PT se opõem sobre soltura de deputados

André Ceciliano (PT), presidente da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) - ALEXANDRE BRUM/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO
André Ceciliano (PT), presidente da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) Imagem: ALEXANDRE BRUM/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO

Gabriel Sabóia

Do UOL, no Rio

23/10/2019 12h03

Resumo da notícia

  • Decisão de livrar deputados presos evidencia racha entre partidos da esquerda fluminense
  • Representantes do PT, PSOL, PCdoB e PSB não chegaram a um posicionamento único
  • Partidos tentam criar uma frente única para concorrer à prefeituras no ano que vem

A decisão da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) de livrar da prisão cinco deputados estaduais presos na Operação Furna da Onça —um desdobramento da Lava Jato— joga luz sobre o racha ideológico entre os partidos da esquerda fluminense. No total, foram 39 votos a favor de soltar os parlamentares e 25 contra (seis não votaram). No entanto, os partidos de esquerda não conseguiram chegar a um denominador comum em relação às prisões.

Representantes do PT, PSOL, PCdoB e PSB (partidos que também dialogam pela criação de uma frente única para concorrer a prefeituras no Rio) se reuniram na tarde da última segunda-feira (21) em uma reunião a portas fechadas na Alerj, que pretendia alinhar um posicionamento único. No entanto, após duas horas, o encontro foi finalizado sem que uma estratégia fosse definida.

Enquanto os três deputados do PT (partido do presidente da Alerj, André Ceciliano) votaram favoráveis à soltura dos parlamentares, o PSOL teve os seus cinco votos pela manutenção das prisões. O PCdoB teve o seu único voto da bancada favorável à soltura, enquanto os dois deputados do PSB divergiram, dando um voto em favor e outro contra a liberação dos acusados.

PT, PSOL e PCdoB são defensores do "Lula Livre" e críticos dos métodos adotados pela força-tarefa da Lava Jato na condução do processo do ex-presidente, que foi preso em abril do ano passado sem que o houvesse o chamado trânsito em julgado, quando há o esgotamento de recursos. Os deputados estaduais André Correa (DEM), Chiquinho da Mangueira (PSC), Luiz Martins (PDT), Marcos Abrahão (Avante) e Marcus Vinícius Neskau (PTB) ainda são réus no âmbito da Furna da Onça, que investiga o recebimento de propina e distribuição de cargos em troca de apoio político na Alerj.

O deputado Flávio Serafini (PSOL) procurou minimizar a divisão. "Discordâncias na esquerda são normais. Nos deparamos com esse dilema, mas os diálogos permanecem. Faz parte da democracia", disse.

Para justificar o seu voto unificado, o PSOL informou que "atua com coerência na oposição contra os governos estaduais do MDB, que trouxeram consequências graves para a população do Rio de Janeiro" —os crimes investigados pela Furna da Onça se referem aos mandatos de Sérgio Cabral (MDB) e Luiz Fernando Pezão (MDB).

Os petistas, que votaram pela soltura dos parlamentares, adotaram o discurso oficial de "respeito à Constituição Federal".

A situação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que se encontra preso na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, foi citada na reunião. "Pedimos Lula Livre, mesmo com ele condenado em segunda instância. Como podemos manter esses deputados presos, se nem condenados eles estão?", disse um dos parlamentares presentes à reunião.

Pesou ainda na decisão petista, o fato de André Ceciliano estar entre os 22 deputados citados pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeira Atípicas) por ter lotado em seu gabinete funcionários cujas movimentações de dinheiro não são condizentes com os seus vencimentos.

O relatório do Coaf que investiga essas movimentações é oriundo, justamente, da Furna da Onça. Ceciliano nega que tenha havido qualquer irregularidade no seu gabinete e afirma já ter colocado os seus sigilos telefônico e bancário à disposição das investigações conduzidas pelo MP-RJ.

Na última quinta-feira (17), quando a Alerj foi notificada pelo TRF-2 (Tribunal Regional Eleitoral da 2ª Região) que caberia à Casa Legislativa a decisão de manter presos, ou não, os deputados detidos, Ceciliano já havia se posicionado favorável à soltura.

"A minha decisão de votar é favorável à soltura. Eles [os deputados] já têm quase um ano de afastamento. Agora é deixar a coisa fluir. Por conta do que está escrito na Constituição, estou muito tranquilo do meu voto. É uma decisão de foro íntimo", afirmou. Entre os presos, estava o deputado Chiquinho da Mangueira, do PSC, mesmo partido do governador Wilson Witzel, a quem Ceciliano está alinhado.

Procurado para justificarem seus votos, os deputados do PT Ceciliano, Waldeck Carneiro e Zeidan não falaram com a reportagem.

Diálogos por frente única caminham lentamente

Mirando inicialmente a disputa pela Prefeitura do Rio no ano que vem, a construção de uma candidatura única de esquerda encabeçada pelo deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) caminha a passos lentos. A menos de um ano do pleito, ainda não há certeza sobre a coligação que poderia contar com PT, PV, Rede, PCdoB e PSB. Os diálogos com representantes do PDT também não estão descartados.

Serafini admite que há dificuldades em construir diálogo entre os partidos, mas tenta ver benefícios, mesmo nas discordâncias.

"Iniciativas em comum já chegaram a ser feitas. Esse processo que vivenciamos [de votação] nos exigiu uma dinâmica de reuniões que nunca tinha sido feita. Apesar das divergências, criou-se um diálogo", disse.

Como votou cada deputado

Com a decisão, André Correa (DEM), Chiquinho da Mangueira (PSC), Luiz Martins (PDT), Marcos Abrahão (Avante) e Marcus Vinícius Neskau (PTB) ficarão livres, mas não poderão reassumir os mandatos. Veja a seguir como votou cada deputado:

Sim
Anderson Alexandre (SDD)
André Ceciliano (PT)
Bagueira (SDD)
Brazão (PL)
Bruno Dauaire (PSC)
Carlos Minc (PSB)
Chico Machado (PSD)
Coronel Salema (PSL)
Delegado Carlos Augusto (PSD)
Dr. Deodalto (DEM)
Enfermeira Rejane (PCdoB)
Franciane Motta (MDB)
Gil Vianna (PSL)
Giovani Ratinho (PTC)
Gustavo Schmidt (PSL)
Gustavo Tutuca (MDB)
Jair Bittencourt (PP)
João Peixoto (PSDC)
Jorge Felippe Neto (PSD)
Leo Vieira (PRTB)
Lucinha (PSDB)
Marcelo Cabeleireiro (DC)
Márcio Canella (MDB)
Márcio Pacheco (PSC)
Max Lemos (MDB)
Marcos Muller (PHS)
Renato Cozzolino (PRP)
Renato Zaca (PSL)
Rodrigo Bacellar (SDD)
Rosenverg Reis (MDB)
Samuel Malafaia (DEM)
Sergio Fernandes (PDT)
Sergio Louback (PSC)
Thiago Pampolha (PDT)
Val Ceasa (Patriota)
Valdecy da Saúde (PHS)
Vandro Família (SDD)
Waldeck Carneiro (PT)
Zeidan (PT)

Não
Alana Passos (PSL)
Alexandre Freitas (NOVO)
Anderson Moraes (PSL)
Bebeto (PODE)
Carlos Macedo (PRB)
Chicão Bulhões (NOVO)
Dani Monteiro (PSOL)
Daniel Librelon (PRB)
Dr. Serginho (PSL)
Eliomar Coelho (PSOL)
Filipe Soares (DEM
Filippe Poubel (PSL)
Flavio Serafini (PSOL)
Luiz Paulo (PSDB)
Marcelo do Seu Dino (PSL)
Márcio Gualberto (PSL)
Marina Rocha (PMB)
Martha Rocha (PDT)
Mônica Francisco (PSOL)
Renan Ferreirinha (PSB)
Renata Souza (PSOL)
Rodrigo Amorim (PSL)
Rosane Felix (PSD)
Subtenente Bernardo (PROS)
Welberth Rezende (PPS)

Não votaram
Capitão Nelson (Avante)
Carlo Caiado (DEM) - Faltou
Dionisio Lins (PP) - Faltou
Fabio Silva (DEM) - Faltou
Alexandre Knoploch (PSL) - Licenciado
Tia Ju (PRB) - Licenciada

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