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"Bolsonaro vai para a lona e sabe disso", diz professor da Unicamp

10.jun.2019 - Marcos Nobre, professor de filosofia da Unicamp e presidente do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento)  - Jardiel Carvalho/UOL
10.jun.2019 - Marcos Nobre, professor de filosofia da Unicamp e presidente do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) Imagem: Jardiel Carvalho/UOL

Do UOL, em São Paulo

27/04/2020 11h41Atualizada em 27/04/2020 12h07

Marcos Nobre, filósofo e professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), disse, em entrevista ao El País Brasil, que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) está se refugiando em sua base de eleitores mais radicais após a demissão de ministros e que é uma questão de tempo até que o presidente sofra impeachment e seja retirado do cargo, "Bolsonaro vai para a lona e sabe disso."

Segundo o filósofo, o presidente escolhe fazer um "governo de guerra". "Num governo de guerra, você não pode ter uma pessoa que é maior que você. Isso explica tirar o [Luiz Henrique] Mandetta e também explica tirar o [Sérgio] Moro. Ele [Jair Bolsonaro] vai se livrando de todas essas pessoas", diz o docente em referência à demissão do então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta no último dia 16, e Sergio Moro, ex-ministro da Justiça, na quinta-feira (23).

O docente, que também é presidente do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, ainda apontou que, no momento, Bolsonaro não tem muita saída "a não ser radicalizar". Ele ainda prevê que uma situação muito pior está por vir porque "fizemos [o governo] tudo meia boca" em relação à pandemia do novo coronavírus.

"O governo não tomou as medidas de isolamento que deveria tomar, nem as medidas econômicas necessárias para o isolamento. Esse tipo de combinação significa o prolongamento de nossa desgraça. Bolsonaro vai para a lona e sabe disso", analisou. O presidente defende o isolamento vertical, restrito apenas a idosos e grupos de risco.

Impeachment de Jair Bolsonaro

No que se refere à questão de um impeachment de Bolsonaro, Nobre disse que a "tendência é ir ladeira abaixo e que em questão de meses ele [o presidente] se veja reduzido [somente] a esse núcleo duro [do eleitorado]".

Apesar da chance de impeachment, o professor contou que há obstáculos como, por exemplo, as "divisões no campo democrático, entre a direita e a esquerda". Para ele, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), não aceitaria um pedido de impeachment vindo da esquerda.

"A esquerda seria obrigada a negociar com a direita para apoiar um pedido de impeachment que viesse de alguma figura considerada de centro e não seja um potencial candidato. Como um ex-ministro do STF ou um ex-ministro da Justiça", aponta Nobre.

Para o docente, o impeachment é uma questão muito complexa e não pode ser um "jogo de destruição do adversário". "Não pode acontecer de uma parte do sistema político entregar a outra para os leões e transformar o jogo político em um jogo de destruição do adversário. O que precisa voltar é a regra de convivência. Isso é o que permite um impeachment que nos livre de Bolsonaro. Caso contrário a estrutura fica igual e vai continuar produzindo outros Bolsonaros".

Nobre também aponta que, neste momento, é necessário que a sociedade deixe de culpar outras pessoas e instituições para que haja um diálogo saudável. "Culpamos a esquerda, o Lula, o Temer, as elites, os evangélicos... Se isso não acabar, ou não diminuir num nível que possamos conversar, vamos continuar produzindo Bolsonaros. Não adianta só tirar o cara", afirma.

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