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Para ex-Lava Jato, máquina estatal está servindo a interesses de governante

Do UOL, em São Paulo*

26/05/2020 18h04Atualizada em 27/05/2020 18h10

O ex-procurador da Lava Jato Carlos Fernando dos Santos Lima disse ver o uso da máquina estatal servindo de interesse particular para perseguir pessoas ou empresas e demonstrou preocupação com cenário durante participação no UOL Entrevista, feita pelos colunistas do UOL Chico Alves e Tales Faria.

"Eu fico preocupado. Nós estamos vendo a máquina estatal servindo interesse particular de um governante de perseguir pessoas, instituições ou empresas que lhe são contrárias", disse ele.

"O fato é que não se pode usar a Polícia Federal para perseguir adversários políticos. Se Witzel fez ou não fez, eu creio que as provas estão no procedimento criminal no STJ. O melhor é que sejam mostradas o mais rápido possível", afirmou ele sobre a operação que envolve o governador do Rio de Janeiro.

O ex-procurador regional da República Carlos Fernando dos Santos Lima atuou na força-tarefa da Lava Jato entre 2014, quando foi deflagrada a primeira fase da operação, até setembro de 2018. Em março do ano seguinte aposentou-se no Ministério Público.

Operação

O STJ (Superior Tribunal de Justiça) autorizou apreensão e quebrou o sigilo dos dados contidos nos telefones e demais equipamentos eletrônicos do governador Wilson Witzel (PSC). Aparelhos foram apreendidos hoje em operação da Polícia Federal. A determinação consta na decisão do ministro Benedito Gonçalves, que autorizou a Operação Placebo, e envolve todos os investigados da ação da Polícia Federal, entre eles, a primeira-dama Helena Alves Brandão.

De acordo com a decisão, a quebra dos sigilos de dados de Witzel e dos demais investigados, inclusive de contas mantidas na nuvem, é necessária para que sejam buscadas provas do possível envolvimento do governador em suposto esquema de desvios nos contratos emergenciais para tratar pacientes com covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. Witzel nega todas as acusações.

Lava Jato

Santos explicou, ainda, que "grande parte daquilo que dizem que a Lava Jato não fez está parada no Supremo". O ex-procurador aproveitou para criticar o foro privilegiado. "Infelizmente, o foro privilegiado e uma certa tendência do Supremo em desmembrar a Lava Jato de Curitiba interromperam muitas boas investigações que aqui ocorriam. Não se pode fazer investigação sobre tudo, mesmo porque você tem tempo e dinheiro curtos. A Lava Jato de Curitiba procurou focar no que era mais importante. Os fatos envolvendo PSDB estão em São Paulo, na Lava Jato. Eu espero que façam um bom trabalho com isso."

Questionado sobre seu posicionamento nas eleições presidenciais de 2018, Santos disse que, no primeiro turno, votou em Marina Silva; e que, no segundo, não teve escolha senão votar em Jair Bolsonaro. "Não teria condições de votar em Haddad. Seria como virar o crânio da arma para o meu rosto e apertar o gatilho. Viria contra as investigações e contra a Lava Jato de um primeiro momento. Bolsonaro era uma dúvida que se transformou nesse governo terrível que estamos vivendo", disse. "Não digo que Haddad seria melhor, mas creio que na questão da pandemia, seria um governo melhor."


*Participaram desta produção Diego Henrique de Carvalho, Talyta Vespa, Ana Carolina Silva e Gilvan Marques