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Bolsonaro gera crises artificiais e nação está exausta, diz Reale Jr.

Do UOL, em São Paulo

04/06/2020 11h22Atualizada em 04/06/2020 13h03

A crise política brasileira foi criada artificialmente pelo atual presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e a nação está exausta. Esta é a avaliação do jurista Miguel Reale Jr, ex-ministro do governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e um dos autores do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) em 2016. Ele participou da edição de hoje do UOL Debate, que teve mediação da colunista do UOL Thaís Oyama.

Para Reale Jr, não existem motivos para o alarde feito por Bolsonaro e seus aliados em tom de ameaça. O debate teve ainda a presença do jurista José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça (2011-2016) nos governos de Dilma Rousseff.

"O que se vê é uma crise artificial, o presidente precisa estar sempre mobilizado criando crises. Nós estamos exaustos, a nação, fora a pandemia, está exausta, está cansada desse clima de confronto que [o presidente] gerou", avaliou Miguel Reale Jr.

Não existe confronto entre Poderes, o que existe é um presidente que cria um confronto artificial para justificar eventualmente soluções extraconstitucionais.
Miguel Reale Jr, jurista e ex-ministro do governo FHC

Polícia Federal

Questionado sobre a suposta intervenção de Jair Bolsonaro na PF (Polícia Federal), que veio à tona após a saída do ex-ministro Sergio Moro e se tornou objeto de inquérito no STF (Supremo Tribunal Federal), José Eduardo Cardozo afirmou que o presidente tentou "sequestrar" a instituição.

"O presidente tem praticado atos desatinados. Agora o que nós temos assistido é uma ofensa, uma tentativa de capturar a Polícia Federal fazendo com que ela se transformasse num órgão que atuasse protegendo familiares e amigos, tentando obter informações sigilosas", disse Cardozo.

O ex-ministro, que também foi advogado-geral da União no governo de Dilma, responsável pela defesa da presidente durante o processo de impeachment, disse que Bolsonaro possui uma "postura autoritária" que ele usa para criar crises institucionais com outros Poderes.

"O presidente não pode atentar contra a liberdade de atuação dos outros Poderes", enfatizou Cardozo.

Crime de responsabilidade

Citando as manifestações de cunho antidemocrático que o presidente participa desde o ano passado, o ex-ministro defendeu o impedimento de Bolsonaro com base em supostos crimes de responsabilidade.

[Bolsonaro] comete crime de responsabilidade quando viola o estado democrático de direito ou quando propõe sua violação.
José Eduardo Cardozo, jurista e ex-ministro do governo Dilma Rousseff

Reale Jr. concordou com Cardozo. "Ele não só vai, como discursa dizendo que estava ali porque entendia que o caminho dos apoiadores estava certo. Bolsonaro torna sua essa manifestação, com ataque aos poderes Legislativo e Judiciário."

Havia faixas pelo fechamento do STF. Portanto, está atuando em afronta grave aos Poderes. Esta seria a acusação mais grave que poderia ser feita como crime de responsabilidade. Além do mais sua conduta ao longo deste ano afronta o decoro, a compostura
Miguel Reale Jr., jurista e ex-ministro do governo de FHC

Bolsonaro teme que ruas "cresçam", diz Reale Jr.

Na avaliação de Reale Jr., o presidente ter classificado os manifestantes contrários ao seu governo como "terroristas", mostra que o presidente está com receio do aumento dos protestos. Esta ampliação poderia desembocar, diz o jurista, em um impedimento do presidente por conta da pressão popular.

"Houve uma pequena manifestação organizada por torcidas organizadas e o presidente já sai dizendo que são terroristas. Ele tem receio de que venha a ocorrer na [avenida] Paulista a reunião de todos estes que assinam os manifestos em prol de um impeachment do Bolsonaro. Ele tem medo que haja uma manifestação reunindo toda a sociedade civil que está se levantando contra ele", disse

Na avaliação de Reale Jr, Bolsonaro "está se antecipando" com a atitude de chamar manifestantes de terroristas "para justificar um ato de lei e ordem ou justificar até mesmo uma intervenção".

Ele tem receio que tenha reuniões na rua que deem o substrato social e arrimo político para um pedido de impeachment.
Miguel Reale Jr, jurista e ex-ministro do governo FHC

* Participaram dessa cobertura Alex Tajra, Beatriz Sanz, Fabio Regula, Talyta Vespa e Stella Borges (redação) e Diego Henrique de Carvalho (produção)

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