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Política

Votação em Goiânia termina em gritaria, e vereadora fala em discriminação

Galtiery Rodrigues

Colaboração para o UOL, em Goiânia

05/08/2020 14h14

O retorno dos trabalhos da Câmara Municipal de Goiânia ontem, após período de recesso regimental, foi marcado por uma discussão que durou cerca de 20 minutos. O vereador Clécio Alves (MDB), que presidiu a sessão, chegou a levantar o tom de voz para ordenar que o microfone e o áudio da vereadora Tatiana Lemos (PCdoB), que trabalhava remotamente, fossem cortados e interrompessem a fala dela.

"Corta a palavra da vereadora. É para cortar o som da vereadora, estou determinando. Corte o som. É para cortar, agora", ordenou ele, aos gritos. A atitude chamou a atenção de outros vereadores, que defenderam o direito de fala da colega.

Em entrevista ao UOL, a vereadora alegou ser vítima de discriminação. "O homem, no parlamento, já se sente predefinido como sendo a autoridade. À mulher, cabe a submissão ou a inadequação", explicou. A reportagem procurou Clécio, mas não houve resposta até a publicação da matéria.

O que gerou a discussão?

O plenário da Câmara analisava um projeto de autoria de Tatiana. Era a primeira pauta da ordem do dia. O projeto visa assegurar às mulheres atendidas pela rede municipal de saúde o direito de terem acesso ao exame para detectar trombofilia (doença que causa menor circulação do sangue durante a gravidez e pode causar aborto) e ao subsequente tratamento da doença.

A proposta havia sido vetada pelo prefeito de Goiânia, Iris Rezende (MDB), e o plenário votaria pela manutenção ou derrubada do veto. Após a leitura introdutória, feita pelo secretário da mesa diretora, vereador Anselmo Pereira (MDB), Clécio demorou três segundos entre colocar o projeto em discussão e dar início à votação. "Em discussão, em discussão", repetiu ele duas vezes. "Projeto em votação" continuou, em uma questão de segundos.

Acompanhando a sessão por videoconferência devido a problemas de saúde, Tatiana não teve tempo hábil de expressar o interesse de discutir a proposta de sua autoria, devido à velocidade adotada por Clécio. O seu microfone estava desligado e ela não conseguiu falar antes de ser determinado o início da votação. Ao reivindicar o direito de fala, Tatiana passou a discutir com Clécio.

Foram quase 20 minutos de bate-boca até que a vereadora conseguiu apresentar a argumentação. "O senhor deveria saber que existem vereadores que estão participando de forma remota", expressou ela. "Eu não sou adivinho, não tenho poder de saber que o telefone (sic) da senhora está desligado...No meu conhecimento, esse negócio de remoto acabou, não existe mais", gritou Clécio.

Em seguida, aos berros, ele pediu novamente que o microfone fosse desligado. Clécio é vice-presidente da Câmara e estava ontem substituindo o vereador Romário Policarpo (Patriota), na presidência.

O vereador manteve a posição, argumentando que não poderia retornar à fase de discussão do projeto, após iniciada a votação, pois descumpriria o regimento da casa. Depois, ao ser convencido por colegas a dar a palavra para Tatiana, ele alegou que tinha acabado de saber que ela era a autora do projeto e que, por isso, ponderou o direito de fala. O nome dela como autora havia sido citado na leitura introdutória.

"Me senti muito impotente"

Ao UOL, Tatiana declarou ter se sentido "muito agredida" pela forma como tudo ocorreu. Ela revelou, ainda, um sentimento de impotência: "Fiquei realmente assustada com tudo aquilo. Estava participando (da sessão) de forma remota e me senti muito impotente ao ver como foi feito, de cortar a minha palavra, porque eu estava no meu direito", pontua ela.

O que aconteceu ontem, segundo Tatiana, não foi uma exceção, pois é algo que se repete. "Se comigo acontece isso, que tenho o mesmo direito que ele, na mesma esfera de poder, imagine o que acontece quando a mulher não está no mesmo patamar de força e poder", explicou.

De 35 cadeiras da Câmara de Goiânia, apenas cinco são ocupadas por mulheres. Na sessão de hoje, elas se uniram e fizeram um manifesto conjunto repudiando o que ocorreu e reforçando a fala de que as mulheres não serão caladas.

Na votação de ontem, o plenário acabou derrubando o veto do prefeito, em relação ao projeto, e assegurando o direito de acesso das mulheres ao exame e ao tratamento contra a trombofilia na rede municipal de saúde.

O UOL tentou contato com Clécio Alves hoje, mas até o momento ele não atendeu às ligações e não respondeu as mensagens enviadas.

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