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Ex-secretário do AM aponta governador como chefe de esquema de respiradores

Em imagem de abril, o então secretário de Saúde do Amazonas, Rodrigo Tobias, dá informações sobre a covid-19 no estado - Reprodução / Facebook / Secretaria Estadual de Saúde do Amazonas .
Em imagem de abril, o então secretário de Saúde do Amazonas, Rodrigo Tobias, dá informações sobre a covid-19 no estado Imagem: Reprodução / Facebook / Secretaria Estadual de Saúde do Amazonas .

Rosiene Carvalho

Colaboração para o UOL, em Manaus

16/10/2020 16h21Atualizada em 16/10/2020 18h36

O ex-secretário de Saúde do Amazonas Rodrigo Tobias declarou que o governador do estado, Wilson Lima (PSC), comandou a operação de compra de 28 respiradores superfaturados e inservíveis para covid-19 numa loja de vinhos, em plena pandemia e colapso do sistema de saúde em Manaus. Em 20 de abril, o UOL noticiou o assunto com exclusividade e mostrou que a compra foi 316% mais cara que aparelhos vendidos no Brasil e no exterior.

Em depoimento prestado à PF (Polícia Federal) na semana passada, ao qual a reportagem teve acesso, Tobias afirmou que Wilson Lima indicou a ele o empresário Gutemberg Alencar e este, sem nomeação na administração pública, passou a apontar onde o Estado do Amazonas iria comprar respiradores.

"No dia 3 de abril, à noite, o declarante se encontrou com o governador Wilson Lima no aeroporto para recebimento de uma carga de respiradores (vindos do Rio de Janeiro pelo avião da FAB), e nessa ocasião, o governador insistiu que o declarante se encontrasse com a pessoa de nome Alencar; Que então no dia 4, sábado, o declarante encontrou, pela primeira (sic), com o Alencar em seu gabinete", afirma o documento do depoimento. A reportagem não conseguiu contato com Alencar ou sua defesa.

Tobias também afirmou que a ex-secretária de comunicação do Amazonas, a jornalista Daniella Assayag, o procurou em seu gabinete "a pedido do governador", insistindo que o estado comprasse os respiradores da empresa Sonoar. Segundo o ex-secretário de saúde, os respiradores chegaram a Manaus por meio de um avião do estado quando ainda eram da Sonoar.

Em nota, o governo do Amazonas informou que não iria comentar informações de processo que tramita em segredo judicial. Informou também que "trabalha com transparência nas ações e com o fortalecimento dos sistemas de controle e que confia na Justiça".

Segundo as investigações da PF, o marido da ex-secretária, o médico Luiz Avelino, é sócio da Sonar e um dos beneficiados com o esquema.

A defesa do médico Luiz Avelino e de Daniella foram procurados, mas não responderam às mensagens da reportagem. Ambos negaram, em outros momentos, que tenham participação na irregularidade e que estavam à disposição da Justiça para esclarecimentos.

PGR aponta governador como chefe de esquema

De acordo com a PGR (Procuradoria-Geral da República), o governador do Amazonas, Wilson Lima "comanda e orienta" uma organização criminosa que se instalou no estado aproveitando a pandemia do novo coronavírus para obter ganhos ilícitos. A casa e o gabinete dele foram alvos de busca e apreensão em junho.

Há cerca de dez dias, a PF passou a investigar a participação e influência do vice-governador, Carlos Almeida (PTB), no esquema. Ele também teve casa e gabinete revistados.

Tobias e o empresário apontado como operador do governador foram presos temporariamente. Carlos Almeida nega envolvimento. Foi procurado pelo UOL para se manifestar por meio de um advogado, mas não respondeu.

No dia seguinte à segunda fase da Operação Sangria, da PF, Almeida negando que tenha cometido qualquer ato ilícito e alegando que se afastou da Casa Civil do Governo do Amazonas, em maio deste ano, "justamente por não concordar com os rumos da atual administração".

Depoimento de ex-secretário fortalece linha de investigação

O depoimento de Tobias apresenta a mesma narrativa, a respeito da participação do governador, do depoimento da gerente de compras da Susam, Alcineide Figueiredo, presa na primeira fase da Operação Sangria, que deu detalhes sobre a participação de Alencar no processo de fraude e superfaturamento, afirmando que o operador agia por indicação do governador e por conhecimento da Casa Civil, que na ocasião tinha como secretário-chefe o vice-governador.

A Sonoar comprou os respiradores de fornecedores em outros estados a um total de R$ 1.091.800,00 e vendeu por R$ 2.480.000,00, o que gerou um lucro de R$ 1.414.270,04 num intervalo de seis dias. O dinheiro foi enviado ao exterior, segundo investigações.

De acordo com a decisão do ministro do STJ (Superior Tribunal de Justiça), Francisco Falcão, que autorizou a segunda fase da operação, a PGR (Procuradoria Geral da República) afirma que a ex-secretária de Comunicação, Daniella Assayag, e o marido dela, Luiz Avelino, são do "círculo próximo do governador" do Amazonas. Para a PGR, este fato "corrobora a hipótese investigativa" que Wilson Lima é o "principal articulador dos crimes investigados".

Em seu depoimento, o ex-secretário de Saúde Rodrigo Tobias, embora admita que plena consciência das irregularidades, nega que tenha participação na fraude de compra de respiradores na loja de vinhos. O ex-secretário isenta o vice-governador de "indução" para o contrato com a adega, mas afirma que "em várias ocasiões entrou em contato com Carlos Almeida para tratar de assuntos da pasta de Saúde, dentre eles a aquisição de respiradores pulmonares".

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