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Descontentes com alto clero, deputados correm por fora em disputa na Câmara

O deputado federal Fábio Ramalho (MDB-MG) é conhecido pelos jantares de comida mineira aos colegas e entra na disputa por uma Câmara "mais democrática" entre os parlamentares - Agência Câmara
O deputado federal Fábio Ramalho (MDB-MG) é conhecido pelos jantares de comida mineira aos colegas e entra na disputa por uma Câmara "mais democrática" entre os parlamentares Imagem: Agência Câmara

Luciana Amaral

Do UOL, em Brasília

18/01/2021 04h00Atualizada em 29/01/2021 17h15

Descontentes com a cúpula de parlamentares que influencia o dia a dia da Câmara dos Deputados — o chamado alto clero —, pelo menos cinco deputados federais correm por fora na disputa pela Presidência da Casa: Alexandre Frota (PSDB-SP), André Janones (Avante-MG), Capitão Augusto (PL-SP), General Peternelli (PSL-SP) e Fábio Ramalho (MDB-MG).

Em comum, eles têm também campanhas modestas e a falta de suporte oficial dos próprios partidos às candidaturas. Ainda assim, pretendem competir em algum grau com os principais postulantes ao comando da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), apoiado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), e Baleia Rossi (MDB-SP), apoiado pelo atual presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Lira e Baleia contam ainda com o apoio de diversos partidos cada um.

A candidatura de Fábio Ramalho gerou a situação inusitada de o MDB na Câmara contar com dois emedebistas candidatos, embora o nome escolhido pela direção do partido seja o de Baleia, ele mesmo presidente nacional do MDB. O PSDB de Frota vai com Baleia. O PL e o Avante, por sua vez, estão com Arthur Lira. Até a última atualização desta reportagem, a situação no PSL tendia a Lira, mas com possibilidade de reversão. A eleição interna dos deputados está prevista para 1º de fevereiro.

Decepção é tida como principal motivo para candidatura

Alexandre Frota coloca como principal proposta, se eleito, acatar um pedido de impeachment contra Jair Bolsonaro por estar "cansado desse blá blá blá" de dezenas de solicitações à espera de uma análise pelo Rodrigo Maia e do toma lá dá cá que diz estar instituído na Câmara.

Coordenador da Frente Parlamentar de Segurança Pública, Capitão Augusto afirmou que já vinha articulando sua candidatura com os parlamentares da bancada temática há mais de um ano por sentirem falta de um presidente que dê prioridade às suas pautas.

Famoso pelos jantares regados a quitutes mineiros, Fábio Ramalho afirma que a Câmara é injusta para a maioria dos parlamentares e que se vive numa "ditadura de líderes e da Presidência da Casa". Para ele, a Câmara tem de ser mais democrática entre os próprios deputados federais.

Vejo hoje uma Casa de poucos em que mais de 490 deputados [dos 513] não participam de nada, das decisões. Ficam alijados de tudo, do poder que os eleitores deram"
Fábio Ramalho, deputado do MDB-MG

Se eleito, promete distribuir mais igualmente relatorias de projetos e cargos em comissões, com mais debates. Ele nega temer qualquer retaliação por não apoiar Baleia Rossi e nega ter algo pessoal contra o adversário, mas que vinha trabalhando em sua própria campanha "há muitos anos".

Assim como Frota, André Janones está em seu primeiro mandato como deputado federal e diz que o que mais lhe chama a atenção é o "deslocamento da classe política com a sociedade", pois o "clamor popular não tem qualquer peso em tomadas de decisões no Parlamento".

O deputado federal André Janones (Avante-MG) no lançamento oficial de sua candidatura à Presidência da Câmara - Najara Araújo/Câmara dos Deputados - Najara Araújo/Câmara dos Deputados
O deputado federal André Janones (Avante-MG) no lançamento oficial de sua candidatura à Presidência da Câmara
Imagem: Najara Araújo/Câmara dos Deputados

Caso seja eleito, o deputado pretende discutir a possibilidade de prisão após condenação em segunda instância, corte de regalias e a volta do auxílio emergencial durante a pandemia.

Campanha tem até reunião secreta para evitar retaliação

Capitão Augusto diz não temer represália do PL por ter se lançado avulso de forma consentida, defende. No entanto, admite que sua campanha é composta de reuniões secretas para que potenciais aliados não sofram punições dos respectivos partidos. Ele pretende visitar dez estados até a eleição.

Frota afirma contar com um grupo de cinco deputados para apoiá-lo e, exceção entre os pares, afirma não estar viajando nem ligando para os outros colegas em busca de votos. "Quem quiser vota. Quem não quiser não vota."

Para ele, os deputados que não têm grandes investimentos "jogam com o coração e a sorte".

A campanha de Ramalho consiste em ligar para cada parlamentar de sua casa em Brasília, sem viagens. Ele afirma conversar com 30 deputados por dia.

Janones cogitou viajar a alguns estados, mas considerou ser "desnecessário no momento que a gente vive hoje". A maior parte do contato com os colegas acontece por telefone e aplicativos de mensagens. A mobilização junto aos eleitores tem como carro-chefe as redes sociais, além de reuniões "sem que isso implique em aglomeração".

O deputado Capitão Augusto (PL-SP) diz que, se eleito, vai priorizar pautas relacionadas à segurança - Will Shutter/Câmara dos Deputados - Will Shutter/Câmara dos Deputados
O deputado Capitão Augusto (PL-SP) diz que, se eleito, vai priorizar pautas relacionadas à segurança
Imagem: Will Shutter/Câmara dos Deputados

Expectativa varia de 5 a 190 votos

A quantidade de nomes postos — nove até o momento — pode fazer com que os votos sejam pulverizados entre os candidatos e haja um segundo turno. O mais provável é que uma eventual segunda rodada de votação fique entre Lira e Baleia.

No entanto, os outros candidatos têm a esperança de conseguir um lugar ao sol. Uns mais, estimando até 190 votos, e outros menos, com cerca de 5 votos.

Ramalho se destaca no otimismo entre os candidatos que correm por fora. Ele diz contar com até 190 votos e apoio de parlamentares em todos os partidos, menos do Novo, PSOL e PCdoB.

Janones diz saber não ser o favorito na disputa, mas acredita que os votos que receber vão mostrar o distanciamento do Congresso perante as vontades da população.

"Não tenho nenhuma dúvida de que, em qualquer enquete que você fizer, se for ouvir a opinião da população, eu seria eleito presidente da Câmara, se fosse levada em conta [esse opinião] na hora do parlamentar dar o voto", afirmou.

Num cenário otimista, Janones calcula ter hoje entre 10 e 12 votos. Num pessimista, somente 5. Seu alvo são deputados "menos dependentes de siglas partidárias".

Capitão Augusto mira o segundo turno, mas diz não se iludir ao reconhecer Baleia e Lira como favoritos. Ele aposta em conversas com deputados das bancadas de segurança, de combate à corrupção, da família, evangélica e católica.

Se o voto fosse aberto, nem sairia candidato. Seria impossível conseguir votos"
Capitão Augusto, deputado do PL-SP

O deputado estima conseguir cerca de 70 votos procedentes de deputados militares, bolsonaristas, do PL e de São Paulo.

Frota diz não ter ideia de quantos votos conseguirá, mas acreditar contar com pelo menos 6 — o seu e os dos 5 deputados amigos.

O deputado Marcel van Hattem (Novo-RS) quer se colocar como "terceira via" entre Baleia Rossi (MDB-SP) e Arthur Lira (PP-AL) - Najara Araújo/Câmara dos Deputados - Najara Araújo/Câmara dos Deputados
O deputado Marcel van Hattem (Novo-RS) quer se colocar como "terceira via" entre Baleia Rossi (MDB-SP) e Arthur Lira (PP-AL)
Imagem: Najara Araújo/Câmara dos Deputados

Nanicos, mas com apoio oficial dos partidos

O deputado Marcel van Hattem (Novo-RS) anunciou que será candidato à Presidência da Câmara. Diferentemente dos cinco colegas concorrendo de forma avulsa, ele conta com o apoio oficial de seu partido e tem melhor trânsito entre a cúpula do Parlamento. À reportagem o deputado disse querer se colocar como uma "terceira via" entre Lira e Baleia.

O PSOL também decidiu que lançará a deputada Luiza Erundina (PSOL-SP). A intenção é atrair parlamentares da esquerda que não concordam com a escolha de seus partidos de ficar ao lado de Baleia.

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