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Solitário em defesa da cloroquina, Bolsonaro ensaia desembarque gradual

Bolsonaro exibe caixa de remédio à base de hidroxicloroquina - ADRIANO MACHADO
Bolsonaro exibe caixa de remédio à base de hidroxicloroquina Imagem: ADRIANO MACHADO

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, em Brasília

09/02/2021 04h00

Cada vez mais isolado em defesa do que chama de "tratamento precoce" contra covid-19, Jair Bolsonaro (sem partido) tem avaliado junto a ministros e assessores estratégias para um desembarque gradual do discurso de estímulo ao uso da hidroxicloroquina, da ivermectina e de outros remédios que não têm eficácia científica comprovada no combate à doença.

Segundo apurou o UOL, o movimento surge depois que interlocutores mais próximos buscaram, em conversas reservadas, convencer o presidente de que se fazia necessária uma "virada de página" e também a adesão concreta à narrativa pró-vacinação. Nas últimas semanas, imunizar a população tornou-se uma urgência para o governo.

Ainda nas últimas semanas, Bolsonaro era uma das principais vozes no debate público a tentar pôr em dúvida a confiabilidade da imunização —apontada em todo o mundo como caminho fundamental para solucionar os problemas decorrentes da pandemia. Em uma das falas mais polêmicas, o governante comparou ironicamente a possibilidade de reações adversas das vacinas a "virar um jacaré".

Troca de narrativa

O plano atual é abandonar aos poucos os discursos que não deram certo (de acordo com a avaliação interna) e, passo a passo, associar a imagem do governo federal e do Ministério da Saúde à vacinação. Até agora, o capital político da imunização tem sido absorvido quase que integralmente pelos governos locais.

Há expectativa de que os problemas de execução e organização do PNI (Plano Nacional de Imunização) sejam passageiros. O país tem uma expertise de longa data com campanhas de vacinação, e representantes do ministério dizem entender que é "questão de tempo" até que a situação seja normalizada, dando fim às críticas.

Uma das estratégias de longo prazo é, além da imunização em massa, fomentar a ideia de que o país poderia ter em breve uma vacina "100% brasileira", com desenvolvimento e produção na Fiocruz, que fica no Rio de Janeiro e já tem o compromisso de produzir e distribuir o imunizante de Oxford/AstraZeneca no país.

A missão da vacina brasileira foi delegada ao ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, que tem tentado captar recursos na iniciativa privada. Bolsonaro já falou publicamente sobre esta possibilidade, mas sem detalhes.

É também uma reação imediata aos planos do governador João Doria (PSDB-SP) —adversário político do presidente— de construir em São Paulo uma fábrica para concepção própria da CoronaVac.

'Jogo da opinião pública'

Pessoalmente, Bolsonaro não deixou de acreditar que a hidroxicloroquina, a ivermectina e medicamentos combinados podem contribuir para o tratamento da covid-19 —mesmo sem comprovação científica, ele costuma relacionar o "tratamento precoce" a uma suposta redução do número de mortes no país.

No entanto, nesse momento, há entendimento no Palácio do Planalto que a defesa pública mais entusiástica é inoportuna, pois há comoção popular em torno das vacinas contra a covid-19.

Bolsonaro fez um último esforço para tentar impulsionar a campanha pró-medicamentos no mês passado, logo depois de a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) ter criticado o tratamento precoce e aprovado o uso emergencial das vacinas CoronaVac e AstraZeneca. Mas, nos bastidores, o próprio presidente já vinha reconhecendo que estava a perder "o jogo da opinião pública".

Ele começou a sinalizar uma abertura à possibilidade de ajustes de discurso após observar reações negativas entre os seus apoiadores, há algumas semanas. As mais contundentes ocorreram depois de suas declarações em uma videoconferência realizada pelo banco de investimentos suíço Credit Suisse.

Há poucos meses, nós éramos o 4º país em mortes por milhão de habitantes, hoje somos o 26º. Alguma coisa aconteceu. Até que pesem muitos laudos, né, que são forçados, dados como se covid fossem, na verdade, nós sabemos que não é. Mas vamos supor que todos os laudos fossem verdadeiros. O Brasil, realmente, cada vez mais morre menos gente por milhões de habitantes.
Jair Bolsonaro, em videoconferência no dia 26 de janeiro

Ontem, em entrevista à TV Bandeirantes, ele colocou em dúvida a vacina, mas defendeu a imunização da mãe, Olinda Bonturi Bolsonaro, que faz parte do grupo de risco.

Temos um vírus. Estamos preocupados. Hoje meus irmãos decidiram, estão votando aqui se a minha mãe vai ser vacinada ou não com 93 anos de idade. Eu já dei [meu voto] lá, votei sim. Com 93 anos ser vacinada mesmo com uma vacina aí, não está comprovada cientificamente.
Jair Bolsonaro, em entrevista ao "Brasil Urgente", no dia 8 de fevereiro

Política de estado

O desembarque da hidroxicloroquina e outros remédios acontece quase um ano depois que o governo começou a difundir a droga, por muitas vezes com um viés de publicidade —enquanto se recuperava da covid, Bolsonaro chegou a exibir uma caixa de medicamento para uma das emas do jardim do Palácio da Alvorada.

Reportagem da Folha de S.Paulo de sábado (6) mostrou que o governo mobilizou pelo menos cinco ministérios, uma estatal, dois conselhos da área econômica, Exército e Aeronáutica para distribuir a cloroquina pelo Brasil durante a pandemia.

Uma ferramenta alimentada pelo Ministério da Saúde aponta distribuição de 5.416.510 comprimidos de cloroquina e 481.500 de hidroxicloroquina, principalmente para o Norte e Nordeste.

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