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Viagem de comitiva do spray a Israel custou ao menos R$ 400 mil

6.mar.2021 - Comitiva que foi a Israel em busca de acordos para spray contra coronavírus - Reprodução/Twitter/Ernestofaraujo
6.mar.2021 - Comitiva que foi a Israel em busca de acordos para spray contra coronavírus Imagem: Reprodução/Twitter/Ernestofaraujo

Eduardo Militão

Do UOL, em Brasília

18/03/2021 04h00

Na busca de acordos de cooperação para um possível remédio contra o novo coronavírus que está em estudo e uma vacina em fase 2 de teste, o governo brasileiro gastou pelo menos R$ 440 mil com uma comitiva de dez pessoas enviada a Israel entre os dias 6 e 10 de março.

Com apoio de consultores, advogados e servidores, o UOL obteve uma estimativa de custos. Parte das despesas se mantém desconhecida, porque a viagem foi feita com um avião da Força Aérea Brasileira, que mantém valores em sigilo; porque alguns órgãos revelaram só parcialmente os gastos; e porque outros órgãos não prestaram esclarecimentos, no caso da Câmara dos Deputados e dos ministérios da Saúde e da Ciência e Tecnologia.

Como muitos gastos foram feitos em dólar, a reportagem utilizou o câmbio da véspera da viagem, 5 de março. Neste dia, o dólar estava cotado a R$ 5,68.

A estimativa de custos mínimos

  • Jato da FAB (combustível, taxas aeroportuárias e diárias de militares): R$ 385 mil
  • Diárias da comitiva: R$ 59 mil
    Total: R$ 444 mil (a despesa por pessoa ultrapassou R$ 44 mil)

A maior parte dos custos se deveu ao jato da Aeronáutica usado na viagem. Os valores foram calculados pelo engenheiro aeroespacial e consultor aeronáutico Marco Gabaldo e por uma advogada especialista em direito administrativo, ambos ouvidos pela reportagem.

Anunciada pelo presidente Jair Bolsonaro, a comitiva contou com a participação de três diplomatas, um assessor internacional, dois deputados — Eduardo Bolsonaro e Hélio Lopes, filho e amigo do presidente Jair Bolsonaro, respectivamente —, dois técnicos em saúde, um segurança e um secretário de Comunicação.

O jato VC-99, usado pela Aeronáutica para a comitiva de dez pessoas, poderia transportar cerca de 40 passageiros, o que eleva o custo por pessoa da comitiva.

Nesta quarta-feira (17) o UOL pesquisou nas companhias aéreas o custo de uma viagem de avião para Israel no próximo sábado (20), ou seja, com com três dias de antecedência. Encontrou preços mais baratos que os gastos feitos pela FAB.

A cotação feita pela reportagem considerou um grupo de dez pessoas. O sistema permite a compra para nove pessoas ao mesmo tempo. Depois, é necessário fazer a compra do último bilhete à parte. A reportagem encontrou o preço de R$ 85 mil, pela Gol e pela Ethiopian Airlines, com na noite de domingo. Em cotação para mais uma pessoa, o que completaria dez passageiros, o custo obtido foi de mais R$ 14 mil pela Air France, com o voo chegando um pouco mais cedo, às 15h de domingo.

Portanto, o total em passagens aéreas ficaria em pouco menos de R$ 100 mil. Ainda que se considerasse o preço maior, o da segunda cotação, para todos os dez viajantes, o custo seria de R$ 146 mil, e não os R$ 385 mil gastos por se utilizar o jato da FAB.

As demais despesas da comitiva se devem a diárias. Os valores já consideram que o governo de Israel custeou parte dos gastos, conforme informou o Itamaraty. Eduardo Bolsonaro afirmou que gastou R$ 5.000 do próprio bolso na viagem.

O Itamaraty disse que as despesas dele e de Hélio Lopes (PSL-SP) foram pagas pela Câmara, que não revelou o valor. Procurados, os dois deputados não se manifestaram. Ernesto Araújo defendeu a necessidade da comitiva, apesar das restrições impostas pela pandemia.

Contato presencial é que abre portas. Essa relação não aconteceria se não tivesse contato presencial.
Ernesto Araújo, chanceler do Brasil

"Nada substitui esse contato direto, que realmente abre as portas", disse o assessor internacional da Presidência, Filipe Martins, em um vídeo gravado ainda em Israel. "Muitos desses interlocutores não estariam dispostos a compartilhar certos dados por videoconferência, por telefone, porque se tratam de novas linhas de pesquisa."

Há uma semana, o grupo apresentou o que seriam os resultados da missão a Jair Bolsonaro. Eduardo Bolsonaro, até então presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, mostrou a conversa em redes sociais.

Israel estuda uma vacina; Brasil, 15

O secretário do Ministério de Ciência e Tecnologia Marcelo Morales, que estava na comitiva, afirmou, em uma transmissão ao vivo ao lado de Jair Bolsonaro, que os israelenses possuem uma vacina em estudo. Pouco antes da viagem a Israel, Bolsonaro, que vinha defendendo o spray nasal contra a covid, mudou o discurso, passando a atribuir aos imunizantes o motivo para o voo.

Israel está desenvolvendo uma vacina praticamente no mesmo estágio que a nossa, a brasileira.
Marcelo Morales, secretário do Ministério de Ciência e Tecnologia

"A gente, quando foi a Israel, a gente levou a interlocução da nossa vacina brasileira em cooperação com Israel", afirmou.

O imunizante está em estudo pelo Hadassah Medical Organization. A assessoria da embaixada de Israel no Brasil e chefe do Departamento de Relações Internacionais do Ministério da Saúde israelense, Asher Salmon, disseram ao UOL que a vacina do país está na fase 2.

No Brasil, há 15 imunizantes em estudo, informou Morales. Há ainda as vacinas que são fabricadas aqui pela Fiocruz e pelo Butantan, com parceiros internacionais.

Na semana passada, Morales avaliou que o spray, que foi o primeiro motivo declarado da viagem, ainda estava "muito no início". "Mas é um estudo que vale a pena a gente cooperar com Israel e iniciar os testes clínicos em cooperação com o Brasil", disse.

Missão foi cumprida, diz Itamaraty

A assessoria do Itamaraty disse à reportagem que a missão "cumpriu com o objetivo de dar seguimento ao diálogo político e à cooperação científica e tecnológica, com ênfase na área de saúde, entre os dois países".

O ministério afirmou ainda que, além de saúde, o grupo tratou de segurança e tecnologia aeroespacial.

Nas conversas com o chanceler local e o premiê Benjamin Netanyahu, o Brasil declarou apoio aos israelenses contra investigação do Tribunal Penal Internacional sobre supostos crimes de guerra na Palestina.

Houve encontros com dirigentes do Ministério da Saúde de Israel, do Instituto Weizmann de Ciência, e do Centro Médico Sourasky. "O Instituto Weizmann é um dos maiores institutos de pesquisa do mundo, incluindo vacinas", afirmou o Itamaraty. "A cooperação em pesquisas para o combate à covid-19 será iniciada no curto prazo."

O grupo ainda tratou da possível participação do Brasil no projeto israelense Gênesis 2, para lançar uma espaçonave à Lua em 2024.

* Colaborou Jamil Chade, colunista do UOL, em Genebra (Suíça)

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