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6 meses

Renan aponta 11 contradições em depoimento da 'capitã cloroquina' na CPI

Entre os destaques, estão declarações sobre o uso da cloroquina contra a covid-19 e a crise no Amazonas - Edilson Rodrigues/Agência Senado
Entre os destaques, estão declarações sobre o uso da cloroquina contra a covid-19 e a crise no Amazonas Imagem: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Anaís Motta

Do UOL, em São Paulo

25/05/2021 14h49Atualizada em 25/05/2021 19h12

Relator da CPI da Covid, o senador Renan Calheiros (MDB-AL) preparou um documento em que aponta ao menos 11 contradições no depoimento da secretária de Gestão do Trabalho e da Educação em Saúde, Mayra Pinheiro. Entre os destaques, estão declarações sobre o "tratamento precoce", o uso da cloroquina no tratamento da covid-19 — ainda que comprovadamente ineficaz — e a crise sanitária no Amazonas.

A plataforma TrateCov, desenvolvida pela secretaria de Mayra, também é citada pelo senador. Ao ser questionada se o aplicativo havia sido hackeado — como disse o ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello —, a secretária declarou que sim e acusou um jornalista. Na sequência, desmentiu a versão alegando que não se poderia chamar de "hackeamento", mas sim de "extração indevida de dados".

Procurada pela reportagem, a defesa de Mayra disse que "encaminhará os documentos comprobatórios restabelecendo o que foi dito" pela secretária.

Veja abaixo as 11 contradições de Mayra Pinheiro apontadas por Renan Calheiros:

1. 'Tratamento precoce'

Testemunho de Mayra: "[É] Utilizado por profissionais médicos de todo os mundo, que o oferecem assim que feito o diagnóstico"

"Verdade dos fatos", segundo Renan: "Não há qualquer dado a esse respeito, sobretudo após a recomendação da OMS [Organização Mundial da Saúde] em sentido contrário ao uso de cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina"

2. Medicamentos para covid-19

Testemunho de Mayra: "Notas orientativas do Ministério da Saúde — nº 9 e nº 17 — apenas recomendam"

"Verdade dos fatos", segundo Renan: "O documento "Plano Manaus", assinado pelo ministro [Eduardo] Pazuello, diz textualmente que se deve incentivar o tratamento precoce. O aplicativo TrateCov, por sua vez, indica expressamente o tratamento. A depoente, em ofício encaminhado à Secretaria de Saúde, considera inadmissível não usar a cloroquina e demais remédios"

3. Pesquisas na área de infectologia

Testemunho de Mayra: "Não levou, enquanto secretária, informações ou experiências a respeito de estudos, pesquisas e publicações na área de infectologia"

"Verdade dos fatos", segundo Renan: "Ao longo de todo o depoimento relembra suas experiências, pesquisas e informações"

4. Cloroquina

Testemunho de Mayra: "[Mayra] Assevera ser antiviral. Mantém a orientação para uso de cloroquina e hidroxicloroquina"

"Verdade dos fatos", segundo Renan: "A cloroquina não é um antiviral nem um anti-inflamatório, e sim um antimalárico, utilizado em casos de malária, que é [causada por] um protozoário, não um vírus. OMS e Conitec [Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS] recomendam não utilizar os medicamentos, porque [são] inócuos ao tratamento"

5. TrateCov

Testemunho de Mayra: "A plataforma foi retirada do ar porque foi hackeada, e dados teriam sido irregularmente alterados"

"Verdade dos fatos", segundo Renan: "Ela mesma se contradisse, e contradisse [Eduardo] Pazuello, ao afirmar que a plataforma foi retirada do ar APENAS para fins de investigação, sem que tenha havido deturpação (como declarou Pazuello) ou alteração (como ela mesma disse) da plataforma"

6. Conitec e OMS

Testemunho de Mayra: "Levou em consideração os estudos e declarações a respeito do uso de cloroquina e hidroxicloroquina"

"Verdade dos fatos", segundo Renan: "Usou e recomendou o uso porque, segundo suas próprias declarações contraditórias, as recomendações da OMS e da Conitec foram baseadas em estudos com qualidade metodológica questionáveis"

7. População pediátrica

Testemunho de Mayra: "[Mayra] Declara que 37,5% da população pediátrica tem menos chance de contrair a doença. E que todas [as crianças] deveriam ter continuado a estudar presencialmente"

"Verdade dos fatos", segundo Renan: "Desconsidera que, em todas as escolas, há presença de adultos. E, para piorar, não apresenta percentual de transmissão, de crianças para adultos"

8. Isolamento

Testemunho de Mayra: "[Mayra] Afirma que o isolamento causou mais pânico na cidade, atrapalhou a evolução natural da doença e impediu o efeito rebanho de imunização."

"Verdade dos fatos", segundo Renan: "Contradisse sua declaração ao ser perguntada se teria conhecimento, recebido estudo técnico ou análise dessa tese e de seu impacto sobre a saúde pública, afirmando que NÃO RECEBEU. Também afirmou que tal tese nunca foi cogitada pelo Ministério da Saúde e que desconhece qualquer médico que defendesse igual teoria"

9. Comando do Ministério da Saúde

Testemunho de Mayra: "[Mayra] Declarou continuidade dos trabalhos desde a gestão [Luiz Henrique] Mandetta"

"Verdade dos fatos", segundo Renan: "Contradisse sua afirmação ao afirmar que os diferentes ministros adotaram decisões diversas porque as necessidades quanto à pandemia teriam mudado ao longo do tempo"

10. Manaus

Testemunho de Mayra: "[Mayra] Afirma que conhecia previamente a situação e as características do sistema de saúde de Manaus, que já havia experimentado um colapso em abril e maio de 2020"

"Verdade dos fatos", segundo Renan: "Há clara contradição quando declara que somente esteve em Manaus entre 3 e 5 de janeiro, quando tomou ciência da realidade ali apresentada. E declara também que só se deslocou a Manaus em 3/1/21, para providências pertinentes, por ordem do ministro Pazuello"

11. Oxigênio em Manaus

Testemunho de Mayra: "Seria impossível prever a quantidade de oxigênio a ser usada e a consequente falta do fornecimento"

"Verdade dos fatos", segundo Renan: "Contradição com o que afirmou ao Ministério Público Federal: 'É possível realizar esse cálculo a partir do prognóstico de hospitalizações, pois se estima a quantidade de insumo a partir do número de internados'"

A CPI da Covid foi criada no Senado após determinação do Supremo. A comissão, formada por 11 senadores (maioria é independente ou de oposição), investiga ações e omissões do governo Bolsonaro na pandemia do coronavírus e repasses federais a estados e municípios. Tem prazo inicial (prorrogável) de 90 dias. Seu relatório final será enviado ao Ministério Público para eventuais criminalizações.