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Após repercussão de assédio, Cury vira causa de desconforto na Alesp

O deputado estadual afastado Fernando Cury (Cidadania-SP) - Arquivo Agência Alesp
O deputado estadual afastado Fernando Cury (Cidadania-SP) Imagem: Arquivo Agência Alesp

Lucas Borges Teixeira

Do UOL, em São Paulo

21/06/2021 04h00Atualizada em 22/06/2021 15h28

Um projeto do deputado estadual afastado Fernando Cury (Cidadania-SP) tem causado desgaste e polêmica na Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo). Suspenso por seis meses após assediar a deputada Isa Penna (PSOL-SP) em sessão plenária, o nome de Cury causa constrangimento entre os colegas, que preferem tentar virar a página.

O PL (Projeto de Lei) nº 619, de 2018, não é polêmico: declara a pequena Laranjal Paulista, de 28 mil habitantes, a 160 km de São Paulo, a "capital dos brinquedos". Em uma reunião de líderes na semana passada, no entanto, ela se tornou o principal ponto de discussão por causa da sua autoria.

Por meio de nota enviada ao UOL após a publicação da matéria, Cury argumenta que Laranjal paulista é "considerada o terceiro maior polo de brinquedos do mundo" e que seu projeto "pode beneficiar ainda mais a cidade, trazendo visibilidade para a produção e gerando numerosas oportunidades e fomento à economia".

Segundos fontes ouvidas pelo UOL, apenas as lideranças do PSD e do Cidadania, partido de Cury, se disseram a favor da votação. O argumento é que o voto se daria não pelo autor da proposta, mas para beneficiar a cidade. No geral, a percepção é que qualquer menção ao deputado afastado só causa desgaste para a imagem da Casa.

O caso de assédio ocorreu em 16 de dezembro do ano passado durante uma sessão plenária da Alesp e foi denunciado pelo UOL. A denúncia por importunação sexual foi levada ao Conselho de Ética e Cury foi suspenso por 4 meses em março.

Em abril, após protestos de parte dos parlamentares, a Casa aumentou a suspensão para seis meses por unanimidade. Entre os parlamentares, a avaliação é de que o caso gerou uma repercussão muito ruim para a Assembleia, em especial pela primeira pena ter sido considerada "branda".

Na semana passada, a maioria das lideranças da Casa foi surpreendida quando notaram que, entre os candidatos à pauta para a semana, havia um projeto dele. A possibilidade causou desconforto de parlamentares do Novo ao PSOL, do PSDB ao PT.

A bancada do PSOL, partido de Penna, reclamou.

"O caso do Cury segue sendo um case de como a política tem impregnado em seus costumes uma violência de gênero velada, não importa se ele está suspenso, não importa se assediou, não importa se seu gabinete não está funcionando, nada importa se ele é homem", afirma Penna.

"Ser homem é totem. Votar uma emenda dele é natural para eles", completa a deputada.

"Banho-maria", acusa esquerda

Embora o desconforto seja geral, os motivos são diferentes. Alguns, como a bancada do PT, seguiram defendendo que Cury deveria, na verdade, ser cassado, e não ter projeto votado.

Outros, avaliam que a aprovação de qualquer projeto dele oneraria a imagem da Casa como um todo e outros argumentam de forma legalista: um deputado suspenso, independente do motivo, não pode ter projetos aprovados.

Douglas Garcia (PTB-SP) foi um dos líderes a questionar a inclusão do projeto pelas regras, mas diz que, se a Casa votar, não se postará contra.

"Se projetos dele [Cury] forem pautados, [Douglas] não irá obstruir, a não ser que afrontem os valores conservadores defendidos pelo deputado, o que não é o caso desse projeto que beneficia o município de Laranjal Paulista", afirmou a equipe do deputado ao UOL.

Entre os parlamentares de esquerda, a sensação é de que a maioria dos deputados prefere deixar Cury em banho-maria. Não se fala sobre ele, também não se aprova nenhum de seus projetos e, em outubro, eles avaliam como será sua volta ao dia a dia do parlamento.

Desde abril, ele foi substituído pelo padre Afonso Lobato (PV-SP), suplente. Cury está sem salário durante o período, e seu gabinete, sem verba. Foi a primeira vez que uma casa legislativa no país dá uma punição para um caso de assédio contra uma mulher.

Na votação, Penna teve o apoio de deputadas e deputados de espectros políticos diferentes, como Janaína Pascoal (PSL-SP), Analice Fernandes (PSDB-SP) e Valéria Bolsonaro (sem partido).

É pela cidade, diz colega

Roberto Morais (Cidadania-SP) foi um dos dois únicos a defender a permanência do projeto na pauta, para que ele fosse aprovado sem ressalvas. Seu ponto, ele diz, não é nem partidário nem por Cury, mas "pela cidade".

"É um projeto positivo para Laranjal, já conversei com o prefeito. Não é um projeto polêmico que iria criar qualquer discussão, está acontecendo por causa das circunstâncias. Mas seria bom para a cidade", diz Morais.

A inclusão ou não do projeto na ordem da semana deverá voltar a ser discutida na próxima segunda (21). A probabilidade é de que a Mesa Diretora, presidida por Carlão Pignatari (PSDB-SP), não leve para frente, em especial para preservar a imagem da Casa.

Maioria na Alesp, o PSDB, que já presidia a Casa na época do assédio com Cauê Macris, hoje secretário da Casa Civil do governador João Doria (PSDB), foi um dos articuladores para que Cury tivesse uma punição mais dura, mas não fosse cassado.

"Tenho na minha história política mais de 14 leis aprovadas e inúmeros projetos de leis a serem votados. Todos tratam de necessidades e vontades dos mais de 100 mil paulistas que acreditam no trabalho parlamentar que realizo", declarou Cury. "Cumpro meu afastamento, sem cargo e sem mandato, como determinado pelos meus pares."

"Tenho profundo respeito e admiração pela atuação jornalística, mas, infelizmente, cada vez mais vemos matérias subjetivas que apenas cumprem o papel de proporcionar likes, curtidas e compartilhamentos, jogando luz apenas para um dos lados, descumprindo o papel mais importante do jornalismo: que é a informação com isenção", concluiu o deputado afastado.

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