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Bolsonaro de cocar é pirotecnia e discurso sairá pela culatra, diz Bombig

Colaboração para o UOL, em São Paulo

18/03/2022 13h04Atualizada em 18/03/2022 13h30

O colunista do UOL Alberto Bombig criticou hoje, durante o UOL News, o uso de cocar pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) durante um evento em Brasília. Bolsonaro recebeu a medalha do Mérito Indigenista, que condecora brasileiros que deram alguma contribuição à causa indígena. Para o colunista, o discurso a favor dos indígenas do chefe do Executivo sairá pela culatra, pois se contrapõe à postura do governo com os povos.

Em seu discurso, o presidente disse que o governo está "comprometido" em fazer com que os indígenas se "sintam iguais". "Estamos comprometidos, cada vez mais, a nos transformarmos em iguais. Isso não tem preço. O que sempre quisemos foi fazer com que vocês se sentissem exatamente como nós", disse o mandatário ao discursar no evento. .

Primeiro, se sentir como 'nós'? E quando deixaram de ser como nós? Revela um atraso da visão que ele tem, ele não consegue esconder nem em uma fala protocolar a visão que ele e o governo dele têm dos povos indígenas. Isso reflete na forma que vem sendo tratado desde o início. Vai lá, faz uma pirotecnia eleitoral, coloca cocar. (...) Parece uma fantasia, que ele estava entrando em um baile de carnaval ali.
Alberto Bombig no UOL News

Para o colunista, a decisão de o presidente usar o cocar em todo o evento é desrespeitoso com os povos indígenas e apenas mostra a diferença entre a retórica dita hoje pelo governo durante o evento e o que acontece na prática. Ele ainda opinou que a atitude do mandatário é evidentemente eleitoral e faz parte da campanha dele à reeleição no pleito deste ano.

Na última semana, Bolsonaro chegou a declarar que os indígenas, "ao serem trazidos para o nosso meio", começam a ver as maravilhas da Medicina e outras coisas que acontecem no Brasil e quer se incorporar. "E tem se incorporado cada vez mais à nossa sociedade", disse.

Bombig ainda finalizou dizendo que o conteúdo promovido por Bolsonaro no evento de hoje deve ficar restrito às redes sociais do mandatário.

"Não durou muito a pirotecnia do Bolsonaro, não. Vai ser mais uma daquelas que o tiro sai pela culatra, vai rodar nas redes sociais dele, mas duvido que tenha alguma repercussão ou que ele consiga convencer alguém de que conseguirá mudar alguma coisa na forma que ele trata os povos indígenas do Brasil."

Posição do governo

Desde que tomou posse no Planalto, em janeiro de 2019, o presidente Jair Bolsonaro não reconheceu uma única terra indígena, mas defende constantemente a exploração dos territórios protegidos por lei.

Hoje condecorado, o chefe de Estado também já foi denunciado duas vezes pela Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) pela prática de "política anti-indígena".

Durante o evento, o presidente chegou a segurar uma criança no colo e a dançar com alguns indígenas que participaram do evento.

Ministro defende medalha ao presidente

Ao defender o ato, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Anderson Torres, afirmou que as críticas contra o presidente e a atual gestão sobre como lidam com os povos indígenas são injustificadas: "É extremamente leviano quem diz que há neste governo desmonte das ações para assegurar os direitos dos povos indígenas."

Criada em 1972, a homenagem concedida a Bolsonaro hoje é dada como "reconhecimento pelos serviços relevantes em caráter altruísticos, relacionados com o bem-estar, a proteção e a defesa das comunicações indígenas".

Já foram condecorados pela honraria o sociólogo Darcy Ribeiro, o primeiro deputado federal indígena Mário Juruna, e o cacique Raoni.

*Com Lucas Valença, do UOL, em Brasília, e do Estadão Conteúdo

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