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Delegado na chefia de segurança de presidenciáveis curte posts contra Lula

Erasmo Júnior e Marília Alencar, delegados da PF, em dia de protesto contra Dilma Rousseff, em 2016 - Reprodução/Facebook
Erasmo Júnior e Marília Alencar, delegados da PF, em dia de protesto contra Dilma Rousseff, em 2016 Imagem: Reprodução/Facebook

Amanda Rossi

Do UOL, em São Paulo

20/05/2022 04h00

O delegado José Erasmo de Oliveira Júnior, da Polícia Federal (PF), mantém um perfil no Instagram que curtiu posts críticos ao ex-presidente Lula (PT). Erasmo Júnior é Chefe da Divisão de Segurança de Dignitários, responsável por analisar os planos de proteção da PF aos candidatos à Presidência nas eleições de 2022 — Lula, que já anunciou pré-candidatura, deve estar entre eles.

Um dos últimos posts curtidos pelo perfil de Erasmo Júnior, de 20 de abril, diz que o Brasil "solta líder de quadrilha condenado em três instâncias pra se tornar candidato a presidente".

Tido por colegas da corporação como apoiador do presidente Jair Bolsonaro (PL), Erasmo Júnior foi nomeado para o posto em setembro do ano passado, no exato dia em que a Polícia Federal instituiu as diretrizes para proteção dos postulantes a presidente.

Já a mulher de Erasmo Júnior, a também delegada da PF Marília Alencar, chefia há um ano a diretoria de inteligência da Seopi (Secretaria de Operações Integradas) do Ministério da Justiça e Segurança Pública. O órgão ficou conhecido em 2020 por elaborar o chamado "dossiê antifascista", atualmente sob julgamento no STF (Supremo Tribunal Federal).

Em 2016, Marília postou no Facebook fotos do casal em dia de manifestação contra a então presidente Dilma Rousseff.

Procurado pelo UOL por telefone, o delegado Erasmo Júnior disse que não tem "nada a declarar". Já a PF afirmou que "o servidor em questão possui amplo currículo e experiência profissional que o credenciam para as funções atualmente exercidas no âmbito da Polícia Federal. Eventuais infrações de natureza administrativa poderão ser apuradas nos termos da legislação vigente". O PT não se manifestou.

O post que chama Lula de "líder de quadrilha" e critica sua candidatura, curtido pelo perfil de Erasmo Júnior, foi publicado por Adrilles Jorge, comentarista político denunciado pelo Ministério Público de São Paulo por fazer uma saudação nazista em fevereiro. Adrilles diz que era um gesto de despedida.

O texto abordava a condenação do deputado federal Daniel Silveira (PTB-RJ) pelo STF — posteriormente beneficiado por decreto de graça de Bolsonaro. A publicação diz ainda que o Supremo "se transformou numa junta ditatorial que criminalizou a liberdade de expressão".

O perfil do delegado Erasmo Júnior, que é aberto, também curtiu texto de Adrilles de 4 de dezembro sobre a participação de Lula no podcast Podpah:

"Lula falando de tesão e futebol pra podcast de jovens deslumbrados, que não se lembram de seus crimes e foram educados por professores que lhe ensinaram que ele seria um mártir injustamente condenado, é a prova da lavagem cerebral de toda uma geração pelo sistema de ensino".

Em 22 de novembro, Adrilles postou e o perfil do delegado Erasmo Júnior curtiu texto que cita uma "ditadura da opinião única promovida por intelectuais e jornalistas". "Por isso, ainda há gente capaz de votar no PT, o partido mais corrupto e corruptor da história. Lavagem cerebral".

Em 31 de outubro, outro post de Adrilles curtido pelo perfil de Erasmo Júnior: "Chamam Lula de honesto, caluniam a Lava Jato, mas só conservadores são calados por supostas mentiras".

Todas as curtidas citadas são, portanto, posteriores à nomeação de Erasmo Júnior para a área que vai atuar na segurança dos candidatos à Presidência. O delegado também curtiu posts relacionados ao 7 de Setembro do ano passado, quando foram organizados atos de apoio ao presidente Jair Bolsonaro.

Nomeado no dia de anúncio das regras de segurança

As diretrizes da Polícia Federal sobre a segurança dos candidatos à Presidência foram definidas em uma instrução normativa de 16 de setembro de 2021. As regras não valem para Bolsonaro que, por ser presidente, conta com um esquema de segurança próprio.

A proteção policial só começa a ser oferecida depois da homologação das candidaturas em convenção partidária — a partir de 20 de julho. Mas os preparativos já começaram.

Segundo o documento, a "proteção será realizada por equipe definida pela Coordenação de Proteção à Pessoa", braço da PF que tem duas unidades: o Serviço de Proteção ao Depoente Especial (testemunhas protegidas) e a Divisão de Segurança de Dignitários.

Esta última, chefiada por Erasmo Júnior desde o mesmo 16 de setembro, está mais diretamente ligada à segurança dos candidatos a presidente. Além disso, o delegado também foi nomeado, em 21 de outubro, como "substituto eventual" do Coordenador de Proteção à Pessoa.

"A escolha dos policiais federais [que farão a segurança] recairá, preferencialmente, naqueles que integram grupo de segurança de dignitários da Polícia Federal", diz o documento da PF.

Os nomes serão, em seguida, avaliados pelo setor de contrainteligência policial. O UOL questionou a PF se o próprio nome de Erasmo Júnior passou por essa avaliação, mas não recebeu resposta. O delegado fez carreira na Academia Nacional de Polícia.

Uma vez escolhida, a equipe responsável pela segurança de cada candidato deve elaborar um "Plano de Ação da Proteção Pessoal". Caberá a Erasmo Júnior se manifestar sobre o documento, que precisa conter um relatório de análise de risco e um planejamento operacional da segurança.

A elaboração do plano vai levar em consideração, por exemplo, relatórios sobre eventuais situações críticas e informações sobre a agenda de campanha — que deve ser informada para a PF com, no mínimo, 48 horas de antecedência.

A agenda é considerada um ponto sensível das campanhas presidenciais. Foi em uma agenda que Bolsonaro foi esfaqueado em 2018, em Juiz de Fora (MG).

Além disso, em março deste ano, em visita de Lula ao Paraná, só o PT e a Secretaria de Segurança Pública do Estado tinham acesso aos detalhes da agenda do ex-presidente. Ainda assim, segundo reportagem do The Intercept Brasil, as informações vazaram em grupos de WhatsApp bolsonaristas e foram usadas para organizar protestos contra Lula.

Direção de inteligência ligada a dossiê antifascista

O Coordenador de Proteção à Pessoa, que está acima de Erasmo Júnior no planejamento da segurança dos presidenciáveis, é Thiago Marcantonio Ferreira. Também delegado da PF, Ferreira foi antes diretor de inteligência da Seopi. Deixou o cargo justamente para dar lugar a Marília Alencar, a mulher de Erasmo Júnior.

No currículo da delegada divulgado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, não há menções a cargos anteriores ligados à inteligência da PF — embora a diretoria da Seopi seja um dos postos mais importantes da inteligência do país, responsável pela integração da inteligência nacional em temas de segurança pública.

A delegada teve uma forte militância em prol da PEC da Autonomia da PF. Em 13 de março de 2016, dia de protestos nacionais contra Dilma Rousseff, postou no Facebook fotos dela e de Erasmo Júnior na manifestação em Brasília, pedindo a aprovação da PEC — que segue em tramitação na Câmara dos Deputados.

Marília também postou naquele ano notícia com o título: "Dilma se diz 'inconformada' com ação da Lava-Jato contra Lula". E comentou: "Por isso precisamos de autonomia!". As imagens estavam públicas, mas foram removidas após tentativa de contato do UOL com a delegada, via e-mail da diretoria de inteligência — não houve retorno.

Em 1º de janeiro de 2019, dia da posse de Jair Bolsonaro, Marília Alencar também publicou no Instagram uma imagem da bandeira nacional e o texto "Vai Brasil!!!!", acompanhado de emojis de oração e mais bandeiras do país.

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