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Bolsonaro revela ameaça a médico para lhe prescrever remédio para covid

Presidente Jair Bolsonaro com caixa de cloroquina do lado de fora do Palácio da Alvorada - ADRIANO MACHADO
Presidente Jair Bolsonaro com caixa de cloroquina do lado de fora do Palácio da Alvorada Imagem: ADRIANO MACHADO

Colaboração para o UOL, em Maceió

28/06/2022 20h16Atualizada em 29/06/2022 07h07

O presidente Jair Bolsonaro (PL) disse hoje que ameaçou transferir um médico militar caso o profissional de saúde não lhe tivesse prescrito remédio sem eficácia comprovada para covid-19, na época em que ele apresentou sintomas da doença. A fala aconteceu durante entrevista ao canal Hipócritas, no YouTube.

O presidente não citou os nomes cloroquina ou ivermectina, medicamentos comprovadamente ineficazes contra a covid, mas defendido por ele em várias oportunidades.

Na entrevista, Bolsonaro disse que quando sentiu que estava com sintomas do coronavírus, chamou um médico do Exército para lhe atender, e o profissional lhe recomendou fazer teste de covid. No entanto, o mandatário contou que pediu o medicamento para fazer uso, sem especificar qual deles, ou, "democraticamente", iria transferir o médico "para a fronteira".

"Eu mesmo quando senti o problema, chamei o médico, falei: 'Acho que estou com sintomas'. Ele falou: 'Está com todos os sintomas, vamos fazer o teste'. Falei: 'Me traz aquele remédio'. [Ele disse:] 'não, não, não'. Eu falei: 'Traga o remédio porque o exame só vai sair o resultado amanhã e pode ser tarde demais. [O médico disse:] 'Ah, mas os protocolos nossos'... Falei: 'Traz o remédio ou te transfiro para a fronteira agora, democraticamente. Tomei, no outro dia estava bom", declarou o presidente aos risos.

Jair Bolsonaro afirmou que o profissional de saúde "perdeu a autonomia" durante a pandemia e que, dada aquela situação, em que "você pegou algo que ninguém sabe o que é, [o médico] tem que tentar uma alternativa em comum acordo contigo, [mas] acabaram a autonomia do médico no Brasil".

Segundo o mandatário, ele foi contra um protocolo sanitário instituído pelo então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, que recomendava a ida ao hospital em caso de sintomas da doença.

"Eu falei: Mandetta procurar hospital para quê? Qual é o remédio que ele vai tomar. Vai ser intubado? Isso não é remédio. Cartão vermelho para ele", falou.

Nesse momento, Bolsonaro explicou que passou a "estudar alternativas" para tratar a covid, e foi quando percebeu que os moradores da África Subsaariana, mesmo tendo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) menor que o do Brasil, eles, "por coincidência eram para morrer, porque são pessoas mais fracas, frágeis, mas não morriam". Segundo o presidente, a explicação para isso estava no "remedinho que o pessoal lá toma para combater a malária".

Bolsonaro também falou orgulhoso sobre se recusar a usar máscara de proteção no Brasil, pois queria servir de exemplo de "que temos que lutar contra o vírus, porque [todo mundo] vai pegar, quem não pegou vai pegar, e quem não pegou pode está achando que não pegou, mas como é assintomático, não percebeu".

Embora o mandatário tenha exaltado o não uso da máscara em solo brasileiro em contraponto a todas as recomendações de saúde naquele momento, ele fez uso do equipamento de segurança em viagens internacionais.

Bolsonaro defendeu uso de remédios sem eficácia comprovada

Durante a gestão do governo federal na crise sanitária imposta pela covid-19, o presidente Jair Bolsonaro, em inúmeras ocasiões, defendeu o uso de remédio sem eficácia comprovada para combater a doença, notadamente a cloroquina, a hidroxicloroquina e a ivermectina. A insistência do mandatário nesse ponto, inclusive, rendeu pedidos de impeachment por crime de responsabilidade contra a saúde pública, além de uma notícia-crime por charlatanismo.

No entanto, diversos estudos já publicados em revistas científicas atestaram que o chamado "kit covid" não possui qualquer eficácia no combate ao vírus e, pelo contrário, provoca efeitos colaterais graves no paciente.

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