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Carlos Madeiro

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Favela ao lado de ato com Bolsonaro é escondida por tapumes em Maceió; veja

Carlos Madeiro

Formado em jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas e com especialização em gestão de conteúdo em jornalismo pela Universidade Mackenzie, Carlos Madeiro atua há 20 anos e escreve para o UOL desde 2009, participando de grandes coberturas e fazendo reportagens e análises sobre o Nordeste e o Norte do Brasil.

Colunista do UOL

28/06/2022 18h38Atualizada em 29/06/2022 06h29

Barracos que servem para moradia e para pesca, além de bancos de madeira usados para tratar o sururu (molusco típico pescado em Alagoas), foram "escondidos" atrás de placas de alumínio e tapumes para a visita do presidente Jair Bolsonaro (PL) hoje a Maceió.

Segundo apurou a coluna, o local onde houve o ato oficial foi montado durante o fim de semana e segunda-feira e, entre as medidas, um extenso barramento foi erguido, delimitando a área para visitantes e para um estacionamento.

Por conta disso, as pessoas que foram ao evento ou transitaram pela via não viram a favela no bairro do Vergel do Lago, periferia da capital alagoana.

A coluna recebeu fotos e vídeos de pessoas que foram ao local e mostram como a parte por trás das divisórias montadas estão cheias de lama e sujeira.

Após a publicação da matéria, a prefeitura de Maceió afirmou que a instalação das divisórias foi solicitada pela segurança da Presidência da República para a entrega da primeira parte da obra.

Segundo moradores ouvidos pela coluna, o local foi "aprontado" para a visita de Bolsonaro, passando por limpeza em algumas áreas. "Estão escondendo a imundice onde estão os trabalhadores do sururu. Todos ficaram revoltados", disse uma moradora, que não quis ser identificada e ainda não recebeu o seu apartamento no conjunto —que foi inaugurado parcialmente (saiba mais abaixo).

Segundo ela, na área há poucos moradores, já que a maioria foi removida por conta da construção dos prédios e passaram a receber o aluguel social.

Ainda de acordo com a prefeitura, o município "tem dado uma cara nova ao Vergel do Lago com as ações do 'Eu Amo a Lagoa' e 'Favela 3D'". "Com isso, não faria a utilização de qualquer ferramenta que fosse para esconder a região", completa.

O presidente chegou ao local pouco antes das 11h, após realizar uma motociata que cruzou toda extensão da cidade, do aeroporto Zumbi dos Palmares até o local onde foi montado o palco para ele e outras autoridades.

Lixo e barracos ficaram ao lado da estrutura montada pelo governo para o ato com Bolsonaro - Reprodução/Vídeo - Reprodução/Vídeo
Lixo e barracos ficaram ao lado da estrutura montada pelo governo para o ato com Bolsonaro
Imagem: Reprodução/Vídeo

Obra vai encerrar maior favela

Os apartamentos entregues fazem parte de um grande projeto da Prefeitura de Maceió, com financiamento federal: o Residencial Parque da Lagoa.

Quando for concluída, a obra terá um total de 1.776 apartamentos, que serão dados a moradores da orla lagunar —onde está montado o maior conjunto de favelas da cidade. A ideia é revitalizar as margens da lagoa Mundaú, um dos cartões-postais da capital alagoana.

Segundo o governo federal, desde 2019 foram investidos na obra R$ 65 milhões, dos R$ 142 milhões previstos para a construção de 88 edifícios.

Durante a visita do presidente Jair Bolsonaro, foram entregues 160 apartamentos. Cada um tem 45 metros quadrados, com sala, banheiro, área de serviço e dois quartos.

Primeiros prédios do Residencial Parque da Lagoa foram entregues aos moradores - Itawi Albuquerque/Prefeitura de Maceió - Itawi Albuquerque/Prefeitura de Maceió
Primeiros prédios do Residencial Parque da Lagoa foram entregues aos moradores
Imagem: Itawi Albuquerque/Prefeitura de Maceió

Além dos imóveis, o projeto também já inaugurou uma rua aberta com equipamentos para o lazer da comunidade, com brinquedos, quadras e ciclovia.

O presidente também inaugurou hoje 960 apartamentos em outros dois residenciais em outros bairros de Maceió.

Paternidade "disputada"

A disputa pela paternidade da obra, por sinal, gerou um grande atrito entre o atual prefeito de Maceió, João Henrique Caldas, o JHC (PSB); e o ex-prefeito Rui Palmeira (PSD).

No Instagram, ontem, JHC respondeu a um internauta, chamou o Rui de "vigarista de marca maior" e afirmou que ele "mentiu e nada fez por aquele povo".

No mesmo dia, JHC também usou seu Twitter para alfinetar o ex-prefeito e dizer que a obra foi feita "em tempo recorde".

Rui não deixou barato. No Twitter, fez postagens dizendo que o prefeito estava "descontrolado", porque sabia que "100% das obras habitacionais que estão acontecendo em Maceió são fruto do trabalho e planejamento de nossa gestão".

"Ele pode até fingir que não se lembra ou que isso não diz respeito a ele, mas o povo não esquece", afirmou.

Ontem, durante seu discurso oficial no evento com Bolsonaro, JHC voltou a atacar Rui e o chamou de "covarde, inerte e incompetente". "Covarde é uma coisa que nunca serei", afirmou, citando que, durante a gestão passada, Rui teria ido ao local "apenas ver maquetes".

Rui ainda fez uma tréplica, resgatando um vídeo de outubro de 2020 em que aparece no local com obras ao fundo e citando que as obras começaram três anos antes.