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Vi famílias morrerem de ebola, mas quero voltar, diz médico brasileiro

O médico intensivista Mauricio Ferri e a infectologista Catherine Houlihan em Kenema, Serra Leoa, durante missão da OMS para cuidar de doentes de ebola - T. Jasarevic/OMS
O médico intensivista Mauricio Ferri e a infectologista Catherine Houlihan em Kenema, Serra Leoa, durante missão da OMS para cuidar de doentes de ebola Imagem: T. Jasarevic/OMS

Camila Neumam

Do UOL, em São Paulo

07/08/2014 17h30

Nas duas semanas de julho em que ficou em Kenema, Serra Leoa, o médico brasileiro Mauricio Ferri, 39, viu crianças, mulheres grávidas, famílias e quase todos os profissionais de saúde ao seu redor morrerem por causa do ebola. Mesmo assim pensa em voltar à região em meados de setembro.

Serra Leoa, Libéria e Guiné vivem surto de ebola considerado o mais devastador de todos os tempos. De fevereiro a agosto, a doença matou quase mil pessoas nos três países e na Nigéria, aonde o vírus chegou mais recentemente, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde).

O médico intensivista, acostumado a trabalhar em UTI (Unidade de Terapia Intensiva), trabalhou em um centro de tratamento de doentes com ebola da OMS instalado no Kenema Government Hospital, o único hospital da cidade, com estrutura precária.

“Bastante criança morreu, algumas bem pequenininhas, em casos nos quais a família toda morreu, mas vi todos os tipos de pessoas, jovens fortes, adultos, velhos. Em poucos dias começavam a definhar, paravam de comer, não se levantavam mais e nem abriam os olhos”, afirma.

Ao chegar à unidade de saúde de Kenema, Ferri se deparou com uma situação catastrófica. O principal médico do hospital, o virologista Sheik Umar Khan, e boa parte das enfermeiras já estavam doentes, morrendo dias depois. Coube a ele e mais dois médicos ingleses fazerem todos os cuidados dos 50 pacientes atendidos por dia, em média, durante seis horas, divididas em dois turnos.

“A gente fazia de tudo", diz. "Preparava a medicação, o soro, a comida, ‘pegava a veia’, colhia exame, dava água, tentava conversar. Quando saia da enfermaria, tomava uns quatro litros de água de uma vez”.

O tratamento dos pacientes é basicamente de suporte, já que não há remédio que cure a doença (pesquisadores americanos estão fazendo testes com vacinas e um soro em dois pacientes infectados, mas ainda não há resultado). São oferecidos soro fisiológico para evitar a desidratação, remédios para dor e para aplacar a diarreia. Muitos dos doentes chegavam já doentes de malária ou de outro tipo de febre hemorrágica, agravando seus quadros.

Além da falta de estrutura, Ferri conta que enfrentou problemas de comunicação pela língua e pela própria roupa usada para evitar o contágio no contato com os pacientes. Ele precisava falar com os doentes usando um roupão plástico com capuz, revestido por um grande avental também plástico, luvas e um visor, em temperaturas acima dos 30º C.

“Nossa comunicação era bem difícil porque, embora a língua do país seja o Inglês, a maioria dos doentes falava dialetos. Antes poderíamos contar com enfermeiros para ajudar na tradução, mas sem eles, pedíamos para algum doente que ainda conseguia falar. Senão, nos comunicávamos por gestos”.

Como o vírus do ebola é transmitido pelo contato do tecido humano com sangue e fluído corporal como urina, fezes e suor, nenhuma parte do corpo pode ficar exposta ao contato com pacientes.

Revolta popular x sobreviventes

A morte dos profissionais de saúde do hospital causou revolta em parte da população da cidade, muito pobre e de cultura tribal, que ainda tinha pouca informação sobre a doença na ocasião. Certo dia, um grupo fez um piquete em frente ao hospital e ameaçou entrar. A polícia foi chamada e a equipe de Ferri precisou sair e voltar somente no dia seguinte.

A situação não trouxe temor ao médico, que disse ter se sentido seguro em todos os momentos em que esteve em Kenema. O foco era “trazer mais gente para ser tratada”, diz.

A dedicação dos médicos fez diferença em números. Segundo Ferri, pelo menos metade dos doentes que estava sendo tratada na unidade da OMS conseguiu sobreviver, o que era comemorado pelos profissionais e pelos próprios pacientes.

“Metade dos doentes está sobrevivendo, o que é muito bom. Ficávamos felizes a cada doente que saía bem. Embora a equipe fosse bem restrita, ela mantinha a força e a vontade de fazer”, diz.

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Atualmente, o médico Mauricio Ferri está em Genebra (Suíça), onde continua reportando os casos de ebola. A OMS determina que os profissionais fiquem até três semanas em missão, para evitar maiores desgastes.

Antes de voltar a Serra Leoa, o médico vem visitar a família no Brasil, que ficou preocupada ao ser informada de sua viagem.

“Tenho intenção de voltar [Serra Leoa], mas minha filha está no Brasil e não a vejo desde fevereiro. Minha esposa e minha mãe ficaram preocupadas. Precisei tranquilizá-los porque o perigo era controlado. Só dependia da minha habilidade de conduzir, mas eu estou acostumado com ambientes de alto risco”, afirma.

De sua primeira temporada na África, Ferri diz que vai levar consigo muitas lições, principalmente as aprendidas com os pacientes e sobreviventes.

“Impactou-me muito os que levantaram, sobreviveram. Um pastor que sobreviveu e a família toda morreu ficava lá dentro da enfermaria confortando as pessoas. Quando ele recebeu alta, pediu para ficar um dia mais. Mulheres [que se sentiam] um pouco melhores ajudando a dar comida, água; crianças cujos pais morreram sendo cuidadas por outros; uma criança empurrando um pneu no meio daquilo tudo. Vi como a vida continua”.

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