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3 anos após descoberta de microcefalia gerada por zika, Brasil avança pouco

Mãe com criança nascida com microcefalia decorrente de infecção por zika - Katie Orlinsky/The New York Times
Mãe com criança nascida com microcefalia decorrente de infecção por zika Imagem: Katie Orlinsky/The New York Times

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

17/11/2018 04h00

Na tarde de 17 de novembro de 2015, o Ministério da Saúde anunciava que, pela primeira vez, o vírus de zika havia sido confirmadamente relacionado aos casos de microcefalia que àquela altura assustavam o país --especialmente o Nordeste.

De lá para cá, o número de casos diminuiu, mas as dúvidas sobre os problemas relacionados ao vírus e as crianças que o contraíram só cresceram. Muitas perguntas continuam sem resposta após esses três anos.

Atualmente, sabe-se que a microcefalia é só um dos problemas da chamada Síndrome Congênita do Zika, que afeta a parte neurológica de bebês com mães infectadas.

Segundo o Ministério da Saúde, desde o início das investigações, em outubro de 2015, até 6 de outubro deste ano, foram confirmados 3.267 casos de alterações no crescimento e desenvolvimento, possivelmente relacionadas à infecção pelo vírus da zika e outras etiologias infecciosas. Desse total, houve 345 mortes confirmadas, entre fetais, neonatais e infantis.

A descoberta da relação entre zika e microcefalia foi feita pela médica Adriana Melo, de Campina Grande (PB), ao colher líquido amniótico de mães gestantes de filhos já diagnosticados com microcefalia. O resultado foi a presença de zika no material.

"Quando a gente via as imagens no feto, esperava até mais danos. Nos primeiros casos a gente achou que iam ser crianças que ficariam paradas na cama. A expectativa era muito baixa. Mas algumas nos surpreenderam. Claro, há os casos mais leves ou graves, mas o resultado foi melhor na maioria dos pacientes", afirmou a médica.

Catarina de mala pronta para ir para a escola - Arquivo pessoal
Catarina de mala pronta para ir para a escola
Imagem: Arquivo pessoal

O caso número um da doença, da menina Catarina, foi contado pelo UOL em agosto. Ela tem desenvolvimento acima do esperado, consegue caminhar e começou a frequentar a escola no meio deste ano.

Para a precursora da descoberta, passados todos esses anos, o grande desafio na área de reabilitação está no desenvolvimento de terapias.

"A microcefalia foi a ponta do iceberg. Estamos escrevendo a história natural da doença. Como é a vida dessas crianças com um, dois, três anos? Que terapias podemos fazer para melhorar a qualidade de vida delas? Isso é muito importante, assim como saber como essas crianças adoecem e como podemos evitar. O grande desafio é a parte neurológica", explica Melo.

Como detectar a doença?

Pesquisadores buscam respostas para as perguntas que atormentam quem estuda a síndrome e quem convive com as suas consequências.

Segundo a médica de neonatologia e coordenadora de pesquisa do Instituto Nacional Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), doutora Maria Elisabeth Lopes, há ainda muitas questões que desafiam a ciência.

Um bebê nascido com microcefalia em um centro de reabilitação em Recife - Adriana Zehbrauskas / The New York Times
Um bebê nascido com microcefalia em um centro de reabilitação em Recife
Imagem: Adriana Zehbrauskas / The New York Times

"Para citar um exemplo, de 50% a 60% das pessoas que têm zika são assintomáticas e não temos ainda um bom teste sorológico para detectar o vírus. Existe o exame de PCR, que analisa partículas virais ativas. Mas, se você não tem sintomas, não há exames capazes de detectar o anticorpo após a infecção", aponta.

"É necessário haver um teste sorológico com mais sensibilidade, porque o que temos hoje dá muita reação cruzada com dengue", completa.

Além disso, a médica afirma que pouco se sabe sobre os problemas causados quando bebês são infectados com o vírus. "Isso está pouco esclarecido. Não sabemos ainda o que ocorre com as crianças no primeiro ano de vida ao adquirirem zika."

Outra dúvida é regional: "Por que no Nordeste houve muito mais casos? Provavelmente temos algum cofator, mas não sabemos o que aumenta o risco", diz, citando que questões relacionadas à falta de saneamento básico e desnutrição contribuem para agravar qualquer infecção.

O infectologista Artur Timerman, presidente da Sociedade Brasileira de Dengue e Arboviroses, afirma que a redução da velocidade nas respostas se deu por conta dos cortes de recursos. "Claro que isso está prejudicando a elucidação das dúvidas", diz.

Timerman também concorda que a falta de testes mais precisos é algo importante: "Temos grandes deficiências".

"Uma grande discussão que se tem, e precisa de pesquisa, é que sabemos que quem teve dengue uma vez e entra em contato uma segunda vez tem uma chance maior de ter a forma mais grave. Como os vírus da dengue e da zika são semelhantes estruturalmente, existe uma especulação de que esse anticorpo contra a dengue em uma mãe que venha a se infectar com zika causaria mais chance de transmitir esse vírus ao seu filho e gerar uma criança com má-formação", descreve o médico.

O infectologista ainda relata que faltam mais pesquisas para o momento depois da aquisição da doença. "Como está se comportando o vírus agora? Qual o percentual das pessoas da região Sudeste que já foram expostas ao vírus e qual o percentual sujeito a ter infecção?", questiona.

Mosquito Aedes aegypti é transmissor de zika, dengue e chikungunya - Oscar Rivera/EFE
Mosquito Aedes aegypti é transmissor de zika, dengue e chikungunya
Imagem: Oscar Rivera/EFE

Um vilão antigo

Outro ponto é que o país não avançou no combate ao mosquito Aedes aegypti. "Ninguém discute saneamento básico, impermeabilização das cidades, menos áreas verdes, tudo o que se correlaciona com o mosquito. É isso que está por trás desse problema", diz Timerman.

Ele afirma que deve haver uma possível relação da zika com a dengue. "Hoje, se sabe que a zika tem essa correlação de má-formação do feto, mas há estudos mais recentes que apontam que as infecções da dengue na gravidez também se associam a isso. Na chikungunya também. Ou seja, a gente não consegue dimensionar a real magnitude do problema", diz.

Para a pesquisadora do IFF, porém, o tempo é um limitador. "A ciência não é tão rápida às vezes. A epidemia acabou, mas sabemos que temos 30 anos de dengue no país e ainda não conseguimos debelar o mosquito. O investimento em pesquisa tem de ser constante."

O que diz o Ministério da Saúde

De acordo com o Ministério da Saúde, desde novembro de 2015, foram destinados "cerca de R$ 465 milhões para pesquisas e desenvolvimento de vacinas e novas tecnologias que envolvem o zika e a Síndrome Congênita do Zika".

O órgão diz que "outra frente de atuação contínua é na rede de assistência, organizada pelos estados e municípios". "Para ampliar a atenção a essa população, a pasta repassou R$ 27 milhões e o governo federal concedeu 2.200 benefícios de prestação continuada, que garantem uma renda mensal para a família da criança", prossegue a nota.

"É preciso entender que o SUS constitucionalmente é tripartite, ou seja, com gestão compartilhada entre os entes federativos: municípios, estados e governo federal. Os recursos federais são repassados para os estados e municípios, responsáveis pela gestão da assistência", explicou.

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