PUBLICIDADE
Topo

Coronavírus: nove respostas que a ciência ainda não tem sobre a covid-19

Lucas Borges Teixeira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

31/03/2020 04h00Atualizada em 01/04/2020 17h43

Resumo da notícia

  • O coronavírus SARS-CoV-2 é um vírus novo para a ciência. Pesquisadores do mundo todo estão estudando para entendê-lo melhor
  • O UOL ouviu especialistas em saúde para destacar o que a ciência ainda precisa descobrir em relação ao novo coronavírus
  • São diversas dúvidas sobre a origem do vírus, como ele se comporta sob altas temperaturas, se há transmissão por sexo, qual é a cura etc.

Identificado no dia 31 de dezembro de 2019, o coronavírus SARS-CoV-2 é um vírus novo para a ciência. Desde janeiro, médicos, biólogos e pesquisadores do mundo todo estão estudando para entender melhor como funciona sua transmissão e criar uma vacina.

A cura, no entanto, é só uma das diversas dúvidas que os estudiosos ainda têm sobre o vírus. De onde veio? Como ele se comporta sob altas temperaturas? É transmitido pelo sexo?

O UOL ouviu especialistas em saúde para destacar o que a ciência ainda precisa descobrir em relação ao novo coronavírus:

1) De onde veio o novo coronavírus? Qual é seu transmissor?

Sabe-se que o paciente zero do vírus surgiu na província de Wuhan, na China. Não se sabe, no entanto, como ele o contraiu.

"Ainda não temos ideia do possível transmissor. Por comparações genéticas, sabemos que o SARS-CoV-2 é bem similar a sequências de coronavírus de morcego. Mas a transmissão de coronavírus de morcegos para humanos não só nunca foi documentada como é bem improvável", afirma o virologista Rômulo Neris, pesquisador visitante da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos.

"Em outros cenários, como [os das doenças] MERS e SARS, houve um intermediário entre morcegos e humanos, no qual o vírus se adaptou e se tornou patogênico para nós — para esses dois [vírus], temos dromedários e civetas transmitindo. Para o novo coronavírus, já pensamos em porcos, cobras e pangolins, mas até agora nenhuma evidência que suporte esses animais como reservatórios do vírus foi encontrada", acrescenta.

2) É transmitido pelo sexo ou por fluidos corporais, como esperma e secreção vaginal?

Também não há evidência de que secreções penianas, vaginais ou anais transmitam o novo coronavírus.

"O que se sabe é que o vírus está presente não apenas em secreções respiratórias, mas também no sangue e nas fezes. Por outro lado, o fato de estar presente nas fezes não implica que houve transmissão fecal oral, seja por contato sexual, seja por uma higiene inadequada. Isso ainda não está estabelecido, mas são essas as secreções onde o vírus foi adequadamente isolado", opina o infectologista Mateus Westin, professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

3) Uma pessoa pode ser infectada duas vezes?

Sim, há registros de casos na China em que pessoas que já haviam contraído o vírus foram infectadas novamente, mas ainda não há material o bastante para afirmar que uma possível reinfecção seja universal.

"O vírus foi detectado novamente em alguns indivíduos que já tinham sido considerados curados até 30 dias depois da alta. Entretanto, ainda não se sabe se foi uma nova exposição ao vírus ou se ele havia se tornado subdetectável [não detectado no teste] e voltou a ser ativo e capaz de replicar. Em geral, uma parte dos indivíduos infectados tem níveis altos de anticorpos durante e depois da infecção e, em uma janela curta de tempo, provavelmente é resistente a uma nova infecção", pontua o virologista Neris.

4) Em caso de uma segunda infecção, ela é mais agressiva?

Como ainda não há certeza de que as pessoas sejam reinfectadas, também não se pode estimar se, a exemplo da dengue, uma segunda infecção venha a ser mais violenta.

"No caso da reinfecção, que é muito mais exceção do que regra, não se tem evidências de que será um caso pior. O que acontece com alguns quadros infecciosos reincidentes é que, como o nosso sistema de imunidade já teve contato prévio com aquele vírus ou com um muito semelhante — como dengues do tipo 1 ao 4 —, hipoteticamente, podemos ter uma resposta imune muito acentuada e, em vez de combater com um tiro de revólver, vamos dar um de canhão. Isso produz uma resposta inflamatória mais intensa no nosso organismo, e são maiores as chances de evoluir com sintomas de mais gravidade. Mas não está estabelecido", afirma o infectologista Westin.

5) Posso "levar" o vírus para casa ao pisar em local infectado? É possível transportar o vírus pelo sapato?

Muitas pessoas têm tirado os sapatos antes de entrar em casa, para "deixar o vírus na rua". Essa medida é eficiente, mas por um motivo diferente do imaginado: o local de contaminação mais provável é a superfície do sapato, e não a sola. Ainda não há provas se, ao tocar locais infectados, os sapatos possam "carregar" o vírus.

"É bem improvável que as solas dos sapatos sejam expostas ao vírus. Por outro lado, é provável que o vírus se acumule na superfície dos sapatos e seja transportado [para casa], em caso de exposição da pessoa a gotículas [infectadas]. Por isso, é importante higienizar as mãos ao chegar a casa, remover calçados e roupas utilizados durante o dia e não tocar o rosto durante esse processo", afirma Neris.

"É possível [que as solas se contaminem], mas vai depender de qual é a superfície, da temperatura, da umidade, da luminosidade e do inóculo infeccioso que está presente ali. Mas, em tese, é possível", observa Westin.

6) O vírus é menos transmissível sob temperaturas mais altas? Em qual temperatura ele é eliminado?

Não se sabe exatamente como o novo coronavírus funciona sob diferentes temperaturas. Não há, no entanto, temperatura ambiente capaz de destruí-lo, e já é possível constatar que ele se adaptou bem ao clima brasileiro.

"A variação de temperatura entre estações não é suficiente para destruir o vírus. Degradá-lo por calor demanda temperaturas bem elevadas, a partir dos 50°C, mas beirando os 90°C para a destruição completa", diz Neris.

"Não dá para responder a partir de que temperatura ocorre a inativação do vírus no meio ambiente. É claro que temperaturas absolutamente altas no processo de esterilização são passíveis de eliminação não só desse vírus, como da maioria, mas, do ponto de vista de sobrevida ambiental, sabe-se que a tendência é que ele se comporte melhor em temperaturas mais baixas. Estamos vendo que, nesse fim de verão, ele foi bem adaptado e efetivou sua transmissão não só aqui, como em outros países tropicais", pondera Westin.

7) Quanto tempo o coronavírus dura em superfícies?

Há diversas estimativas de quanto tempo o vírus dura em superfícies. Como já dito, tudo vai depender do ambiente e do tipo da superfície. O contato direto, por sua vez, é considerado a principal forma de contágio.

"Um estudo recente descreveu que a meia-vida do vírus em diferentes superfícies varia de duas a sete horas. Entretanto, vírus ainda podem ser detectados por até 72 horas em pequenas quantidades. Em ordem de persistência, temos cobre (até 4 horas), papelão (até 24 horas), aço inoxidável (até 48 horas) e plástico (até 72 horas)", afirma o virologista Neris. Meia-vida é o tempo que leva para ser destruída metade dos vírus em contato com uma superfície.

8) Como o vírus reage em jovens?

Pessoas com menos de 60 anos representam cerca de 10% das mortes pelo novo coronavírus no Brasil. No entanto, esse público abrange quase 50% dos casos graves (segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde na semana passada) — parte desses pacientes mais jovens é saudável e sem problemas crônicos. Por que isso acontece? Essa é uma das dúvidas dos pesquisadores.

"Hipoteticamente, temos dois pacientes saudáveis de 33 anos que pegam o vírus. Um deles desenvolve quadro grave, é entubado, respira por ventilação mecânica e, talvez, fique com sequelas permanentes. O outro passa pela doença sem mais reações. Por quê? Ainda não sabemos, é impossível prever. Pacientes com condições pré-estabelecidas estão mais vulneráveis, é claro. Mas e quem não tem [um histórico de doenças]? Alguns morrem. É preciso entender melhor como o vírus funciona", afirma a infectologista Naihma Fontana, plantonista de um hospital que está recebendo pacientes suspeitos na região de Sorocaba.

Um exemplo foi o caso do advogado Mauricio Kazuhiro Suzuki, de 26 anos. Vítima fatal de coronavírus na cidade de São Paulo, o jovem tinha como hobby correr, participava de maratonas e fazia academia diariamente.

9) Qual a cura para covid-19?

Eis a pergunta! Apesar de, pelo mundo, existirem estudos que indicam boas respostas ao tratamento do novo coronavírus, como o uso de cloroquina, recentemente endossado pelo governo brasileiro, não há nenhuma cura para a doença.

"Não podemos falar em cura de maneira nenhuma. Até então, temos dados de estudos pequenos [sobre cloroquina]. Promissores, de fato, mas a eficácia real é uma coisa que ainda deverá ser estudada a fundo", diz o infectologista Evaldo Stanislau, do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que informou a primeira versão deste texto, estudos apontam que o coronavírus pode durar até quatro horas em superfícies de cobre, e não até 72 horas --estimativa que vale para o plástico. A informação foi corrigida.

Coronavírus