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Estudos põem respiradores em xeque no combate à covid-19

Respirador - iStock
Respirador Imagem: iStock

Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São Paulo

19/04/2020 04h01

Resumo da notícia

  • Respiradores mecânicos são um dos últimos recursos a pacientes com Covid-19 com grave insuficiência respiratória
  • Primeiro estudos sobre a eficácia desses equipamentos em doentes por covid-19 indicam que mortalidade é alta
  • Apesar disso, especialistas afirmam que equipamento é fundamental e principal alternativa para esses casos

Os respiradores mecânicos são um dos últimos recursos para pacientes com insuficiência respiratória grave após infecção pelo novo coronavírus. Pesquisas preliminares na Inglaterra, na China e nos Estados Unidos, no entanto, indicam taxas de letalidade elevadas entre pacientes intubados e mostram que ainda há mais dúvidas do que respostas no combate à doença.

Os respiradores são equipamentos que ajudam os pulmões a inspirar e expirar quando o doente já não consegue fazer esse movimento sozinho. A máquina utiliza uma reserva de ar e oxigênio que é levada até os pulmões do paciente por meio de um tubo inserido pela boca, nariz ou pela traqueia, através de um corte na garganta.

Em 2002, uma pesquisa publicada na JAMA (Journal of the American Medical Association) avaliou a eficácia dos respiradores mecânicos. A taxa de letalidade para os 5.183 pacientes de 20 países que precisaram utilizar ventilação ficou em 30,7%, percentual que saltou para 54% quando se tratou de pacientes com alguma síndrome respiratória grave.

Após quatro meses de surto do novo coronavírus, as primeiras pesquisas avaliando o desempenho dos respiradores sobre pessoas com covid-19 indicam que a letalidade é mais alta para esses pacientes. Mas como a doença é recente e os achados iniciais abrangem grupos pequenos de pacientes, os resultados das pesquisas levantam questões que ainda precisarão ser respondidas:

  • Será que a análise de grupos maiores confirmará que morrem mais doentes da covid-19 usando respirador do que pacientes com outras doenças que também utilizam ventiladores mecânicos?
  • Como os pacientes intubados são os mais graves, a letalidade teria sido menor --ou ainda maior-- sem a utilização do respirador artificial?

Os estudos não descartam o uso dos ventiladores, muito pelo contrário. (leia mais no fim desse texto).

Letalidade alta mesmo com respirador

Um estudo financiado pelo governo da China analisou um pequeno grupo de doentes que precisou de ventilação mecânica na cidade de Wuhan, onde o vírus surgiu. Dos 22 pacientes intubados, 19 morreram, taxa de 86%.

"Embora a maioria dos médicos acredite que a decisão de intubação em alguns pacientes com covid-19 tenha sido tardia, nós não sabemos até agora se a intubação precoce poderia salvar aquelas vidas", escreveram os 13 pesquisadores, todos de universidades americanas e chinesas.

No estado de Washington, nos Estados Unidos, outra pesquisa avaliou 18 pacientes respirando artificialmente. Até a conclusão do estudo, 12 haviam morrido. "Uma porcentagem maior de mortes ocorreu entre pacientes acima de 65 anos (62%)", diz o estudo publicado no New England Journal of Medicine.

Mas o índice elevado de mortes mesmo com o recurso chama a atenção dos pesquisadores.

"A mortalidade entre esses pacientes críticos foi alta", escreveram os pesquisadores de Washington.

Em Nova York, o governador Andrew Cuomo afirmou que 80% dos pacientes infectados com o novo coronavirus que precisaram de respiradores no estado morreram. "São pessoas que usaram ventiladores por um bom período de tempo", disse Cuomo em coletiva de imprensa no começo do mês.

No Reino Unido, um estudo publicado pelo ICNARC (Centro Nacional de Pesquisa e Auditoria em Terapia Intensiva, em tradução livre) indicou que a taxa de mortalidade chegou a 66,3% entre os pacientes com covid-19 que precisaram de ventilação artificial.

Dos 98 pacientes na Inglaterra, País de Gales e Irlanda do Norte que utilizaram o equipamento, 33 sobreviveram.

"Essa taxa de mortalidade é quase o dobro em relação aos pacientes que precisaram de suporte respiratório por outras razões entre 2017 e 2019, antes da aparição do novo coronavírus", diz a pesquisa.

Nos Estados Unidos, o chefe da American Lung Association (Associação Americana de Pulmão, em tradução livre), Albert Rizzo, declarou que a taxa de mortalidade para quem depende do respirador é "maior do que o normal" em muitas regiões do país. Ainda assim, afirmou que "qualquer alternativa que possa fornecer ajuda respiratória é útil" neste momento.

Respiradores são indispensáveis

Essa também é a opinião da médica Milena Gerez, que trabalha no Hospital do Coração de Brasília. "Por enquanto, a ventilação mecânica é a opção recomendada para a insuficiência respiratória. Pode ser que isso mude caso se descubra outras formas de lidar com essa nova patologia."

Embora a maioria dos infectados pelo novo coronavírus tenha sintomas leves, cerca de 5% deles precisam de internação em UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Os grupos de risco são idosos, doentes cardíacos, diabéticos, hipertensos e pessoas com doenças respiratórias crônicas.

A médica explica que o paciente é sedado e recebe analgésico para que não sinta dores durante a intubação. "Quando a gente percebe que o doente melhorou, vamos tirando a sedação e a analgesia até que ele responda sozinho e seja possível retirar a ventilação mecânica."

"O ventilador tem salvado vidas, mas infelizmente mais de 50% dos que fazem uso dele estão vindo a óbito", lamenta Jurandir Nadal, responsável por desenvolver uma versão mais barata dos ventiladores mecânicos para a rede pública de saúde.

Professor de Engenharia Biomédica da Coppe (Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro), ele diz que é difícil saber a razão pela qual a ventilação mecânica seja menos eficiente em infectados pelo coronavírus.

"A verdade é que não sabemos explicar bem. Ainda estamos na fase de conhecer a doença", diz o professor, que cita "uma teoria matemática ainda não testada em humanos" segundo a qual o novo coronavírus removeria um átomo de ferro da hemoglobina, que é quem transporta o oxigênio no sangue.

"Embora tenha o sangue nos alvéolos do pulmão, não se consegue transferir o ar. É como se o paciente fosse anêmico", diz.

1.000 respiradores por R$ 6 milhões

A meta da equipe de Nadal é entregar à rede pública de saúde 1.000 respiradores mecânicos. Cada unidade deve custar entre R$ 4.000 e R$ 5.300, dinheiro custeado pela Faperj (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro) e grandes empresas, como Itaú, Petrobras, Vale e Whirlpool, a dona da Brastemp, em cuja fábrica os respiradores serão montados.

"Serão necessários cerca de R$ 6 milhões. O principal gargalo que temos hoje é um sensor de pressão para saber o quanto de ar estamos pondo no pulmão. A importação leva 50 dias. Se a gente demorar a fazer, pode ser que a gente chegue tarde. Estamos lidando com decisões desse tipo no momento."

No começo da semana, o Ministério da Saúde assinou o segundo contrato para o fornecimento de respiradores pela indústria nacional. Serão 4,5 mil aparelhos que serão destinados ao atendimento exclusivo de pacientes da covid-19.

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