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Coronavírus

Manaus registra 2.400 enterros em abril, três vezes mais do que em 2019

Flávio Costa

Do UOL, em São Paulo

01/05/2020 10h20Atualizada em 01/05/2020 18h09

Mais de 2.400 corpos foram enterrados nos cemitérios públicos de Manaus durante todo o mês de abril, de acordo com dados da prefeitura da cidade obtidos com exclusividade pelo UOL.

O número é quase três vezes maior do que os enterros realizados no mesmo mês do ano passado: 28 sepultamentos diários registrados em média em 2019.

A capital do Amazonas sofre colapso funerário e em seu sistema público de saúde, devido à pandemia do novo coronavírus. Surgem cada vez mais relatos de pessoas que morreram em casa, cujos corpos demoraram mais de 24 horas para serem recolhidos pelo serviço funerário municipal. Enterros coletivos em valas comuns passaram a ser realizados.

Apesar de não ser possível ligar esse aumento de enterros apenas à covid-19, o número indica que a subnotificação de óbitos decorrentes da doença pode ter chegado a um grau alarmante. Não há outro elemento que justifique crescimento tão expressivo e abrupto no movimento dos cemitérios públicos manauaras. As autoridades admitem que cadáveres são levados às covas sem passar por testes para verificar o contágio.

Desde 19 de abril, mais de 100 pessoas são enterradas a cada dia na cidade. O pico foi alcançado no dia 26, um domingo, quando foram realizadas 142 cerimônias fúnebres. Ontem, último dia do mês, foram 113 enterros.

Pico em maio

A prefeitura trabalha com a hipótese de que a cidade terá um novo pico no número de sepultamentos em maio, passando de 4.000.

"Dos dez cemitérios públicos de Manaus, somente o Nossa Senhora Aparecida, no bairro Tarumã, zona oeste, possui capacidade para novas sepulturas e já estava com nova área infraestruturada antes mesmo do início da pandemia. Nos demais cemitérios, só é possível realizar enterros se a família da pessoa morta já possuir uma sepultura no local", afirmou a prefeitura em nota.

Câmaras frigoríficas foram instaladas no cemitério para agilizar os sepultamentos.

O vereador da cidade Marcelo Serafim (PSB) diz acreditar que a curva de mortes começará a cair somente em duas semanas.

"Infelizmente essa conclusão é feita a partir dos números dos cemitérios e não dos números da Secretaria de Saúde do estado, pois a mesma insiste em subnotificar os óbitos. Quando temos que considera os dados dos cemitérios ao invés de considerar os dados da saúde é porque efetivamente o Amazonas fez tudo errado".

Segundo dados Ministério da Saúde, o estado tem a maior taxa de incidência da doença em todo o Brasil. São 5.723 casos confirmados e 476 mortes no Amazonas.

Manaus poderá ser obrigada a sepultar as vítimas em sacos plásticos nas próximas semanas. A avaliação foi feita pela Associação Brasileira de Empresas e Diretores do Setor Funerário (Abredif), que solicitou ao governo federal um avião de carga para o transporte de 2.000 urnas para a capital do Amazonas. Segundo a entidade, existem apenas mil urnas no estoque da cidade, uma das mais afetadas pela pandemia.

A entidade enviou uma carta à Secretaria de Articulação Social do governo federal, no último fim de semana, alertando para a gravidade do problema. De acordo com o presidente da associação, Lourival Panhozzi, há a necessidade imediata de reforço no estoque. "Se o governo não oferecer um avião para o transporte de urnas, poderemos chegar ao ponto de termos corpos jogados nas esquinas. O transporte rodoviário demora dias e a necessidade é imediata", afirma.

Cerca de 985 caixões deverão chegar até terça-feira (5) para evitar um desabastecimento, informou a Abredif.

O prefeito de Manaus, Arthur Virgílio (PSDB), afirmou que se a população da cidade não aderir em massa ao isolamento social, recomendará ao governo do Amazonas a decretação do lockdown (bloqueio total).

Cabine para coveiros

Com um alto número de enterros diários devido às mortes causadas pelo novo coronavírus, a prefeitura de Manaus colocou uma cabine de sanitização em um dos cemitérios da cidade para ajudar na proteção dos coveiros.

A cabine foi criada especialmente para a proteção contra o coronavírus e usa uma mistura química que age na pele e no uniforme dos funcionários, servindo como mais uma camada de proteção aos trabalhadores.

O produto químico age na pele por 5 horas. No caso das fardas, o período chega a 36 horas. Além das cabines, os coveiros receberam EPIs.

Por enquanto, uma cabine foi instalada no cemitério Nossa Senhora Aparecida, localizado no bairro do Tarumã, zona oeste, maior cemitério público da cidade e onde estão acontecendo a maior parte dos enterros das vítimas confirmadas e suspeitas da covid-19.

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