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Conteúdo publicado há
2 meses

Sem dados, SP diz que CoronaVac tem eficácia para pedir uso emergencial

Allan Brito, Felipe Oliveira e Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São Paulo

23/12/2020 16h14

O governo de São Paulo e o Instituto Butantan anunciaram hoje que a vacina CoronaVac, contra covid-19, produzida em parceria com o laboratório SinoVac, apresentou segurança e eficácia suficientes para pedir registro de uso emergencial.

A taxa de eficácia, porém, não foi divulgada, segundo as autoridades, a pedido do laboratório chinês, que revisará os dados antes que eles sejam encaminhados para a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). O órgão só deve receber a documentação em até 15 dias, quando analisará as informações e decidirá se aprova o uso do imunizante em território nacional.

Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan, afirmou que o atraso na divulgação dos resultados da fase 3 de testes não interferirá no prazo de aprovação da vacina. O objetivo, disse ele, é que os dados sejam comparados a resultados de pesquisas em outros países, evitando que o imunizante tenha diferentes índices de eficácia anunciados.

Essa solicitação da Sinovac tem respaldo no contrato e só podemos divulgar esse número em conjunto. E vamos fazer no tempo oportuno. Esperamos que seja o mais rápido possível
Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan

Apesar de não divulgar os números, o secretário estadual de Saúde, Jean Gorinchteyn, disse que a vacina atingiu "a superioridade de eficácia" exigidos "tanto pela Anvisa quanto pela OMS" — ou seja, acima de 50% nos testes clínicos.

Questionado se a ausência de dados reflete decepção nos resultados, Gorinchteyn negou, e disse que o objetivo sempre foi que a eficácia superasse o índice de 50%. "Se fosse 51% para nós já era importante, principalmente no momento em que vivemos uma crise sanitária", afirmou.

Sobre as reações adversas da vacina, Covas afirmou que o imunizante registrou manifestações leves, "como dor no local da injeção" sendo a principal delas.

Do ponto de vista de segurança, os dados estão disponíveis. Mostra que esta [vacina] é, no Brasil, a mais segura sem duvida nenhuma
Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan

O diretor do Butantan afirmou ter conversado com a Anvisa sobre o assunto. As tratativas foram com Gustavo Mendes, diretor da área de estudos, que lhe fez um pedido: "Que avisasse com certa antecedência quando esses dados estivessem sendo disponibilizados para Anvisa, para que ele se preparasse para fazer a análise o mais rapidamente possível".

Início da vacinação

O governo de São Paulo marcou o início da vacinação para o dia 25 de janeiro, data que foi mantida apesar do atraso de hoje.

"Todo planejamento com relação à vacinação continua igual", disse o secretário. "Nós temos a superioridade de 50%, o que dá a tranquilidade de podermos consagrá-lo no Programa Estadual.

A produção das doses está acontecendo aqui na fábrica do Butantan e iniciaremos nosso programa estadual de imunizações no dia 25 de janeiro
Jean Gorinchteyn, Secretário Estadual de Saúde

Governo federal vai comprar?

Depois de muitas polêmicas públicas sobre a CoronaVac, o governo federal tem negociado com o Butantan para comprar doses da vacina. Um contrato praticamente fechado prevê 46 milhões de doses entregues em 3 vezes: 9 milhões de doses em janeiro, 15 milhões em fevereiro e 22 milhões em março. Outra negociação estima compra de mais 100 milhões de doses, que seriam entregues até o final do 1º semestre de 2021.

O Ministério da Saúde não fez previsão sobre uma data para começar a vacinação. Mas de acordo com o PNI (Programa Nacional de Vacinação), a distribuição dos imunizantes ocorrerá em no máximo 5 dias depois que a Anvisa der o aval para qualquer vacina.

Discussões e polêmicas

A CoronaVac foi negociada e comprada diretamente pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB), o que gerou atritos com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que vê o tucano como possível adversário nas eleições presidenciais de 2022.

O auge do embate aconteceu em outubro, quando o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, manifestou interesse em comprar a CoronaVac. No dia seguinte, Bolsonaro desautorizou Pazuello ao dizer que cancelaria o ofício assinado pelo ministro e que não compraria a vacina porque sua origem era chinesa.

Após interrupção na fase 3 de testes por causa da morte de voluntário (não relacionada com a vacina), Bolsonaro chegou a comemorar a suspensão, escrevendo nas redes sociais que era uma vitória contra Doria.

Dias depois, Bolsonaro afirmou que comprará qualquer vacina que for aprovada pela Anvisa. Apesar disso, tem feito campanha para que o imunizante não seja aplicado de forma obrigatório e também alertado para consequências graves da vacinação.

Produção de doses

Até o final deste mês, o Butantan vai dispor de 10,8 milhões de doses da vacina em solo brasileiro. Amanhã um carregamento com insumos para 5,5 milhões de doses desembarca no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas.

Três remessas anteriores garantiram 3,12 milhões de doses ao Butantan. O novo carregamento é formado por 2,1 milhões de doses já prontas para aplicação e mais 2,1 mil litros de insumos, correspondentes a 3,4 milhões de doses. Os carregamentos finais de 2020 estão previstos para os dias 28, com 400 mil doses, e 30, com mais 1,6 milhão de doses.

Vacinação pelo mundo

Por enquanto outros países já começaram a vacinar suas populações. Arábia Saudita, Canadá, Estados Unidos, China, Rússia e Reino Unido já iniciaram a aplicação de vacinas contra o coronavírus em sua população.

A Suíça foi o primeiro país a autorizar uma vacina de forma padrão, e não de uso emergencial. A vacina da Pfizer começará a ser aplicada nos próximos dias.

Já os 27 países da União Europeia devem começar a vacinar a população em conjunto no dia 27 de dezembro. O Reino Unido, que deixou o bloco, começou a vacinação mais cedo que os países vizinhos.

Na Turquia, o anúncio dos resultados do estudo clínico da CoronaVac é esperado com expectativa.

"Estamos aguardando ansiosamente", escreveu ao UOL o professor Murat Akova, coordenador das pesquisas sobre a vacina no país, integrante do departamento de Doenças Infecciosas da Universidade de Hacettepe, e membro da ESCMID (sigla para Sociedade Europeia de Microbiologia Clínica e Doenças Infecciosas).

Segundo Akova, o governo turco planeja iniciar a vacinação em meados de janeiro caso sejam positivos os resultados da fase 3 do estudo da Sinovac e do Instituto Butantan.

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