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Coronavírus

Alunos e professores em home office "furam fila" da vacina no HC de SP

Médicos e enfermeiros do Hospital das Clínicas de São Paulo começam a ser vacinados no Centro de Convenções Rebouças - Marcelo Justo/UOL
Médicos e enfermeiros do Hospital das Clínicas de São Paulo começam a ser vacinados no Centro de Convenções Rebouças Imagem: Marcelo Justo/UOL

Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São Paulo

22/01/2021 14h29Atualizada em 22/01/2021 17h51

Embora existam na capital paulista postos de saúde e hospitais ainda sem previsão de receber a vacina contra a covid-19, estudantes de medicina, funcionários da administração e professores do Hospital das Clínicas trabalhando em home office foram imunizados nesta semana com as doses distribuídas pelo governo do estado.

Na ultima terça, o secretário de Saúde do estado de São Paulo, Jean Gorinchteyn, afirmou que o governo vai priorizar a vacinação dos profissionais de saúde que estão na linha de frente, pois "infelizmente", não há doses para todos os trabalhadores da saúde.

O UOL teve acesso à lista com os nomes das pessoas escolhidas pelo HC para receberem o imunizante da CoronaVac, entre elas estudantes e profissionais que não atuam na linha de frente no combate ao coronavírus. A reportagem viu em redes sociais publicações e fotos de professores e alunos sendo vacinados, conversou com um deles e com médicos que testemunharam a imunização de quem não deveria estar, pelos critérios do governo, no início da fila.

"Não sou grupo de risco, já peguei covid e ainda devo estar com anticorpos. Mais do que isso, não atuo na linha de frente no combate à pandemia. Vou ao HC apenas algumas vezes na semana para supervisão no curso de Fisioterapia Esportiva, em que poucos pacientes são do grupo de risco", afirmou um aluno pós-graduando em uma postagem no Instagram em que exibe uma carteirinha de vacinação. O nome dele está na lista.

"Concordando ou não com a estratégia de vacinação dessas primeiras doses, fui e fiz minha parte. Vamos seguir na expectativa e cobrança para o acesso o quanto antes dos grupos prioritários", disse o rapaz. "Baita organização do @hospitalhcfmusp. Menos de 2 min que entrei já estava vacinado."

Um médico que conversou com a reportagem sob a condição de não se identificar contou que, na quarta-feira, um de seus alunos deixou de ir ao estágio no hospital para se vacinar no HC. Ele disse ter ficado ainda mais indignado ao saber que a professora dos alunos que estagiam com ele —que está trabalhando de casa— receberá a vacina também.

"Eu recebo as alunas das docentes, ensino no campo, só tenho contato com a professora por videochamadas. Eu formo para ela, mas ela é vacinada antes de mim", afirmou.

Profissionais de saúde do Hospital das Clínicas de SP são vacinados com a vacina CoronaVac no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo - Marcelo Justo/UOL - Marcelo Justo/UOL
Profissionais de saúde do HC são vacinados em São Paulo
Imagem: Marcelo Justo/UOL

Segundo relatos feitos à reportagem por outros profissionais que também pediram anonimato, há professores e alunos ligados ao Fofito, o Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da faculdade de medicina, sendo vacinados no hospital.

Uma professora da fonoaudiologia compartilhou uma mensagem de áudio em um grupo de médicos no WhatsApp dizendo ter sido convocada por e-mail para ser vacinada. Caso recusasse, disse ela, a opção seria esperar a chegada da vacina em um posto de saúde.

"Na Fofito a maioria dos docentes está em home office porque a USP está fechada, sem aula", afirmou outro médico.

Estão vacinando quem está em casa enquanto profissionais atendendo em equipamentos de saúde pela cidade não têm ideia de quando vão receber a imunização"
Médico que atua na linha de frente contra a covid

Sob condição de anonimato, o UOL conversou com uma estudante do último ano de terapia ocupacional da faculdade de medicina da USP que recebeu o imunizante na quinta-feira. Embora tenha tomado a vacina, a aluna reconhece que o HC errou ao vacinar todos os seus funcionários, já que muitos profissionais na linha de frente em outros hospitais permanecem sem as doses.

"Depois de tomar a vacina, começamos a pensar sobre isso. Conversamos entre os alunos e temos a consciência de que não precisávamos ser vacinados agora", afirmou. "Alguns alunos que moram com pessoas do grupo de risco ficaram mais à vontade em receber a dose."

Para a estudante, "não era hora de ser convocado". "A gente tem recebido relatos assustadores de profissionais com comorbidades trabalhando na linha de frente sem previsão de serem vacinados. Tem professores que não pisam na USP há meses e recebem a vacina."

O erro é do HC, que tentou colocar os seus na frente em vez de priorizar quem está atendendo doentes. O critério é ter um crachá. Quem tem vai receber vacina. Vi vários funcionários administrativos sendo vacinados"
Aluna da Faculdade de Medicina da USP

Ela e sua turma se juntarão no HC aos alunos do quarto e quinto anos do curso de fonoaudiologia, que já estagiam no complexo.

O UOL entrou em contato com professores que estavam na lista do HC e receberam a vacina (embora trabalhem de casa na pandemia), mas não recebeu resposta.

Questionado, o HC afirmou em nota que encerrou ontem sua campanha "vacinando cerca de 24 mil pessoas, 60% de todo o corpo de colaboradores" e que 4.600 doses serão devolvidas ao governo. "Foram priorizados os profissionais com maior potencial de exposição à doença, que contabilizam cerca de 25 mil pessoas", afirmam.

"O HCFMUSP vai apurar os casos que eventualmente estejam fora dos procedimentos de vacinação", diz a nota.

Docente promete "termo de compromisso" a ex-aluna

Um médico que na quinta precisou participar de uma reunião na USP diz ter ficado "chocado" com o que afirma ter ouvido. Ele relata ter flagrado uma professora conversando por telefone com uma ex-aluna que hoje trabalha em uma unidade de saúde sem vínculo com o HC.

Na conversa, a professora, segundo ele, diz que está "agilizando uma lista para enviar ao HC" e promete encaminhar por e-mail um termo de consentimento (para receber a vacina) que a ex-aluna deveria assinar e, munida da carteirinha que usava quando era residente, se apresentar no HC para receber a CoronaVac.

"Tudo bem se tivesse vacina para todo mundo, mas por enquanto o correto é fazer uma escala a começar por quem está atendendo covid, seja no HC ou não", afirmou o médico.

Em um comunicado aos alunos da pós-graduação, a Comissão de Pós-Graduação admitiu que alguns dos pós-graduandos deixaram de receber a vacina porque o HC acabou imunizando ex-alunos.

"Dado que a campanha foi planejada em espaço de tempo exíguo, não foi possível a verificação dos alunos que estavam com seu cadastro ativo, tendo acarretado o fato de parte dos discentes [alunos] não terem sido contemplados nas listas divulgadas pela campanha", afirma a comissão, que atribuiu a coordenação da campanha à diretoria clínica do HC.

Na mensagem, quem não foi vacinado é orientado a fazer o pré-cadastramento na campanha de vacinação no site Vacina Já, criado pelo governo paulista.

Prefeitura reclama de "privilégio" no HC

O governo do estado de São Paulo enviou lotes da CoronaVac à Prefeitura de São Paulo nesta semana para imunizar trabalhadores da linha frente nos hospitais da cidade. O HC, no entanto, apresentou seu plano de vacinação diretamente ao governo estadual, que encaminhou as doses ao hospital, referência no tratamento à covid-19.

Para isso, HC montou 30 estações no centro de convenções do complexo.

"Em outros hospitais, profissionais que enfrentaram a pandemia desde o começo, trabalhando em UTIs, podem ficar sem o imunizante", afirmou o secretário municipal de Saúde, Edson Aparecido, à colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo. "Há declarações de que até funcionários do setor administrativo receberam vacina. Não somos contra o HC, somos a favor de ter critérios que priorizem os da linha de frente."

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