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Coronavírus

Bolsonaro retoma defesa enfática da cloroquina, mas reconhece isolamento

Hanrrikson de Andrade e Tarla Wolski

Do UOL, em Brasília, e colaboração para o UOL, em Chapecó (SC)*

07/04/2021 11h44Atualizada em 07/04/2021 16h49

Depois de ensaiar moderação nas últimas semanas, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) retomou hoje uma narrativa mais enfática em defesa do uso de medicamentos sem eficácia científica comprovada, como a hidroxicloroquina, no tratamento da covid-19.

O governante também reconheceu um "isolamento mundial" em relação à postura adotada frente à pandemia do coronavírus, mas disse que não dá importância para eventuais danos à sua "biografia". "Estou me lixando para 2022", declarou ele, em referência ao ano que vem, quando disputará a reeleição.

"Por que essa campanha mundial contra médicos, métodos e contra quem fala do tratamento imediato [em referência ao uso de medicamentos]? O que está acontecendo com o mundo?", questionou o presidente.

"Eu acho que eu sou o único líder mundial que apanha isoladamente. O mais fácil é ficar do lado da massa, da grande maioria, você evita problemas. Não é acusado de genocida e não sofre ataques por parte de gente que pensa diferente de mim."

Ainda de acordo com o Bolsonaro, o inimigo do país não seria "o presidente", "o governador" ou "o prefeito", e sim "o vírus".

As declarações ocorreram durante visita ao município de Chapecó, em Santa Catarina, na manhã de hoje. O prefeito, João Rodrigues (PSD), também é defensor do uso da hidroxicloroquina e de outros medicamentos testados no combate à covid-19 (mas que não possuem eficácia científica comprovada).

Durante o discurso, apesar da clara referência, Bolsonaro evitou citar diretamente o nome de medicamentos, mas no final sugeriu que a pandemia não atingiu a África com força porque a hidroxicloroquina e ivermectina são usadas com maior frequência por causa de outras doenças. Não há nenhum indício desta relação.

Bolsonaro ainda citou o tratamento ao qual foi submetido quando contraiu a doença, dizendo que não iria dizer o nome do medicamento que tomou, mas que se curou em 24 horas. O presidente já disse anteriormente que fez uso da hidroxicloroquina. Porém, não há como fazer a relação entre a melhora do quadro clínico com o uso do medicamento, uma vez que a maior parte dos infectados não tem complicações da doença.

O presidente ainda repetiu um discurso ao qual recorre desde o início da pandemia, defendendo que médicos tenham liberdade na escolha dos tratamentos para a covid-19. "Não sei como salvar vidas, não sou médico, mas não posso tolher liberdade do médico",

"Não haverá lockdown"

Bolsonaro voltou a atacar medidas de restrição e o "lockdown" —alternativas importantes para conter o espalhamento do vírus, segundo avaliações feitas por especialistas em saúde e autoridades na área de epidemiologia e controle sanitário. Para o presidente, o isolamento social e a interrupção de atividades comerciais trazem danos à economia e lançam o país em um abismo econômico e social.

O chefe do Executivo disse que, no que depender dele, não haverá "lockdown nacional'. Mais tarde, em evento para inauguração de obras no Aeroporto de Foz do Iguaçu, Bolsonaro fez um "apelo" a governadores e prefeitos.

Está faltando humanidade. Toda atividade que o homem exerce para levar o pão pra casa é uma atividade essencial".
Jair Bolsonaro, presidente da República

Ele acrescentou que incentivar o isolamento social é "tirar emprego dos outros e está empobrecendo o país".

Ontem, o Brasil pela primeira vez superou a marca de 4.000 mortes por covid-19 registradas em 24 horas (4.211). Nos últimos sete dias, morreram, em média, 2.775 pessoas em decorrência da doença no país. Já são 75 dias em que a média fica acima de mil.

Jair Bolsonaro durante visita a Chapecó (SC)   - Tarla Wolski/Colaboração para o UOL - Tarla Wolski/Colaboração para o UOL
Jair Bolsonaro durante visita a Chapecó (SC)
Imagem: Tarla Wolski/Colaboração para o UOL

Visita após elogios ao prefeito de Chapecó

Bolsonaro visitou Chapecó depois de elogiar o prefeito da cidade durante esta semana, especialmente por sua defesa do tratamento precoce. Ele disse que a cidade catarinense era um exemplo a ser seguido, apesar de ter registrado 541 mortos por covid-19, sendo que mais de 410 foram registrados neste ano.

Porém, conforme mostrou o UOL Confere, João Rodrigues (PSD), distorceu dados da covid-19 ao divulgar um vídeo afirmando que, em 60 dias, o município passou "dos piores resultados do Brasil aos melhores números". Embora nos últimos dias as notificações pela doença tenham reduzido, Rodrigues omitiu que a cidade adotou medidas restritivas e citou apenas que seguiu "todos os protocolos".

Ao fim de fevereiro, a cidade também implementou medidas restritivas para tentar frear o avanço do vírus. A falta de leitos levou à transferência de pacientes para o Espírito Santo e, mesmo após o fim do decreto municipal, Chapecó aderiu às restrições implementadas pelo estado de Santa Catarina.

Além disso, o município também ampliou a testagem da população e criou enfermarias próprias para atender pacientes com coronavírus, aliviando a pressão sobre outras unidades de saúde.

O fechamento completo dos serviços é uma das medidas criticadas pelo presidente. Desde o início da pandemia, Bolsonaro também apoia, sem comprovação científica, o uso da hidroxicloroquina e ivermectina como suposto "tratamento precoce" contra a covid-19. Na semana passada, a OMS descartou o uso da ivermectina em pacientes em tratamento contra a covid-19. O medicamente foi liberado apenas para uso em ensaios clínicos.

*Colaborou Fábio Castanho, de São Paulo

Errata: o texto foi atualizado
Ontem, o Brasil pela primeira vez superou a marca de 4.000 mortes por covid-19 registradas em 24 horas (4.211), e não em 24 dias, como informado, incorretamente, em versão anterior deste texto. A informação foi corrigida.

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