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UOL Explica: Por que as mortes por covid não caem, mesmo após os feriados?

Vista do trânsito no centro de São Paulo, em março, durante a fase emergencial - Nelson Antoine/Estadão Conteúdo
Vista do trânsito no centro de São Paulo, em março, durante a fase emergencial Imagem: Nelson Antoine/Estadão Conteúdo

Guilherme Castellar

Colaboração para o UOL, do Rio

09/04/2021 04h00

Mesmo após boa parte dos estados e municípios do Brasil terem endurecido s medidas de restrição de mobilidade da população nas últimas semanas, o país segue batendo recordes de óbitos por covid-19. Ontem, no segundo dia mais mortal desde o início da pandemia, foram registradas mais de 4 mil mortes em decorrência da doença num intervalo de 24 h — pela segunda vez na semana.

Mas por que as mortes demoram a cair mesmo com as pessoas deixando de circular? Especialistas explicam que é preciso compreender os tempos envolvidos na evolução da doença e na contabilidade das mortes no país. "É uma soma de vários atrasos", resume Isaac Schrarstzhaupt, cientista de dados e coordenador da Rede de Análises de Covid-19.

Quem pega a doença hoje não necessariamente morre amanhã. Leva alguns dias para incubar o vírus, depois para a doença piorar e a pessoa procurar um hospital. Lá, ainda pode ficar vários dias na UTI até falecer em caso de quadro grave."
Isaac Schrarstzhaupt, coordenador da Rede de Análises de Covid-19

Em junho de 2020, um estudo apontou 23 dias como o tempo médio clínico entre a infecção e o óbito na Europa. Mas essa média pode variar muito e não necessariamente vale para o Brasil, pois depende da qualidade do sistema de saúde e se ele está em colapso. Depois desse atraso, vem o segundo: a demora nas notificações. Pode levar várias semanas até um óbito ser lançado no sistema do Ministério da Saúde.

Na Bahia ou no Ceará, hoje esse registro é quase online. Já nos estados da região Norte, no Espírito Santo e no Rio de Janeiro, a notificação pode demorar um mês.
Christovam Barcellos, especialista em saúde pública da Fiocruz

Com a soma desses atrasos, os gráficos da doença evoluem em ritmos diferentes. Quando a propagação da doença começa a ser controlada, com o isolamento social, por exemplo, primeiro cai o número de casos. Depois, a taxa de mortalidade. Segundo Schrarstzhaupt, no Brasil, atualmente esse atraso entre casos e óbitos está entre 20 e 25 dias.

A própria dimensão do país também complica o acompanhamento dos indicadores, uma vez que o Brasil tem várias pandemias em ritmos diferentes ocorrendo simultaneamente. Enquanto as cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro tentam conter o aumento dos casos com um longo feriado antecipado, os estados do Sul, onde a escalada exponencial da doença veio antes, já registram quedas no número de casos e, mais recentemente, no de óbitos.

Os resultados do Sul do país só vieram após a adoção de medidas de restrição da mobilidade.

É até simples. As mortes caem quando cai o número de doentes; os doentes caem quando cai a transmissão e a transmissão cai quando cai a mobilidade. Ou seja, menos pessoas em contatos com outras pessoas. Se não tem redução de mobilidade, não vai cair a taxa de transmissão."
Isaac Schrarstzhaupt, coordenador da Rede de Análises de Covid-19

Por isso, cientistas defendem que, na ausência de vacinas, o isolamento social ainda é a medida mais eficaz para estancar a propagação da doença de forma rápida.

Um exemplo é a cidade de Chapecó (SC), que na quarta-feira (7) foi palco de um evento onde o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) voltou a defender o tratamento precoce e dizer que lockdown não funciona.

O que ninguém disse no encontro é que a cidade adotou medidas restritivas, a partir de 9 de fevereiro — e que foram gradativamente endurecidas, como já mostrou o UOL Confere.

Segundo dados de mobilidade do Google, a circulação de pessoas em Chapecó começou a cair no dia 13 de fevereiro, um dia após o prefeito João Rodrigues (PSD) suspender as aulas presenciais e restringir a ocupação e horários de bares e restaurantes. No dia 22, as restrições foram endurecidas, com o fechamento do comércio e toque de recolher.

Exatos 14 dias após o endurecimento das restrições, a cidade começou a reverter o aumento do número de casos. E 19 dias após as medidas mais rígidas, a média móvel de óbitos também começou a diminuir.

A experiência de Chapecó — que no auge do colapso hospitalar teve que mandar pacientes ao Espírito Santo — mostra a violência da segunda onda da pandemia no Sul do país. Quando em meados de fevereiro as mortes começaram a crescer exponencialmente, a cidade contabilizava 150 mortos por covid desde março de 2020. Na terça-feira (6), eram 539 vítimas.

Os cientistas temem que as autoridades enxerguem a estabilidade nas curvas de casos e óbitos como um sinal de que dá para relaxar. "O Brasil ainda está num patamar muito alto de casos. É sinal de que ainda tem muito vírus circulando. Se a gente flexibiliza agora, estamos colocando pessoas suscetíveis em contato com o vírus", diz Schrarstzhaupt.

E, como a dinâmica da pandemia ensina, mesmo que o número de caso caiam agora, as mortes podem demorar para reverter a tendência de alta. É o que teme o sanitarista da Fiocruz.

Ainda vamos assistir a um mês de abril bastante trágico. Os hospitais estão lotados, os trabalhadores da saúde estão esgotados e alguns locais estão sem insumos. A taxa de óbitos por covid no Brasil ainda pode pular para os cinco mil."
Christovam Barcellos, especialista em saúde pública da Fiocruz

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