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Total de internações em leitos para covid é o maior em 2 meses na Grande SP

Espera por atendimento no pronto-socorro da Lapa, em São Paulo, ontem - Herculano Barreto/UOL
Espera por atendimento no pronto-socorro da Lapa, em São Paulo, ontem Imagem: Herculano Barreto/UOL

Wanderley Preite Sobrinho e Herculano Barreto Filho

Do UOL, em São Paulo

23/12/2021 04h00

O número de pacientes internados em hospitais públicos e privados do estado de São Paulo em leitos para covid-19 vem aumentando nos últimos dias, segundo levantamento da SP Covid-19 Info Tracker, plataforma de monitoramento das universidades estaduais USP e Unesp. Enquanto no interior e litoral o aumento ainda é tímido, na Grande São Paulo a ocupação é a maior em dois meses, causando superlotação em algumas unidades de saúde.

Na capital e nos municípios vizinhos, foram 251 pessoas internadas em leito covid em 21 de dezembro, o maior patamar em dois meses —em 22 de outubro, 257 pacientes ocuparam estas vagas.

O estudo do Info Tracker —com dados extraídos do Censo Covid, do governo estadual—, indica ainda que foram 12 novas internações na Baixada Santista em 21 de dezembro, a maior quantidade desde 16 de outubro. No interior, foram 116 novos hospitalizados, o maior número em 15 dias.

Por causa do apagão de dados após um ataque hacker aos sistemas do Ministério da Saúde —que começou em 10 de dezembro—, o SUS (Sistema Único de Saúde) não dispõe de informações em tempo real sobre o diagnóstico de pacientes que estão sendo atendidos com sintomas gripais, a chamada SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave).

A suspeita é que a ocupação desses leitos se deva à nova variante do coronavírus, a ômicron, e ao aparecimento da nova cepa da gripe H3N2 (darwin).

Os pesquisadores do Info Tracker destacam a velocidade das hospitalizações nos últimos dias. Na última semana, foram 1.812 novas internações na Região Metropolitana, contra 1.254 na semana anterior —aumento de 45%.

"A variação das novas internações é uma métrica do governo estadual que mensura o quão rápido as pessoas têm procurado assistência hospitalar de uma semana para outra em decorrência de dificuldades para respirar", explica o professor da Unesp Wallace Casaca, um dos coordenadores da Info Tracker.

Mas é covid?

Ao UOL, a Secretaria Estadual da Saúde afirma ser "equivocado associar o cenário de novas internações diárias à covid-19 isoladamente, uma vez que o Censo contabiliza casos de SRAG, que podem ser suspeitos ou confirmados para covid".

"Para saber se é covid ou não, vai depender dos testes para confirmação", diz o coordenador da Info Tracker. "O problema é que a plataforma federal está fora do ar até hoje por conta dos ataques hackers. Sobre isso, o país está no escuro."

Independentemente se alguém está internado por covid ou gripe, o fato é que pessoas com problemas respiratórios estão lutando por suas vidas nesses leitos para covid."
Wallace Casaca, professor da Unesp

Em nota enviada à reportagem, a secretaria alega que a pandemia está sob controle e diz que o número de pacientes internados em UTI —898 no dia 20— é 97% menor "em comparação ao pico da segunda onda".

Mais atendimentos nos hospitais

Hospitais e postos de saúde da capital estão recebendo cada vez mais pacientes com sintomas gripais, segundo o levantamento do Info Tracker, com base nos dados do governo estadual.

O Hospital da Brasilândia, na zona norte, viu o número de pessoas internadas saltar 58% entre a semana terminada em 14 de dezembro e a terminada no dia 21: passou de 107 hospitalizados para 169, indica a pesquisa.

No Hospital Geral Jesus Teixeira da Costa, em Guaianases, zona leste, o aumento foi de 52%: passou de 33 para 50 hospitalizados no mesmo período.

Ainda na zona leste, no Hospital Vila Alpina, o aumento foi de 66% (de 15 para 25 internados), enquanto no Hospital Infantil Cândido Fontoura, a variação foi de 46% em cinco dias (de 26 para 38 crianças hospitalizadas).

Thais Melo, 22, aguardava há mais de uma hora por atendimento ao filho, de 4 anos, no pronto-socorro da Lapa - Herculano Barreto Filho/UOL - Herculano Barreto Filho/UOL
Thais Melo, 22, aguardava há mais de uma hora por atendimento ao filho, de 4 anos, no pronto-socorro da Lapa
Imagem: Herculano Barreto Filho/UOL

No Pronto-Socorro Municipal da Lapa, na zona oeste, a espera por atendimento chega a seis horas, segundo alguns pacientes, que se aglomeram no PS.

Quando conversou com o UOL, a doméstica Thais Melo, 22, aguardava havia mais de uma hora por atendimento ao filho de 4 anos, com sintomas gripais.

"Tá muito lotado, moço! Muita aglomeração. Deveriam ter mais recursos pra atender a população, que tá sofrendo aqui", afirmou, em tom de desabafo.

Procurada, a Secretaria Municipal de Saúde não respondeu sobre a lotação na Lapa até a publicação desta reportagem. Sobre o crescimento da procura, a pasta confirma que "a rede tem registrado um aumento significativo na demanda de atendimento das unidades de saúde a pessoas com sintomas gripais".

Em novembro, a pasta diz ter registrado 111.949 atendimentos de pessoas com sintomas gripais, "sendo 56.220 suspeitos de covid-19" —pouco mais da metade.

"Neste mês, até terça-feira (21), a SMS registra um total de 170.259 atendimentos com quadro respiratório, sendo 79.482 suspeitos de covid-19", afirma a secretaria, que diz destinar parte dos leitos do Hospital da Brasilândia justamente para o acompanhamento e tratamento dos casos de SRAGs.

A SMS tem intensificado as ações de monitoramento e iniciou na quinta-feira, a realização de testes rápidos em suas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), Assistências Médicas Ambulatoriais (AMAs), Prontos Atendimentos (PAs) e prontos-socorros, no setor de triagem, para identificar os casos positivos de covid-19."
Nota enviada pela prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Saúde

Mais médicos e remédios

A pressão sobre os postos de saúde vem causando falta de remédios e até de profissionais. Para lidar com a urgência, a Prefeitura de São Paulo decidiu contratar 280 médicos e enfermeiros e comprar R$ 150 milhões em medicamentos, como tamiflu e dipirona.

O secretário municipal de Saúde, Edson Aparecido, confirmou ao jornal O Estado de S. Paulo que "as unidades de atendimento estão sobrecarregadas".

"Há sobrecarga até porque não estamos suspendendo outros tipos de atendimentos. Por isso, estamos contratando mais médicos, mais enfermeiros, fazendo de tudo para atender essa demanda da gripe."