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Sem demanda e registro definitivo, Butantan suspende produção de CoronaVac

Carla Araújo e Leonardo Martins

Colunista do UOL, em Brasília, e do UOL, em São Paulo

25/06/2022 04h00

Primeira vacina contra a covid-19 aplicada no Brasil, a CoronaVac teve sua fabricação interrompida pelo Instituto Butantan. A última produção foi finalizada em outubro de 2021, segundo a instituição. Sem novos pedidos por lotes do imunizante, não há previsão de retomada.

No total, o Butantan —ligado ao governo paulista— entregou mais de 110 milhões de doses ao Ministério da Saúde. O último envio ocorreu em fevereiro deste ano. Desde então, afirma que não foi procurado para assinar novos contratos. Em email enviado para a reportagem a assessoria do instituto afirma que o Butantan tem "total capacidade de produção para atender a quaisquer demandas deste imunizante, à medida que sejam recebidas" e que não recebeu novas propostas do Ministério da Saúde para compra.

Alvo de uma briga política entre o ex-governador João Doria (PSDB) e o presidente Jair Bolsonaro (PL), a CoronaVac foi aprovada pela Anvisa (Agência de Vigilância Sanitária) para uso emergencial em janeiro do ano passado e ainda hoje é usada na vacinação de crianças e adolescentes.

Com a chegada —com atraso— de outros imunizantes e a ausência do registro de uso definitivo, a vacina do Instituto Butantan perdeu espaço na campanha nacional de vacinação.

Os outros três imunizantes aplicados no país já têm registro definitivo pela Anvisa: Pfizer, AstraZeneca e Janssen.

Registro definitivo

Em abril deste ano, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, anunciou o fim da emergência sanitária pela covid-19 no país.

Sem emergência sanitária, apenas vacinas registradas definitivamente podem adquiridas para adultos —por isso, a CoronaVac teria sido barrada e ficou restrita a crianças e adolescentes.

Ao UOL, Marcelo Queiroga defendeu que a vacina ainda é útil para o esquema vacinal primário (ou seja, as primeiras duas doses), mas ressalta a falta de registro definitivo como empecilho para comprar mais doses do Butantan. Estudo chileno apontou que a CoronaVac, em crianças, pode prevenir mais de 90% das internações pela covid-19.

"Como na população brasileira mais de 70% tem o esquema vacinal primário, o emprego da CoronaVac como [dose de] reforço não tem comprovação científica. Ela é utilizada hoje para imunização de crianças de 5 a 11 anos e para adolescentes, com forma de registro emergencial", afirmou.

Havendo registro definitivo da Anvisa, apresentando os dados completos de que a vacina possa ser usada como reforço, é possível que o Ministério da Saúde considere essa opção."
Marcelo Queiroga, ministro da Saúde

Como já ocorreu antes no governo Bolsonaro, Queiroga negou influência política na decisão de não comprar novas doses. "As questões sempre foram técnicas. Não tem questão política na escolha de vacinas. Quando se compra qualquer vacina, medicamento, tem de se considerar a segurança, eficácia e efetividade", disse.

Para obter o registro de uso definitivo, o Instituto Butantan deve entregar estudos técnicos de eficácia da vacina solicitados pela Anvisa. O laboratório planeja enviar a solicitação na primeira quinzena de julho.

O Butantan, entretanto, ressalta que a eficácia da CoronaVac na dose de reforço ou terceira dose já foi comprovada cientificamente por estudos na China, Turquia e Chile. O laboratório criou um dossiê elencando todos estudos que garantem a efetividade.

Segundo o instituto, há cinco estudos neste material que apontam a eficácia desta vacina como reforço. O Butantan também ressalta os dados do Projeto S, conduzido na cidade paulista de Serrana, onde a maioria da população recebeu CoronaVac.

O único contrato de novas compras de vacinas em 2022 pelo Ministério da Saúde foi justamente com o Instituto Butantan, no valor total de R$ 363, 9 milhões. A pasta, no entanto, destaca que dois contratos de 2021 que ainda estão vigentes neste ano, com a Pfizer e com a Fiocruz, que produz a AstraZeneca.

Embate político

A CoronaVac foi crucial para o avanço as primeiras etapas da imunização contra o coronavírus. Ela foi desenvolvida pelo Butantan, em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac, após negociações do governo de São Paulo.

A produção e distribuição pelo país causou uma série de embates entre o então governador João Doria e o presidente Jair Bolsonaro. Não é difícil encontrar declarações de Bolsonaro criticando e levantando desconfiança contra a CoronaVac —tanto por sua origem chinesa quanto por acusações falsas de ineficácia.

O então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, chegou a assinar um termo de compromisso de compra do imunizante, em outubro de 2020. E foi desautorizado, no dia seguinte, por Bolsonaro. "O povo brasileiro não será cobaia de ninguém", publicou, à época, Bolsonaro.

Pouco utilizada

Segundo o consórcio de veículos de imprensa do qual o UOL faz parte, mais de 167 milhões de brasileiros já tomaram as duas doses de vacina contra covid-19.

Atualmente, a campanha nacional de imunização está focada na quarta dose para pessoas com mais de 40 anos. O calendário das faixas etárias exatas que devem ser atendidas depende das prefeituras e governos estaduais.

Dados levantados pelo InfoTracker, plataforma de monitoramento da covid-19 da USP e Unesp, apontam que as vacinas Janssen, AstraZeneca e Pfizer são, atualmente, as mais aplicadas nesta etapa. De cada dez aplicações de quarta dose, apenas uma é CoronaVac.

A pedido do UOL, os pesquisadores analisaram dados da plataforma Vacinômetro Covid-19, do Ministério da Saúde. Os números são referentes aos registros feitos até domingo passado (19).

De acordo com o levantamento, as proporções de doses aplicadas de cada imunizante disponibilizado no Brasil são:

  • Janssen - 42,55% do total
  • AstraZeneca - 30,42%
  • Pfizer - 25,48%
  • CoronaVac - 1,36%
  • Não Informado - 0,19%

O estado de Minas Gerais é o que mais vacinou até o momento com quarta dose, com cerca de 1,4 milhão de doses aplicadas. Desse total, 42,39% foram AstraZeneca e 45,19%, Janssen. Em seguida, estão os estados do Rio de Janeiro (1,1 milhão), Rio Grande do Sul (743 mil), Paraná (581 mil) e Bahia (475 mil).

A ampliação da quarta dose ocorre após a flexibilização das medidas de restrição pelo país, que causou uma alta no número de mortes e casos conhecidos em diversos estados —de forma menos grave que nas ondas anteriores, por conta das vacinas. Algumas unidades da federação e cidades voltaram a recomendar o uso de máscaras em locais fechados.

"O importante é vacinar"

A epidemiologista Ana Maria de Brito, da Fiocruz em Pernambuco, explica que o fato de as vacinas da Janssen, AstraZeneca e Pfizer serem mais usadas não é significativo. "Não se trata de ser a melhor ou pior estratégia. É a disponibilidade de vacinas. O importante é vacinar", diz.

A epidemiologista ressalta que a reação às vacinas aplicadas na quarta dose é normal —especialmente no caso da Janssen e da AstraZeneca, por causa da tecnologia utilizada.

Isso [reações] acontece para qualquer vacina. Algumas mais, outras menos. A CoronaVac é o vírus morto e inativado. Mas, às vezes, a pessoa tem reações adversas. O nosso organismo vai responder a qualquer presença de organismo estranho."
Ana Maria de Brito, pesquisadora da Fiocruz

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