ONGs negociam com Exército sírio para retirar pessoas desnutridas de Madaya

Em Beirute

  • Louai Beshara/AFP

Organizações humanitárias negociavam com as partes em conflito nesta terça-feira (12) para retirar 400 civis, alguns dos quais gravemente desnutridos, da cidade síria de Madaya, há seis meses sitiada pelo Exército e onde os moradores vivem uma situação catastrófica.

Além disso, as forças do regime sírio entraram nesta terça-feira na localidade estratégica de Salma, principal reduto rebelde na região montanhosa de Latakia, noroeste do país, perto da fronteira com a Turquia, informou uma ONG.

Em Madaya, na região de Damasco, os alimentos, medicamentos e cobertores começaram a ser distribuídos aos habitantes após a chegada do primeiro carregamento de ajuda nesta segunda (11) desde outubro.

A grave situação humanitária em Madaya, sitiada há meses pelas forças governamentais, não tem precedentes no conflito na Síria, afirmou nesta terça-feira uma fonte das Nações Unidas que visitou a cidade.

"O que vimos é horrível, não há vida. Está tudo muito tranquilo. Mas há informações concretas de que pessoas morreram de fome. O que vimos em Madaya não tem precedentes com relação a outras partes da Síria", declarou o representante do Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados), Sajjad Malik, falando por videoconferência de Damasco.

Malik explicou ter visto crianças obrigadas a comer capim para sobreviver.

O mais alto funcionário da ONU para a Síria advertiu nesta terça-feira que "muitos mais morrerão" a menos que as forças governamentais e os rebeldes suspendam o cerco que mantêm em cidades do país.

"Isto deve parar", disse Yacoub El Hillo, coordenador humanitário da ONU para a Síria. "Muitos mais morrerão se o mundo não agir rapidamente", alertou.

El Hillo deu estas declarações um dia depois de comboios da organização entregarem as primeiras provisões em três meses em Madaya.

Várias centenas de pessoas "estão em perigo de morte", porque estão desnutridas ou com "outros problemas médicos", de acordo com o chefe de operações humanitárias da ONU, Stephen O'Brien.

"Quatrocentas pessoas devem ser evacuadas imediatamente", e a ONU espera fazê-lo "o mais rapidamente possível", afirmou O'Brien ao final de uma reunião do Conselho de Segurança na segunda-feira.

"O Comitê Internacional da Cruz Vermelha, o Crescente Vermelho e as Nações Unidas trabalham nisso, mas é um processo muito complicado e que requer permissões para ser feito", disse à AFP Pawel Krzysiek, porta-voz do CICV em Damasco.

"Estamos negociando com todas as partes". Para retirar os habitantes em segurança por via rodoviária ou aérea são necessárias garantias do governo sírio, mas também de "outras partes", disse.

"A primeira impressão é de partir o coração: não só vi crianças, mas também adultos muito fracos e desnutridos em Madaya", relatou Krzysiek. "Vimos muitas pessoas na rua, algumas sorriam e nos saudavam com a mão, outras estavam fracas e cansadas demais", acrescentou.

Ao menos 400 mil pessoas vivem em zonas sitiadas por tropas do regime ou por grupos armados rebeldes e não podem receber abastecimento, segundo a ONU.

Funcionários da ONU e do CICV que foram no local segunda-feira ficaram chocados com a miséria em que vivem os 42 mil habitantes da cidade.

Comboios com alimentos vão para cidade síria assolada pela fome

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Exército avança

Após a indignação internacional provocada pelas notícias sobre Madaya, o regime concordou, na semana passada, em autorizar a entrega de alimentos na cidade, o que também será permitido em outros povoados sitiados e controlados por rebeldes.

Além de Madaya, 21 outros caminhões entraram em Fua e Kafraya, duas localidades xiitas cercadas pelos rebeldes e localizadas a mais de 300 km de Damasco, na província de Idleb (noroeste).

Segundo o previsto, estas três cidades e o reduto rebelde de Zabadani, perto de Madaya, receberão uma ou duas cargas a mais de ajuda esta semana.

Na frente militar, as forças do regime sírio tomaram o controle da cidade estratégica de Salma, o principal reduto rebelde na província de Latakia, no oste do país, informou uma fonte militar citada pela televisão estatal.

A recuperação da cidade, que os rebeldes tinham ocupado em julho de 2012, representa a maior vitória do regime desde que a Rússia começou uma campanha de bombardeios para apoiar o governo de Bashar al-Assad, no fim de setembro.

"Nossas unidades do exército, em coordenação com as Forças de Defesa Nacional (FDN, milícias pró-regime) assumiram o controle total da cidade de Salma e das colinas circundantes", afirmou uma fonte militar citada pela TV estatal.

A ofensiva foi precedida por 120 ataques aéreos russos na região em apenas 48 horas. Nos últimos dias, as forças do governo assumiram o controle de várias localidades da região.

Salma, situada a 800 metros de altitude, estava sob controle dos rebeldes desde julho de 2012.

"Com a queda da cidade, será mais fácil avançar na montanha de Al-Akrad", que domina a região, avaliou um especialista.

No plano diplomático, o presidente russo, Vladimir Putin, considerou que Assad cometeu "muitos erros durante o conflito" sírio e que é cedo para falar de um eventual asilo na Rússia.

Vladimir Putin respondeu desta forma a uma pergunta sobre um eventual exílio na Rússia se Assad perder as eleições em seu país.

O mapa do caminho internacional para solucionar o conflito da Síria adotado pelo Conselho de Segurança da ONU prevê negociações entre as partes sírias em janeiro, um governo de transição seis meses depois e eleições em um prazo de 18 meses.

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