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Coronavírus assombra os campos de deslocados da Síria; falta até água

24.mar.2020 - Integrante da defesa civil da Síria desinfeta barraca no campo de refugiados de Kafr Lusin - AAREF WATAD / AFP
24.mar.2020 - Integrante da defesa civil da Síria desinfeta barraca no campo de refugiados de Kafr Lusin Imagem: AAREF WATAD / AFP

Em Kafr Lusin, Síria

26/03/2020 09h55

Em um campo de deslocados do noroeste da Síria, um médico descreve as precauções necessárias para se proteger do novo coronavírus. Mas Abdallah Yasín, que vive com outras 14 pessoas em uma barraca, sabe que se a epidemia se propagar, a "catástrofe humanitária" será inevitável.

Na província de Idlib e arredores, três milhões de pessoas sobrevivem na extrema pobreza, com acesso limitado à atenção sanitária ou à água potável, em uma área onde dezenas de hospitais estão fora de serviço por conta dos bombardeios e combates.

A Síria relatou apenas um caso do novo coronavírus nos territórios sob o controle do governo, e nenhum foi registrado na região de Idlib, a última grande fortaleza jihadista e rebelde, recentemente alvo de uma ofensiva do regime.

Mas diante dos perigos, especialmente nos campos de deslocados superlotados, organizações humanitárias e organismos internacionais já colocaram em andamento um dispositivo para evitar a propagação da epidemia.

Perto do povoado de Kafr Lusin, no campo de Yasín, algumas dezenas de pessoas se reúnem em torno de um médico da ONG turca IHH, ouvindo suas instruções ou lendo com atenção os folhetos que receberam.

"Ao invés de nos dar lições, instalem uma clínica médica para essas pessoas", disse à AFP Yasín, de 57 anos, sem ocultar sua frustração.

Entre as medidas de precaução já aplicadas, um laboratório da cidade de Idlib recebeu na terça-feira 300 kits de diagnóstico para a covid-19 enviados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) através de uma ONG.

Embora comemore, o diretor do laboratório, Mohamad Shahm Mekki, teme que seja insuficiente. "É pouco comparado com a densidade da população" em Idlib, afirma à AFP.

"Água cortada"

Com a última ofensiva do regime, suspensa após o anúncio de uma trégua no início de março, cerca de um milhão de pessoas foram deslocadas desde dezembro, agravando as condições de vida já precárias em Idlib.

Em uma Síria onde o conflito já matou mais de 380.000 pessoas e destruiu infraestruturas, menos de dois terços dos hospitais estavam funcionando no final de 2019, segundo a OMS.

Um Khaled vive con seus filhos, sua nora e seus netos em outro campo de Idlib, próximo a Harem.

"Não há serviços médicos nem medicamentos", lamenta a mulher de 40 anos.

São sete em uma barraca e, na medida do possível, ela tenta manter o espaço limpo e lavar os pequenos, esfregando suas mãos com água e sabão.

"Às vezes a água é cortada (...) e não temos o suficiente para limpar as crianças e a barraca diariamente. No geral, a cada dois ou três dias", lamenta a mulher.

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