Tim Vickery: Os persistentes mistérios da morte de JFK --e o que ele poderia ter feito se vivo

Tim Vickery

Colunista da BBC Brasil*

  • AP Photo/File

Nunca acreditei na hipótese - uma das mais consagradas - que classifica Lee Harvey Oswald como um "maluco solitário", um fracassado em tudo o que fez, e que acabou descarregando suas frustrações assassinando John F. Kennedy, o presidente dos Estados Unidos, 54 anos atrás.

Minha descrença se fundamenta em três motivos:

Primeiro, a história de vida de Oswald. Tem tanta coisa que permanece inexplicada. Oswald nasceu pobre, teve uma carreira militar boa o suficiente que lhe garantiu acesso a arquivos secretos. Foi morar na União Soviética, voltou (não se sabe como) com uma esposa bonita, e teve duas filhas. Fez panfletagem a favor da Cuba de Fidel Castro, aparecendo na televisão e rádio para debater o assunto. Tudo isso com 24 anos - idade em que a maioria dos homens está apenas começando a se definir e ainda não fez nada realmente marcante. Não consigo ver nisso a trajetória de um fracassado.

Dallas Police Department/Dallas Municipal Archives/University of North Texas/ via Reuters
Lee Harvey Oswald, no centro, foi acusado pelo assassinato de JFK

Segundo, note-se o comportamento dele após ser preso pelo assassinato de Kennedy. Oswald foi interrogado durante horas. Curiosamente não há relatório policial que forneça detalhes do interrogatório, o que só confunde a compreensão histórica dos fatos e alimenta as inúmeras teorias conspiratórias existentes. Em custódia policial, ele apanha bastante e, diante das câmeras, mostra uma calma impressionante, sempre negando a autoria do crime.

Esse comportamento não combina com a descrição de "loucos solitários". Esses normalmente vivem para tais momentos de glória. Na verdade, sonham com ele, como seu grande objetivo.

A versão oficial diz que, ao atingir o presidente, Oswald conseguiu um feito extraordinário como atirador, uma façanha quase impossível. Com toda certeza, se ele fosse um desses "malucos solitários", estaria se gabando com a arrogância de um Mohammad Ali. Muito provavelmente iria dizer, "vocês duvidaram de mim, e vejam o que fiz, vejam como sou sensacional", ou algo parecido. Oswald não poderia estar mais distante desse perfil. Certamente não era o homem que foi retratado.

E terceiro, ele foi assassinado na delegacia de Dallas, sem ter tido, portanto, oportunidade de se defender, tornando ainda mais razoáveis as teorias conspiratórias de que teria sido silenciado. Até porque, com sua morte, a investigação do assassinato passou a ser feita a partir da certeza da sua culpa.


O seu assassino, Jack Ruby, tinha ligações com a máfia, o que para muitos, deu força à ideia de que a coisa toda era uma operação do crime organizado, confundindo mais ainda o entendimento. A meu ver, essa hipótese pode ser descartada facilmente.

A máfia siciliana nos Estados Unidos vivia entre dois mundos; a hierarquia da estrutura familiar de seu país de origem, e o sistema legal de uma democracia liberal.

Tudo mundo sabia que Al Capone, por exemplo, mandava no crime. Mas como provar a sua culpa no tribunal? Por medo ou dever, ninguém testemunhava - e os que tentaram não viveram o suficiente para fazê-lo.

Diante da dificuldade, o Estado teve que achar uma outra maneira de pegar o "capo". Capone foi preso por sonegação de impostos.

Não acho que seria conveniente para a máfia, sozinha, assassinar o presidente. Seria uma declaração de guerra que receberia uma resposta à altura. O Estado não iria dar trégua e na caça aos autores, faria de tudo. Qualquer homem de terno extravagante que tivesse comido uma lasanha na vida seria preso. Não houve essa reação, portanto, concluo que as investigações não apontaram para uma ação isolada da máfia.

Na semana passada, foram liberados vários documentos sobre o caso. Adoraria ter o tempo, e a paciência, para vasculhar tudo. Infelizmente, não tenho. Mas li nos jornais que entre os documentos liberados, estava um relatório sobre a repercussão na União Soviética do assassinato de Kennedy e dos fatos que se seguiram a ele. Como aconteceu em Cuba, na URSS, a interpretação era de que o assassinato tinha sido um golpe político.

Sabe-se que a União Soviética não somente pensava assim, mas agiu também. Alguns meses depois do assassinato de Kennedy, o líder soviético Nikita Khrushchev, carismático, porém instável, foi deposto e substituído por Leonid Brezhnev, sólido, pragmático, quase uma múmia em forma humana. A mudança da linha de comando de um dos lados da Guerra Fria teria obrigado uma mudança da linha de comando do outro lado.

Se houve realmente uma rixa na elite americana, é muito provável que a fonte do conflito tenha sido a política externa. Saindo da Segunda Guerra Mundial como um superpotência global, os Estados Unidos tinham novas responsibilidades, oportunidades e ameaças.

No seu último discurso como presidente, o general Eisenhower advertiu que pela primeira vez o país tinha uma indústria de armamentos em bases permanentes, e que esse "complexo militar-industrial" poderia se tornar poderoso demais, distorcendo prioridades nacionais. Foi uma declaração extraordinária, principalmente se considerarmos que foi dita por um militar de carreira.

Seu sucessor foi John Kennedy, um especialista em política externa. Tinha viajado o mundo todo, escrevendo relatórios para seu pai, um político de peso e embaixador dos EUA na Grã-Bretanha. Cobriu como jornalista a fundação das Nações Unidas. Conheceu o Vietnã e o Oriente Médio. Foi guiado pela ideia de que os Estados Unidos deveriam ser um aliado do nacionalismo no terceiro mundo - uma linha muito diferente do anticomunismo predominante na época. Não achava que o Vietnã era um tema de grande interesse para a segurança dos Estados Unidos e estava planejando uma retirada.

Já em relação ao Brasil, Kennedy revelou ter pouca simpatia a uma agenda de desenvolvimento nacional. Tentou pressionar João Goulart e financiou a campanha de oposição ao presidente.

O golpe militar no Brasil acabou acontecendo quatro meses depois de sua morte, já com o novo presidente, Lyndon Johnson, aplaudindo o sucesso da operação que derrubou o governo Goulart.

Teria sido diferente se Kennedy tivesse sobrevivido? É uma grande pergunta que segue sem resposta.

Com uma maioria pequena no Congresso e acuada politicamente, Kennedy estava sempre pisando em ovos.

Tudo indica porém que iria ser reeleito com sobra, e iria ter mais força e independência para agir - com o seu irmão Bobby pronto para ganhar o próximo mandato e dar sequência ao clã Kennedy no comando da maior potência mundial.

Teríamos chance de conhecer o verdadeiro presidente Kennedy. Seria tão bom na prática quanto eram seus discursos? Nunca saberemos - uma frustração enorme, até porque um dos grandes testes seriam as relações com o Brasil.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick.

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