Entre ameaças de resistência e negociações, imbróglio de Lula se estende para fim de semana

André Shalders, Felipe Souza e Mariana Sanches

Da BBC Brasil, em Curitiba e São Paulo

O juiz federal Sergio Moro havia definido esta sexta-feira (6) como o dia em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deveria se apresentar à Polícia Federal e, assim, começar a cumprir a pena de 12 anos e um mês de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Mas uma estratégia do petista acabou por alterar o script traçado pelo magistrado, estendendo para o final de semana o imbróglio sobre a situação do político.

Após um dia marcado pela reunião de uma multidão em volta do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (SP), onde Lula estava abrigado desde a noite de quinta (5), a Polícia Federal anunciou que não cumpriria o mandado de prisão contra o ex-presidente nesta sexta, enquanto fontes ligadas ao petista sugeriam que ele poderia se entregar às autoridades nos próximos dias.

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Nomes do PT e de partidos aliados e líderes de movimentos sociais passaram o dia entretendo milhares de militantes com discursos inflamados em defesa do líder, em frente ao prédio do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

Gleisi Hoffmann, do PT, Manuela D'Ávila, do PCdoB, Guilherme Boulos, do PSOL, entre outros, garantiam que Lula não se entregaria. Entre uma fala e outra, prometiam que, em instantes, o petista estaria no palco. O ex-ministro Gilberto Carvalho afirmou ao jornal "Estado de S. Paulo" que os manifestantes seriam orientados a fazer um cordão humano para proteger Lula da ação de agentes da PF.

PT fala em cerceamento de defesa

O discurso político era de resistência diante do que o PT tem classificado como "cerceamento da defesa". A defesa de Lula questiona a decretação da prisão antes que os advogados pudessem apresentar seus últimos recursos --os chamados "embargos dos embargos" no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4).

Com essa argumentação, o defensor Cristiano Zanin Martins entrou com novos pedidos de habeas corpus no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e no Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar barrar a detenção do ex-presidente.

O habeas corpus no STJ, no entanto, acabou rejeitado ainda na tarde de sexta pelo ministro Felix Fischer, enquanto o habeas corpus pedido ao STF ainda está por ser analisado.

José Eduardo Cardozo negocia com PF

Se o tom público dos aliados de Lula podia soar virulento, por outro lado, ao longo da tarde, um grupo de emissários do ex-presidente sentava-se à mesa com representantes da Polícia Federal para negociar a possível prisão.

As conversas eram lideradas pelo ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo e pelo advogado Sigmaringa Seixas. Sigmaringa é amigo pessoal, antigo articulador petista junto ao Judiciário e homem de confiança de Lula.

Já Cardozo liderou a Polícia Federal ao longo dos quase seis anos em que esteve à frente da pasta da Justiça, na gestão Dilma Rousseff. Nesse período, ele conquistou a confiança da corporação por não intervir nos procedimentos investigativos, especialmente naqueles da operação Lava Jato.

Seu comportamento de pouca interferência em relação à corporação chegou a provocar críticas do próprio Lula. Mas foi justamente o estilo que o converteu em um negociador privilegiado do destino de Lula.

Prisão em SP, missa e sem cabelo raspado

Por meio de ambos, o ex-presidente pleiteava ser preso em São Paulo, não em Curitiba, onde uma sala de 15 metros quadrados na sede da PF o esperava há dias.

Também fazia questão de estar presente, ao lado dos filhos, a uma missa em homenagem à Marisa Letícia a ser celebrada por dom Angélico Bernardino na manhã deste sábado, no próprio sindicato. Morta no ano passado, Marisa completaria 68 anos no sábado.

Outra exigência de Lula era não passar por práticas vexatórias, como ser algemado (possibilidade que o próprio juiz Sérgio Moro já havia excluído em sua ordem de prisão), ser colocado em camburão e ter seu cabelo raspado.

Negociações continuam

Na prática e distante dos olhos da militância, Lula admitia se submeter à ordem judicial e ir para a cadeia em breve. No entanto, deixava claro que sua força política e popular o credenciavam a se entregar em seus próprios termos, e não naqueles estabelecidos pelo juiz Sergio Moro.

As negociações entraram pela noite e acabaram suspensas em condições amistosas. Pessoas envolvidas na conversa pelo lado de Lula afirmaram à BBC Brasil que a tendência é que o ex-presidente se entregue à PF em São Paulo, neste sábado.

Fontes ligadas à Polícia Federal também confirmaram reservadamente os termos e o andamento das conversas. Ainda assim, a definição da data e do local da prisão foram adiados para sábado. Até o fim do diálogo, a PF garante que não fará investidas para prender Lula, tampouco o petista deverá se entregar.

De "tô tranquilo" a "pronto para prisão": o que Lula já disse da condenação

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