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Quem são os estrangeiros que participam de atos a favor de Lula em Curitiba

Ana Carla Bermúdez

Do UOL, em Curitiba

20/04/2018 12h00

O português não foi a única língua ouvida nos protestos realizados por manifestantes favoráveis ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas imediações da Superintendência da PF (Polícia Federal) em Curitiba, onde o petista está preso desde o dia 7 de abril.

Ao longo da semana, pessoas de pelo menos quatro países --Argentina, Espanha, México e Noruega-- participaram de atos políticos na vigília que pede a liberdade do ex-presidente.

O “fri Lula” (Lula livre, em norueguês) foi trazido por uma comitiva de dez jovens que vieram do país nórdico. Eles estão no Brasil há dois meses e chegaram a Curitiba nesta segunda (16).

“As pessoas nos receberam de maneira tão aberta, com curiosidade, compartilharam tudo com a gente”, conta Guro Stafseth, 22, que passou os últimos quatro anos viajando por países do mundo todo.

A comitiva veio ao Brasil como parte de um intercâmbio cultural promovido por uma organização norueguesa, chamada LAG (Latin-Amerikagruppene i Norge, que significa Comitê Norueguês de Solidariedade à América Latina, em tradução livre).

Todos os anos, o programa envia duas “brigadas de solidariedade” para a Colômbia, a Venezuela ou o Brasil –em paralelo, recebe ativistas desses países na Noruega. No Brasil, o intercâmbio é feito com o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).

“Nós estamos aqui para apoiar o MST e para apoiar Lula”, diz Ninthu Paramalingam, 20. Ela conta que, a princípio, teve dificuldade em entender o contexto da política brasileira.

“Na Noruega, não idealizamos as pessoas assim. Depois eu entendi tudo o que está por trás dele, que não é só sobre ele, é a simbologia do que ele fez para o povo anos atrás”, afirma.

Desde que chegou ao Brasil, o grupo norueguês passou um tempo na Escola Nacional Florestan Fernandes, Do MST em São Paulo, e no acampamento Herdeiros da Luta de Porecatu, na região norte do Paraná, além de passar pelo Rio de Janeiro.

Eline Aresdatter, 23, também faz parte da comitiva e conta que o que mais a impressionou no Brasil foi “a distância entre direita e esquerda”.

“[Na Noruega] não há um contraste tão grande entre os jornais de direita e esquerda. Aqui é muito diferente. É quase como se você não soubesse qual é a verdade”, diz.

Ela afirma que, mesmo assim, acha muito interessante ver que as pessoas estão lutando contra a “perseguição política” que acontece contra Lula, já que na visão dela “quase não existem provas contra ele”.

Nos próximos dias, o grupo norueguês deve ir a um assentamento no interior do Paraná, próximo à cidade de Londrina.

Ao fim do programa, em julho deste ano, eles devem apresentar em seu país um trabalho sobre o tempo que passaram aqui no Brasil –o que pode ser feito visitando escolas por toda a Noruega, por exemplo, ou através de participações em reuniões e congressos.

Acampamento pró-Lula divide moradores de bairro de Curitiba

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“Difundir” a luta

Cruzando uma só fronteira, militantes da Argentina também fizeram coro aos atos em defesa de Lula em Curitiba. Cecilia Merchán, deputada do Parlasul (Parlamento do Mercosul), defende a importância de ver os protestos com seus próprios olhos.

“O melhor que podemos fazer, no nosso caso, é difundir o que está acontecendo aqui e fazer associações com a luta que fazemos em nosso país”, afirma. Para ela, a prisão de Lula “é um retrocesso para toda a vida democrática de toda nossa América”.

Os argentinos Raúl Montenegro, Cecilia Merchán, Sol de La Torre e Gisela Cernadas (da esq. para a dir.)  - Ana Carla Bermúdez/UOL
Os argentinos Raúl Montenegro, Cecilia Merchán, Sol de La Torre e Gisela Cernadas (da esq. para a dir.)
Imagem: Ana Carla Bermúdez/UOL

Ao lado de Gisela Cernadas, presidente da Fundação Universitária La Plata, da militante Sol de La Torre, do movimento popular Patria Grande, e do biólogo argentino Raúl Montenegro, laureado em 2004 pelo “Right Livelihood Award”, conhecido como Prêmio Nobel Alternativo, ela defende que Lula é “um preso sem causa”.

“Sem um processo claro, sem um julgamento claro, ele é a todas luzes um preso político”, diz.

Também estiveram no acampamento o senador espanhol Ignácio Bernal, a deputada da Catalunha Natália Sanchez, o argentino vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 1980, Adolfo Pérez Esquivel, e o mexicano Marcos Arana, vencedor do Prêmio Nobel Alternativo em 1998.

Todos participaram da programação de atos políticos da vigília feita pelos manifestantes favoráveis a Lula nesta semana.

Esquivel, inclusive, tentou visitar o ex-presidente na Superintendência da PF nesta quinta (19), mas acabou barrado pela PF. Ele então escreveu uma carta para Lula, desejando a ele “força e esperança”.

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