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Regina Duarte deixa a secretaria da Cultura: a curta trajetória da atriz no cargo

Anúncio da saída foi feito em vídeo em que a atriz aparece ao lado do presidente e divulgado nas redes sociais - Carolina Nunes/PR
Anúncio da saída foi feito em vídeo em que a atriz aparece ao lado do presidente e divulgado nas redes sociais Imagem: Carolina Nunes/PR

Da BBC

20/05/2020 11h10

Atriz deixa o cargo em Brasília após desgastes envolvendo nomeações e anuncia que vai assumiar a Cinemateca, em São Paulo.

Regina Duarte anunciou a saída do cargo de secretária especial de Cultura no governo Bolsonaro nesta quarta-feira (20/05).

Em vídeo publicado nas redes sociais do presidente, em que aparece ao lado da atriz, ela afirma que vai assumir a Cinemateca, em São Paulo.

"A família está querendo minha proximidade, eu estou sentindo muita falta dos meus netos, dos meus filhos", justificou.

"Ir pra Cinemateca, do lado do teu apartamento, ali em São Paulo, se você vai ser feliz e produzir muito mais, eu fico feliz com isso. Chateado porque você se afasta um pouco do convívio nosso em Brasília", afirmou o presidente.

Os rumores de que Regina poderia sair do ministério se arrastavam desde o início do mês.

O anúncio vem depois de uma série de desencontros: a atriz fez nomeações consideradas inadequadas ao perfil ideológico do governo e foi criticada pelo presidente pelos períodos que passou longe de Brasília.

Sua ausência no discurso em que Bolsonaro se defendeu das acusações de Moro — e que teve a presença de quase todo o primeiro escalão do governo — foi muito notada.

A BBC News Brasil relembra a curta trajetória da atriz na secretaria de Cultura.

Proximidade e 'amoro'

Conhecida por sua carreira na televisão, Regina Duarte também começou a chamar atenção nas últimas décadas por seu posicionamento político de direita.

Sua propaganda contra Lula na campanha de 2002 em que dizia "tenho medo" é lembrada até hoje. Ela também apoiou o impeachment de Dilma Rousseff em 2016.

Casada durante anos com o pecuarista Eduardo Lippincott, com quem tem uma fazenda de criação de gado da raça Brahman no interior de São Paulo, a atriz também sempre foi próxima ao setor ruralista, um dos que apoiaram Bolsonaro durante a campanha de 2018.

Ela inclusive já foi convidada para falar na ExpoAgro, um dos grandes eventos do setor, e demonstrou posições parecidas com as de Bolsonaro quanto à questão indígena, por exemplo, dizendo ser contrária à demarcação de terras.

Nas eleições de 2018, a atriz começou a demonstrar simpatia à figura de Bolsonaro, citando-o diretamente.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo em 2018, ela disse que Bolsonaro era um "cara doce".

"Quando conheci o Bolsonaro pessoalmente, encontrei um cara doce, um homem dos anos 1950, como meu pai, e que faz brincadeiras homofóbicas, mas é da boca pra fora, um jeito masculino que vem desde Monteiro Lobato, que chamava o brasileiro de preguiçoso e que dizia que lugar de negro é na cozinha", disse.

Na mesma entrevista, ela afirmou que a imagem de Bolsonaro como uma pessoa "truculenta" foi construída por seus opositores.

"São imagens montadas, pois mostram a reação dele, mas não a de quem provocou a reação. É unilateral. Quando souberam que ele ia se candidatar, começaram a editar todas as gravações e também a provocá-lo para que reagisse a seu estilo, que é brincalhão, machão."

A atriz também demonstrava afinidade ideológica com o governo.

Redes sociais da atriz têm várias publicações favoráveis ao governo, como convocações para manifestações - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

Em uma entrevista ao programa Conversa com Bial, da Rede Globo, por exemplo, ela afirmou nunca ter se declarado feminista, mesmo que entre suas interpretações mais famosas esteja a protagonista de Malu Mulher.

A série da TV Globo, de 1980, contava a história de Malu, uma mulher essencialmente feminista e que se posicionava contra os valores morais da época.

"Eu nunca me declarei feminista, mesmo fazendo a Malu. Eu não acho que as coisas são por aí. Acredito que há caminhos intermediários. Eu fui e continuo conservadora", disse.

Em 2019, primeiro ano de governo do presidente, a atriz postou várias imagens no Instagram mostrando não só Bolsonaro, mas também o então ministro da Justiça Sergio Moro; e o ministro da Economia, Paulo Guedes; frases defendendo a Operação Lava Jato e ações do governo na segurança, economia e combate à corrupção; além de convocações para manifestações pró-governo.

'Noivado' e 'casamento'

Regina Duarte foi nomeada para a secretaria de Cultura em março, após a queda do ex-secretário, Roberto Alvim, que havia feito diversas referências ao nazismo em um discurso — repetindo, inclusive, frases de Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda na Alemanha nazista.

Embora se dissesse conservadora e de direita muito tempo antes de entrar para o governo, a atriz foi acusada por alguns bolsonaristas nas redes sociais de ser uma "espiã comunista" — eles não aprovavam seus laços com a Rede Globo (com a qual teve contrato por anos) e sua proximidade com a classe artística.

Seu início não foi imediato — antes de assumir oficialmente como secretária especial de Cultura, passou por um período de "testes" que o presidente chamou de "noivado" com o governo.

Durante o "noivado", Regina esteve acompanhada em Brasília do filho mais velho, André Duarte Franco, que se declarava bolsonarista convicto nas redes sociais e inclusive acompanhou a mãe em reuniões no Planalto.

Convite para participar do governo foi feito depois de queda de Roberto Alvim - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Na posse, Regina fez um discurso que falou em "carta branca" do governo para escolher equipe e diálogo.

"Meu propósito aqui é de pacificação, diálogo permanente com o setor cultural, Estados e municípios, Parlamento e com os órgãos de controle", afirmou.

A parte que mais repercutiu de seu discurso de 15 minutos foi o momento em que ela comparou a cultura ao "pum do palhaço".

"[Cultura é] chimarrão, culto, missa das dez, desafio repentista, forró...E aquele pum produzido com talco espirrando do traseiro do palhaço... Fazendo a risadaria feliz da criançada? Cultura é assim, é feita de palhaçada!", disse ela.

Divórcio

Apesar da promessa de carta branca, a secretária teve desgastes com o governo por nomeações que fez, com nomes que foram vistos com desconfiança por não se alinharem ideologicamente ao governo.

A dificuldade em exonerar certos nomes também gerou atritos. Um deles foi o do maestro Flávio Mantovani, que presidia a Funarte, e que havia feito declarações ligando o rock ao aborto e ao satanismo.

Ele foi exonerado no mesmo dia em que Regina tomou posse, mas foi reconduzido ao cargo no último dia 5 de maio, por decreto publicado do Diário Oficial. Sua renomeação, no entanto, não durou 24 horas: no mesmo dia, em edição extra do DO, ele foi novamente demitido.

Outro nome foi do presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, cujos posicionamentos como o de que "não existe racismo no Brasil" revoltaram o movimento negro. A Fundação Palmares tem como objetivo promover a cultura negra no país.

Regina havia defendido, na posse, a demissão de Camargo. No entanto, ele continuou à frente da fundação, inclusive fazendo críticas públicas à Regina, a quem é subordinado, nas redes sociais.

Chamou atenção a ausência da secretária em reunião onde Bolsonaro rebateu acusações feitas pelo ex-ministro Sergio Moro (e onde estava todo o primeiro escalão do governo).

Regina Duarte fez vários elogios públicos a Moro desde o ápice da operação Lava Jato e era declaradamente apoiadora do ministro.

Após sua demissão, no entanto, ela manteve silêncio por alguns dias, e depois disse discretamente que continuava mantendo apoio a Bolsonaro.

"Juntos pelo Brasil", escreveu ela, em uma postagem que depois foi escondida de seus seguidores.

Logo após o "iô-iô" com Mantovani gerar rumores de saída da secretária do governo, Bolsonaro convidou Regina para um encontro.

A reunião, que deu certa sobrevida à permanência da atriz na secretaria, teve também a presença do ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, ao qual a secretaria de cultura é subordinada — a pasta perdeu o status de ministério no governo Bolsonaro.

No encontro também esteve presente Sergio Camargo, que depois disse à revista Veja que "se sentiu prestigiado". "Todo mundo sabe que a situação dela é delicada, mas nada disso passa por mim", afirmou ele à revista.

Sua presença na reunião aumentou a percepção de que Camargo poderia ser um dos nomes cotados para substituir Regina na secretaria de Cultura.

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